sábado, 1 de julho de 2006
As populações seguem o instinto que a nossa História lhes pôs no sangue: alia-te ao rico e não àquele que o contesta. Em termos de sobrevivência, o instinto é mais certo do que a razão: não é verdade que o que contesta o rico, em lugar da riqueza, o quer ser? Entre ser governado por pedintes, que esqueceram as migalhas, ou por dadores de esmolas, optaria, se a isso fosse obrigado, pelos segundos. Ou sob uma outra forma: entre o rico histórico e um novo rico, preferiria, de longe e sem pensar, o primeiro. Ou ainda: entre o novo rico de esquerda, e pela esquerda, e o sempre rico da direita, e pela direita, optaria por este. Aquele, regra geral, usa a esquerda para chegar a ser de direita. O povo o diz: não sirvas a quem serviu e não peças a quem pediu.
A meta, ou, se quisermos, a utopia, da esquerda revolucionária, que ruiu, não visava, em teoria, que o proletário substituísse (passasse a ser) o rico, que o escravo substituísse o senhor ou que o explorado substituísse o explorador, mas a superação de ambos. O “socialismo” ruiu porque, em lugar de caminhar – e poderia ser outro o caminho? – para a superação do antagonismo senhor/escravo, proletarizou toda uma sociedade, substituindo, no plano económico, o antigo explorador pela estrutura do partido. Sem a contradição classista e sem ter caminhado (e seria possível fazê-lo?) para a superação do explorador/explorado, a economia “socialista” não podia ter outro fim senão o seu próprio esgotamento.
A esquerda reformista, todos o sabem, não visa ser alternativa ao capitalismo nem ser revolucionária, mas, mediante reformas, edificar, consolidar e defender o Estado Providência. Assim, a esquerda reformista não pode, com o risco de se descaracterizar, pretender substituir-se à direita, mas superá-la, claro, em moldes reformistas. Ora, o que assistimos com o governo de Sócrates é o ele substituir-se, política, social e economicamente, ao centro-direita. E de tal forma a substituição resultou que o suplente (PS) está a ser melhor do que o titular (PSD), para espanto das SADs dos grupos empresariais e financeiros, que não se cansam de elogiar a coragem política do suplente Sócrates. Este mimetismo político do PS de Sócrates só é possível porque não há uma direita em Portugal. De certa forma, desde Cavaco, a direita não tem tido partido. A crise de liderança do PSD não só não deixou de se acentuar desde Cavaco como não tem solução à vista. Se Marques Mendes não se vê, a alternativa Filipe Menezes seria o regresso a um certo santanismo. Para agravar tudo isto, foi durante os governos de Durão e Santana que a crise, com uma inércia que já vinha dos anteriores governos do PS e do PSD, bateu no fundo, deixando o caminho livre a Sócrates. Contudo, apesar da fragilidade em que o PSD se encontra, apesar da maioria absoluta de Sócrates, o certo é que o PS se substitui ao PSD em lugar de o superar. Face a uma economia fragilizada e a um país em depressão, Sócrates, em nome da crise e por esta justificada «cortou a direito» (palavras de Jorge Coelho na Quadratura do Círculo), a que Pacheco Pereira acrescentou: «e à direita». Para quê mais palavras, se o discurso se fez redondo? O PS é, neste momento, um partido de centro direita na forma – arrogante – e no conteúdo – liberalizante. Sócrates criou uma inércia política de direita, perigosa, que amanhã o PSD vai aproveitar. E quem a vai, então, parar? Sócrates? Por tudo isto, a oposição a esta política nunca poderá vir do PSD, mas pedidos de a aprofundar. Assim, seria de esperar que a contestação surgisse dentro do próprio PS, porque quem não contesta a direita em casa como a pode contestar na casa alheia? Os interesses e/ou a falta de democraticidade interna do partido falam mais alto do que a ideologia. Que é feito de Alegre? Escreve sobre futebol!
PS. A afirmação de Manuel dos Santos, eurodeputado do PS, que diz ser o governo de Sócrates uma «Comissão Liquidatária» do PS, é de grande dignidade. Mas sabendo-se que os partidos não têm vida democrática ou outra – abrem para eleições e os que ganham fecham, de seguida, para o “governanço”, e os que perdem, para balanço – não é de esperar grande contestação interna. O certo é que amanhã – quando Sócrates cair e o PS for oposição (a quê se ele abriu as portas a esta política?) – todos vão acusá-lo daquilo que hoje poucos têm coragem para o fazer e dizer.
A meta, ou, se quisermos, a utopia, da esquerda revolucionária, que ruiu, não visava, em teoria, que o proletário substituísse (passasse a ser) o rico, que o escravo substituísse o senhor ou que o explorado substituísse o explorador, mas a superação de ambos. O “socialismo” ruiu porque, em lugar de caminhar – e poderia ser outro o caminho? – para a superação do antagonismo senhor/escravo, proletarizou toda uma sociedade, substituindo, no plano económico, o antigo explorador pela estrutura do partido. Sem a contradição classista e sem ter caminhado (e seria possível fazê-lo?) para a superação do explorador/explorado, a economia “socialista” não podia ter outro fim senão o seu próprio esgotamento.
A esquerda reformista, todos o sabem, não visa ser alternativa ao capitalismo nem ser revolucionária, mas, mediante reformas, edificar, consolidar e defender o Estado Providência. Assim, a esquerda reformista não pode, com o risco de se descaracterizar, pretender substituir-se à direita, mas superá-la, claro, em moldes reformistas. Ora, o que assistimos com o governo de Sócrates é o ele substituir-se, política, social e economicamente, ao centro-direita. E de tal forma a substituição resultou que o suplente (PS) está a ser melhor do que o titular (PSD), para espanto das SADs dos grupos empresariais e financeiros, que não se cansam de elogiar a coragem política do suplente Sócrates. Este mimetismo político do PS de Sócrates só é possível porque não há uma direita em Portugal. De certa forma, desde Cavaco, a direita não tem tido partido. A crise de liderança do PSD não só não deixou de se acentuar desde Cavaco como não tem solução à vista. Se Marques Mendes não se vê, a alternativa Filipe Menezes seria o regresso a um certo santanismo. Para agravar tudo isto, foi durante os governos de Durão e Santana que a crise, com uma inércia que já vinha dos anteriores governos do PS e do PSD, bateu no fundo, deixando o caminho livre a Sócrates. Contudo, apesar da fragilidade em que o PSD se encontra, apesar da maioria absoluta de Sócrates, o certo é que o PS se substitui ao PSD em lugar de o superar. Face a uma economia fragilizada e a um país em depressão, Sócrates, em nome da crise e por esta justificada «cortou a direito» (palavras de Jorge Coelho na Quadratura do Círculo), a que Pacheco Pereira acrescentou: «e à direita». Para quê mais palavras, se o discurso se fez redondo? O PS é, neste momento, um partido de centro direita na forma – arrogante – e no conteúdo – liberalizante. Sócrates criou uma inércia política de direita, perigosa, que amanhã o PSD vai aproveitar. E quem a vai, então, parar? Sócrates? Por tudo isto, a oposição a esta política nunca poderá vir do PSD, mas pedidos de a aprofundar. Assim, seria de esperar que a contestação surgisse dentro do próprio PS, porque quem não contesta a direita em casa como a pode contestar na casa alheia? Os interesses e/ou a falta de democraticidade interna do partido falam mais alto do que a ideologia. Que é feito de Alegre? Escreve sobre futebol!
PS. A afirmação de Manuel dos Santos, eurodeputado do PS, que diz ser o governo de Sócrates uma «Comissão Liquidatária» do PS, é de grande dignidade. Mas sabendo-se que os partidos não têm vida democrática ou outra – abrem para eleições e os que ganham fecham, de seguida, para o “governanço”, e os que perdem, para balanço – não é de esperar grande contestação interna. O certo é que amanhã – quando Sócrates cair e o PS for oposição (a quê se ele abriu as portas a esta política?) – todos vão acusá-lo daquilo que hoje poucos têm coragem para o fazer e dizer.
segunda-feira, 26 de junho de 2006
Se Cavaco, enquanto primeiro-ministro, que foi, é responsável pela degradação da formação dos professores que o seu ministro da Educação Roberto Carneiro levou a cabo, com a abertura de Universidades e ESEs ao privado, sem ter em conta a sua qualidade, Sócrates, a versão cavaquista do PS, está a dar o golpe de misericórdia na Escola Pública, através da sua capataz e carrasca Maria de Lurdes. Não admira, assim, que ao «mate-se» de Sócrates responda o «esfole-se» de Cavaco.
Cinco medidas a tomar pelos professores:
- Deixarem-se de Modelos e Continentes fixos, que a paradigmática e a tectónica das placas desmentem.
- Todas as Marias de Lurdes, vulgo Lulus, devem ir ao registo civil e mudarem rapidamente de nome.
- Enviarem um SMS ao Belmiro, de preferência, pela Optimus, para o ajudar na OPA à PT, agradecendo-lhe a defesa intransigente das causas dos professores.
- Comprarem todos os dias o Público e agradecer ao Zé o apoio dado à luta dos professores.
- Todos o que votaram PS enviarem uma carta ao Zé Sócrates, dando-lhe os parabéns pela sua política educativa.
Cinco medidas a tomar pelos professores:
- Deixarem-se de Modelos e Continentes fixos, que a paradigmática e a tectónica das placas desmentem.
- Todas as Marias de Lurdes, vulgo Lulus, devem ir ao registo civil e mudarem rapidamente de nome.
- Enviarem um SMS ao Belmiro, de preferência, pela Optimus, para o ajudar na OPA à PT, agradecendo-lhe a defesa intransigente das causas dos professores.
- Comprarem todos os dias o Público e agradecer ao Zé o apoio dado à luta dos professores.
- Todos o que votaram PS enviarem uma carta ao Zé Sócrates, dando-lhe os parabéns pela sua política educativa.
sexta-feira, 23 de junho de 2006
A Páscoa natural está entre nós e as tílias seu altar-mor. “Naturemo-nos”, desnaturados, e celebremo-la na floração das tílias. Celebremo-la numa oração à natureza divina da divina Natureza. Saudemos, na floração das tílias, a ressurreição do vegetal. Saudemos, nas tílias, a Natureza e nossa fidelidade à Terra. Saudemos, na Terra, o ventre vegetal. Saudemos, nas tílias, as árvores, irmãs nossas antiquíssimas. Saudemos, nas tílias, a Cidade. Saudemos, nas nossas tílias, todas as árvores de todas as cidades do Mundo. Saudemos, na árvore, a metáfora da Criação e de Tudo amplexo. Saudemos, nas árvores, a Contemporaneidade. Saudemos, no reino vegetal, a alimentação empedocliana de terra, água, ar e fogo. Saudemos, na vegetalidade, os ombros da animalidade. Saudemos, na folhagem, o ar que respiramos. Saudemos, na seiva, o sangue nosso primitivo. Saudemos, nas raízes, o nosso amor à terra e às origens. Saudemos, no tronco, a Verticalidade. Saudemos, nas copas, o céu que tocam, as aves que as habitam e o vento que as agitam, sacodem e exercitam. Saudemos, na floresta, o mundo vegetal e seus medos, mistérios e virgindade antigos. Saudemos, na floresta, Enkidu e os cedros do Líbano. Saudemos, nas florestas africanas, a nossa Casa antiga, de onde, um dia, saímos, mal passo e atrevimento nossos, abalando pela savana da existência. Saudemos a saúde do natural, deste lado doente e artificial. Saudemos, na floração das tílias, o nascimento de Eros, que antes de ser animal foi vegetal. Saudemos, na floração das tílias, as primeiras flores que enfeitaram a Terra. Saudemos, na floração das tílias, o tempo de núpcias vegetais. Saudemos, na floração das tílias, a nossa floração. Saudemos, himeróticos, as tílias vestidas de erotismo. Saudemos os insectos que vêm, casamenteiros, à orgia vegetal. Saudemos, na perda de virgindade de miríades de corolas, os lábios de pétalas. Saudemos, na floração das tílias, o bacanal vegetal acima do bem e do mal. Saudemos, na desfloração, a floração. Saudemos, na floração das tílias, o cio da terra, da seiva e da vida.
Choremos a partida dos deuses da Terra. Choremo-la. Choremos a morte da natureza divina da Natureza que a metafísica, a racionalidade e a ciência sentenciaram. Oh, Terra antiga, Jardim dos deuses e os homens seus jardineiros! Expulsamos a humanidade superior divina e substituímo-la por um Deus estranho à Terra. Devastamos o Jardim e substituímo-lo pela Civilização. Expulsamos os olhos cheios de Natureza e substituímo-los por uma razão repleta de fórmulas e equações abstractas. Que importa ter uma teoria do Universo, se o Universo não tem nem precisa de teoria alguma? Que importa a teoria da criação, se não amamos as criaturas? Há mais verdade na iliteracia absoluta do que na absolutização da literacia. Há mais Universo no sentir do que no conhecer. Conhecer sem sentir é mentira científica como sentir sem sentimento é farsa artística.
O nosso pecado original foi termos saído da Natureza. Queda irreversível. Saímos da naturalidade e entramos na artificialidade. Artificiais, artificiais, cada vez mais, artificiais, é o que nós somos. Não há baptismos nem políticas que nos limpem. Uns vão ao Jordão limpar-se, outros, pela mão de Rousseau e Marx, vão ao passado buscar o «bom selvagem» para curar o mau selvagem civilizacional. Não é pela vida nem pela História que voltamos a Casa, mas pela mão da morte, que ao pó natural nos restitui. Saudemos, nas floração das tílias, a saudade da naturalidade, que fomos.
Choremos a partida dos deuses da Terra. Choremo-la. Choremos a morte da natureza divina da Natureza que a metafísica, a racionalidade e a ciência sentenciaram. Oh, Terra antiga, Jardim dos deuses e os homens seus jardineiros! Expulsamos a humanidade superior divina e substituímo-la por um Deus estranho à Terra. Devastamos o Jardim e substituímo-lo pela Civilização. Expulsamos os olhos cheios de Natureza e substituímo-los por uma razão repleta de fórmulas e equações abstractas. Que importa ter uma teoria do Universo, se o Universo não tem nem precisa de teoria alguma? Que importa a teoria da criação, se não amamos as criaturas? Há mais verdade na iliteracia absoluta do que na absolutização da literacia. Há mais Universo no sentir do que no conhecer. Conhecer sem sentir é mentira científica como sentir sem sentimento é farsa artística.
O nosso pecado original foi termos saído da Natureza. Queda irreversível. Saímos da naturalidade e entramos na artificialidade. Artificiais, artificiais, cada vez mais, artificiais, é o que nós somos. Não há baptismos nem políticas que nos limpem. Uns vão ao Jordão limpar-se, outros, pela mão de Rousseau e Marx, vão ao passado buscar o «bom selvagem» para curar o mau selvagem civilizacional. Não é pela vida nem pela História que voltamos a Casa, mas pela mão da morte, que ao pó natural nos restitui. Saudemos, nas floração das tílias, a saudade da naturalidade, que fomos.
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