terça-feira, 15 de agosto de 2006
Nunca poderia ser político porque detesto estar com a maioria ou ela comigo. A maioria está sempre certa: segue o que vai à frente e nunca se segue a si. Na política, sempre fui perdedor, mesmo quando ganhei. Votei Sampaio, mas perdi. Perdão, perdemos. Há quem ganhe sempre, ou quase sempre, e se sinta, por isso, o mais feliz dos mortais. Estão neste caso os que são, politicamente, do PSD ou do PS e, desportivamente, do FCP. Num dia, põem a bandeira do FCP na varanda, no outro, a bandeira do PS ou do PSD. Melhor do que isto só uma casal centrão, estratégia, por alguns montada, para ganhar sempre: ele do PSD ela do PS, ou ao contrário, o que vai dar ao mesmo. Quem se importa de ganhar a si mesmo?
A maioria, seja simples ou absoluta (ditadura democrática), nunca a poderia ver como um «ganhámos-lhes!», mas como uma forma de “todos” ganharmos. As maiorias absolutas são sempre fruto de conjunturas difíceis e das fragilidades do adversário. Contudo, os políticos, em lugar de se compreenderem como seu efeito, olham-nas como causa sua. A maioria que, hoje, deu a maioria absoluta a Sócrates é a mesma maioria que, ontem, a tinha dado a Cavaco; a maioria, que lhes deu a maioria, é, apesar dos anos volvidos, a mesma maioria que não lê um livro na vida; a mesma maioria que colocaria o Sol a andar em torno da Terra, caso o assunto fosse a votos; a mesma maioria, mas para absolutíssima, que nada sabe de Ourique a Alcácer-Quibir, de D. Sebastião a Cavaco, das cantigas de amor e de escárnio e maldizer a Saramago, passando por Fernão Lopes; a mesma que decide da vida dos outros sem nunca se interrogar pela sua; a mesma que vota onde os caciques da terra, dos céus e do purgatório lhe mandam; a mesma que vê todos os dias telenovelas e não dá conta da telenovela da sua vida; a mesma que não perde big-brothers, celebridades e directos de bodas de pessoas importantes num voyeurismo compensador da cegueira de si; a mesma que decide a política sem saber o que é a política; a mesma que não sabe ler o livro de reclamações do existir e de fazer uma reclamação aos homens, aos políticos e aos deuses; a mesma que não faz a Vontade Geral, porque sem vontade particular e própria; a mesma que dá a maioria a um partido como forma de castigar o outro, mas que, no final, o castigado é ela; a mesma que dá arrogância, prepotência e soberba a quem minoritariamente a não tem; a mesma que transforma a força da política em política da força; a mesma que admira a política musculada, porque nunca saiu da menoridade cívica; a mesma que não faz um Nós, porque não sabe de si; a mesma que não sabe que aquele que dá maiorias mais em minoria fica. Não admira, assim, que a nossa democracia, em vez de um destinarmo-nos, seja um destino: não há alternativa a nós nem aos dois da vigairada.
A qualidade da política não se mede pela qualidade dos políticos, mas pela qualidade dos cidadãos, porque sem estes não há aqueles A qualidade de uma democracia não se mede por maiorias políticas, mas por uma maioridade racional e cívica. A qualidade de um governo não se mede pela quantidade daqueles que o elegem e suportam, mas pela qualidade dos cidadãos. A qualidade de uma política não se vê pela qualidade dos políticos, mas pela qualidade da opinião pública. Em democracia, primeiro está o cidadão, depois o político. Primeiro, a nação, depois o partido. Primeiro, a coisa pública, depois as coisas nossas. A legitimidade de uma política não radica em maiorias ou minorias, mas no conteúdo e qualidade democráticos.
A maioria, seja simples ou absoluta (ditadura democrática), nunca a poderia ver como um «ganhámos-lhes!», mas como uma forma de “todos” ganharmos. As maiorias absolutas são sempre fruto de conjunturas difíceis e das fragilidades do adversário. Contudo, os políticos, em lugar de se compreenderem como seu efeito, olham-nas como causa sua. A maioria que, hoje, deu a maioria absoluta a Sócrates é a mesma maioria que, ontem, a tinha dado a Cavaco; a maioria, que lhes deu a maioria, é, apesar dos anos volvidos, a mesma maioria que não lê um livro na vida; a mesma maioria que colocaria o Sol a andar em torno da Terra, caso o assunto fosse a votos; a mesma maioria, mas para absolutíssima, que nada sabe de Ourique a Alcácer-Quibir, de D. Sebastião a Cavaco, das cantigas de amor e de escárnio e maldizer a Saramago, passando por Fernão Lopes; a mesma que decide da vida dos outros sem nunca se interrogar pela sua; a mesma que vota onde os caciques da terra, dos céus e do purgatório lhe mandam; a mesma que vê todos os dias telenovelas e não dá conta da telenovela da sua vida; a mesma que não perde big-brothers, celebridades e directos de bodas de pessoas importantes num voyeurismo compensador da cegueira de si; a mesma que decide a política sem saber o que é a política; a mesma que não sabe ler o livro de reclamações do existir e de fazer uma reclamação aos homens, aos políticos e aos deuses; a mesma que não faz a Vontade Geral, porque sem vontade particular e própria; a mesma que dá a maioria a um partido como forma de castigar o outro, mas que, no final, o castigado é ela; a mesma que dá arrogância, prepotência e soberba a quem minoritariamente a não tem; a mesma que transforma a força da política em política da força; a mesma que admira a política musculada, porque nunca saiu da menoridade cívica; a mesma que não faz um Nós, porque não sabe de si; a mesma que não sabe que aquele que dá maiorias mais em minoria fica. Não admira, assim, que a nossa democracia, em vez de um destinarmo-nos, seja um destino: não há alternativa a nós nem aos dois da vigairada.
A qualidade da política não se mede pela qualidade dos políticos, mas pela qualidade dos cidadãos, porque sem estes não há aqueles A qualidade de uma democracia não se mede por maiorias políticas, mas por uma maioridade racional e cívica. A qualidade de um governo não se mede pela quantidade daqueles que o elegem e suportam, mas pela qualidade dos cidadãos. A qualidade de uma política não se vê pela qualidade dos políticos, mas pela qualidade da opinião pública. Em democracia, primeiro está o cidadão, depois o político. Primeiro, a nação, depois o partido. Primeiro, a coisa pública, depois as coisas nossas. A legitimidade de uma política não radica em maiorias ou minorias, mas no conteúdo e qualidade democráticos.
terça-feira, 8 de agosto de 2006
Dói-me a destruição do Líbano – o País do Cedros –, por parte do sionismo, como me dói a ocupação da Terra de Entre-os–Rios (Mesopotâmia), hoje o Iraque, por parte dos yanques. Na Mesopotâmia, nasceu a Civilização e de Ur partiu Abraão em demanda da Terra Prometida. No País dos Cedros – de cedro do Líbano eram as madeiras do Templo –, nasceu o alfabeto e de Biblos, Sídon, Beritus e Tiro partiu para todos os portos do Mediterrâneo antigo e, depois, para todos os livros e escolas do Mundo. Sídon, Beritus (Beirute) e Tiro, cidades da Humanidade, vejo-as, hoje, bombardeadas por Fantons, por canhões, armas inteligentes e bombas de fragmentação, pelo povo eleito de Javé! Quem bombardeia a História como pode ser sensível à morte de inocentes, à destruição de um país e à deslocação de milhões de civis? E não deixo de ficar temeroso pela aliança judaico-americana e pela vigilância pidesca do Echelon de Cias e Mossads! E quando penso que, ontem, a Alemanha, apesar da sua cultura e de ser uma das pátrias do Iluminismo (Aufklärung), se atreveu a julgar-se o povo eleito pela biologia, mais receoso fico quando vejo a nova versão de povo eleito por Deus – e por ele mandatado para evangelizar o Mundo com a “sua” democracia – e a velha versão do povo eleito por Javé unidos e metidos no mesmo barco. E não me venham com a conversa, falsa, de que o culpado foi um tal Hitler e que agora é um tal Bush! Tal como uma andorinha não faz a primavera, um só homem não faz, para bem ou para mal, a História. Temo, civilizacional e historicamente, mais o nacionalismo, religiosamente, fundamentado de algum Ocidente do que o fundamentalismo religioso de algum Oriente! O Ocidente, rico, vive no fundamentalismo do não fundamento: na “utensialização” da razão, no vazio e nos céus da efemeridade. O Oriente islâmico vive no fundamentalismo religioso: cheios de céu, porque no inferno. Quem, na realidade, são os Estados fora-da-lei? Os EUA não invadiram o Iraque, à revelia do direito internacional e da ONU, e Israel não invadiu o Líbano como invade e ocupa a Palestina, e sem nunca ter cumprido qualquer resolução da ONU? O Terror são os outros. Eles os arautos da Civilização!
Israel pode ser o Estado mais bélico por metro quadrado do mundo, mas os outros só podem ter fisgas. Hoje, quem o Golias e quem o David? Os EUA podem armar, do melhor, Israel, mas o Irão ou outro país não pode armar com uns “foguetes” os palestinianos ou o Hezbollah (Partido de Deus). O que salva o Mundo da materialização imperialista, por parte dos EUA, é o facto de eles não terem o exclusivo das bombas nucleares. Assim, ficam pelo domínio relativo do globo, mas não pelo absoluto. Os EUA realizaram o «fim da História» e das ideologias, ou seja, fecharam-na. Hoje, não há política: a Ocidente, as ideologias estão mortas; no mundo islâmico, porque sem democracia nem pensamento político, fizeram da religião o seu marxismo e da guerra santa o seu proselitismo internacionalista revolucionário. O Mundo está sem pensamento e sem princípios, sem princípios!, seja na vida individual, na nacional ou na mundial. Este o cancro com metáteses globais que tudo está a minar e a comer. A comer-nos.
Onde está Barroso, que nem se vê? Coitado! Onde está Xavier Solana, que não se vê o que anda a fazer? Pobrecito! Onde está a Europa? A França anda por um lado, a Alemanha por outro, e Blair por Bush! Os outros países nada riscam! Eis aos olhos de todos a razão por que o Tratado da Constituição Europeia ficou no início do caminho! E se esta agressão israelita foi pensada, preparada e planeada, juntamente com os EUA, por que razão a Europa se sentou, em Roma, à mesma mesa para discutir o cessar fogo? Como diz o ditado: não é tão ladrão o que vai à horta como o que fica à porta? Os EUA só aceitarão qualquer cessar fogo quando os objectivos de Israel forem atingidos. Ou quando a «raiz do problema», como dizem, for eliminada. E como era importante, para o Mundo, uma Europa com uma voz política internacional com princípios, determinada e única. A melhor forma de acabar com a guerra é tornar património da Humanidade a Mesopotâmia, a Palestina, Israel, o Líbano, o Egipto, a Turquia e a Grécia.
Israel pode ser o Estado mais bélico por metro quadrado do mundo, mas os outros só podem ter fisgas. Hoje, quem o Golias e quem o David? Os EUA podem armar, do melhor, Israel, mas o Irão ou outro país não pode armar com uns “foguetes” os palestinianos ou o Hezbollah (Partido de Deus). O que salva o Mundo da materialização imperialista, por parte dos EUA, é o facto de eles não terem o exclusivo das bombas nucleares. Assim, ficam pelo domínio relativo do globo, mas não pelo absoluto. Os EUA realizaram o «fim da História» e das ideologias, ou seja, fecharam-na. Hoje, não há política: a Ocidente, as ideologias estão mortas; no mundo islâmico, porque sem democracia nem pensamento político, fizeram da religião o seu marxismo e da guerra santa o seu proselitismo internacionalista revolucionário. O Mundo está sem pensamento e sem princípios, sem princípios!, seja na vida individual, na nacional ou na mundial. Este o cancro com metáteses globais que tudo está a minar e a comer. A comer-nos.
Onde está Barroso, que nem se vê? Coitado! Onde está Xavier Solana, que não se vê o que anda a fazer? Pobrecito! Onde está a Europa? A França anda por um lado, a Alemanha por outro, e Blair por Bush! Os outros países nada riscam! Eis aos olhos de todos a razão por que o Tratado da Constituição Europeia ficou no início do caminho! E se esta agressão israelita foi pensada, preparada e planeada, juntamente com os EUA, por que razão a Europa se sentou, em Roma, à mesma mesa para discutir o cessar fogo? Como diz o ditado: não é tão ladrão o que vai à horta como o que fica à porta? Os EUA só aceitarão qualquer cessar fogo quando os objectivos de Israel forem atingidos. Ou quando a «raiz do problema», como dizem, for eliminada. E como era importante, para o Mundo, uma Europa com uma voz política internacional com princípios, determinada e única. A melhor forma de acabar com a guerra é tornar património da Humanidade a Mesopotâmia, a Palestina, Israel, o Líbano, o Egipto, a Turquia e a Grécia.
quarta-feira, 2 de agosto de 2006
Quem diz que os deuses da Terra dela partiram para sempre? Quem diz que as Bacantes abandonaram, com Brómio, o que brama como os animais selvagens, as míticas terras da Frígia? Quem não vê pelo natal dos pampos e pelo outonal calvário dionisíaco o tíaso de ménades embriagadas de sol e mosto, de dança e Eros, de orgia e vida, a caminho das montanhas para celebrar os mistérios? Elas estão entre nós, mas nós, vendados, não as vemos. Como nossa alma mudou! Outrora, a alma era a alma das coisas. Nesta hora crepuscular, a alma é a coisa das coisas. Mostra o relógio da arqueologia as horas do tempo de que fomos feitos, para melhor nos vermos. E o da alma que não há deuses acima de deuses. Em Dionísio e Deméter, a Terra contém-nos, sãos; em Cristo, doentes, substituímo-la por céus gasosos como a alma.
Enviou-me Dionísio, o lídio deus, filho da adúltera relação entre o senhor do Olimpo e a mortal Sémele, para te acordar e celebrar. Que seria da humanidade sem adultério divino? Esquecida do deus, esquecida de ti, vives em heresia. Possuído pelo deus mosto, aconteceu a metamorfose do corpo e da alma: eis-me, fauno com a alma do corpo e tu, zoologia fantástica, centauro no feminino: corpo de poldra, vestido de pele de gamo, e onde era suposto estar o equídeo pescoço o torso feminino nasce, enfeitado de louras crinas, que caem em sensualidade desgrenhada sobre teu rosto mosqueado de animalidade. De natureza vestida, os seios, túmidos de desejo e de mamilos eriçados, vestem-te o peito e, agitada por Eros, rabeias provocação, ao ritmo de centáurea voz rouca e feroz, o deus saudando: Evoé!
Ouve, ouve, aproxima-se o cortejo das bacantes. Ei-las, de tirso na mão, coroadas de folhas de carvalho, de heras e flores. Ei-las, ei-las, de pés nus, vestidas de túnicas brancas de branco linho, cintadas de serpentes, subindo, na melodia da flauta de loto, à frígia montanha, onde acontecerá a iniciação aos mistérios, segundo a liturgia dos três passos da orgia, que conduz ao cimo do cio da terra e do sangue. Entremos no tíaso, entremos, sigamos as sacerdotisas do deus, e assistamos aos mistérios: a dança frenética, ao som dos bombos de sonoridade surda, amola a lâmina do desejo, que, afiada e pronta, arranha, morde, rasga e esquarteja a selvagem cria; de passo em passo, eis-nos no momento mais alto da celebração: a omofagia, a refeição natural sem fogo nem sal. Ménades, como estais aspergidas de morte, extenuadas de êxtase e tomadas de sede! Feri a rocha, feri, com vosso nártex fogoso e que dela brote o sagrado líquido que a sede mata e o sabor do sangue quebra. Saudemos Dionísio, Evoé, saudemo-lo! Saudemos o deus da máscara, o deus que expulsa a conveniência e restitui à Natureza o sentir. Saudemos o deus que liberta os instintos naturais e os solta no corpo das ménades.
Creras no mito quanto eu e, como no párodo das Bacantes, diríamos com Eurípides: Quem me dera ir para Chipre, / essa ilha de Afrodite, / onde habitam os amores / que enfeitam os mortais... /Aí moram as Graças / aí mora o Desejo! Aí é lícito às Bacantes / celebrar as orgias.
Enviou-me Dionísio, o lídio deus, filho da adúltera relação entre o senhor do Olimpo e a mortal Sémele, para te acordar e celebrar. Que seria da humanidade sem adultério divino? Esquecida do deus, esquecida de ti, vives em heresia. Possuído pelo deus mosto, aconteceu a metamorfose do corpo e da alma: eis-me, fauno com a alma do corpo e tu, zoologia fantástica, centauro no feminino: corpo de poldra, vestido de pele de gamo, e onde era suposto estar o equídeo pescoço o torso feminino nasce, enfeitado de louras crinas, que caem em sensualidade desgrenhada sobre teu rosto mosqueado de animalidade. De natureza vestida, os seios, túmidos de desejo e de mamilos eriçados, vestem-te o peito e, agitada por Eros, rabeias provocação, ao ritmo de centáurea voz rouca e feroz, o deus saudando: Evoé!
Ouve, ouve, aproxima-se o cortejo das bacantes. Ei-las, de tirso na mão, coroadas de folhas de carvalho, de heras e flores. Ei-las, ei-las, de pés nus, vestidas de túnicas brancas de branco linho, cintadas de serpentes, subindo, na melodia da flauta de loto, à frígia montanha, onde acontecerá a iniciação aos mistérios, segundo a liturgia dos três passos da orgia, que conduz ao cimo do cio da terra e do sangue. Entremos no tíaso, entremos, sigamos as sacerdotisas do deus, e assistamos aos mistérios: a dança frenética, ao som dos bombos de sonoridade surda, amola a lâmina do desejo, que, afiada e pronta, arranha, morde, rasga e esquarteja a selvagem cria; de passo em passo, eis-nos no momento mais alto da celebração: a omofagia, a refeição natural sem fogo nem sal. Ménades, como estais aspergidas de morte, extenuadas de êxtase e tomadas de sede! Feri a rocha, feri, com vosso nártex fogoso e que dela brote o sagrado líquido que a sede mata e o sabor do sangue quebra. Saudemos Dionísio, Evoé, saudemo-lo! Saudemos o deus da máscara, o deus que expulsa a conveniência e restitui à Natureza o sentir. Saudemos o deus que liberta os instintos naturais e os solta no corpo das ménades.
Creras no mito quanto eu e, como no párodo das Bacantes, diríamos com Eurípides: Quem me dera ir para Chipre, / essa ilha de Afrodite, / onde habitam os amores / que enfeitam os mortais... /Aí moram as Graças / aí mora o Desejo! Aí é lícito às Bacantes / celebrar as orgias.
quarta-feira, 19 de julho de 2006
«O mito é o nada que é tudo».
Fernando Pessoa, «Ulisses», in Mensagem
Fernando Pessoa, «Ulisses», in Mensagem
Embora ainda distantes de 2043, ano em que Portugal fará, se lá chegarmos, novecentos anos, gente há que quer matá-lo antes. Eugénia Cunha, bióloga e antropóloga forense da Universidade de Coimbra, melhor, teóloga do novo deus – o cientismo, herdeiro do comtismo –, foi, à última hora, impedida, e bem, pela ministra da Cultura, de abrir o túmulo de D. Afonso Henriques, no Mosteiro de Santa Cruz, justificando esta o impedimento por não ter conhecimento da “investigação” em curso, embora com autorização da direcção regional de Coimbra do IPPAR para o fazer! A dita investigadora tinha já andado, em Abril, a bisbilhotar – com autorização de quem? – o túmulo, tendo para o efeito introduzido, através de um pequeno orifício, um endoscópio. Tudo isto, diz, para seguir o exemplo do que se faz no estrangeiro. Onde? No Egipto, onde os mortos nada adiantaram em esconder-se dos vivos? Se, em nome da imagem, se tenta acabar com a privacidade dos vivos, do mesmo modo, se pretende, em nome da “investigação científica”, acabar com o descanso e privacidade dos mortos. Tudo estava planeado (não fosse ela mulher!): a Universidade de Estrasburgo era o lugar escolhido para fazer os exames, infelizmente dele, científicos.
Esta teóloga do cientismo, excelente intérprete de um big-brother científico e de uma visão individualista da história, em moda, além de não ter respeito pelos mortos e de não temer a sua profanação, não deu conta de que esteve em vias de cometer o crime maior: matar o mito. Se não sabe e não tem consciência do crime que esteve para cometer, leia com atenção ou peça a alguém que lhe explique o verso de Fernando Pessoa: o mito é o nada que é tudo. Ora, o que a forense não sabe, e isto é o mais grave, é que ao desenterrar o primeiro rei enterrava o mito. Senhora forense, no túmulo, não está D. Afonso Henriques, está o mito! Que nos interessa a bisbilhotice desta paparazzi do cientismo – saber: o rosto do rei, a sua ficha médica (depois de morto!), o seu DNA ( se corresponde com o de D. Sancho I, a fim de tirar a eterna dúvida romana: o pai é sempre incerto?), e a sua dieta, assuntos que encheriam as revistas mundanas e os tablóides, mas nem uma página da História –, se ficamos sem o mito D. Afonso Henriques? Senhora forense, tocar no mito é mexer com as origens. Sabe que aquele que não as tem ou não sabe delas não sobreviverá? Num momento de grande fragilidade nacional, o que, infelizmente, não é de agora, matar o mito seria agravar ainda mais a crise. Pare, imediatamente, com o “mitocídio”, minha senhora. Aproveite as suas qualidades de investigadora, se as tem, para o foro judicial. Está é proibida de mexer e de bisbilhotar onde e o que não deve.
A moda pegou de tal modo que este tipo de “investigação” não pára aqui: outra teóloga, Maria Augusta Luísa Cruz, esta da Universidade do Minho, quer fazer o mesmo ao túmulo de D. Sebastião, para saber do «perfil genético» daquele que Actéon castigou! Quererá esta outra paparazzi tirar a limpo as preocupações camonianas sobre o castigo que o Amor fez pender sobre D. Sebastião por ser revelde ao amor: ao fazer ua famosa expedição / contra o mundo revelde, por que emende / erros grandes que há dias nele estão (Os Lusíadas, IX, 25)? Não há ninguém que ensine a esta professora universitária que, em D. Sebastião, está o mito do sebastianismo e, no seu túmulo, uns ossos que dificilmente serão os dele? A exemplo do que fizemos acima com a sua colega, aconselho-a a ler, bem, o poema «D. Sebastião» de Fernando Pessoa, na Mensagem. Eis dois versos: É o que eu me sonhei que eterno dura, / É Esse que regressarei. Quer uma opinião? Investigue o perfil genético de Sócrates e de Cavaco, dois exemplares, vivos, quer mais e melhor?, de sebastianismo político – não se apresentaram, ambos, como salvadores? –, que, assim, será desnecessário, amanhã, desenterrá-los, e deixe-se de histórias. Esta gente não se sonha e por isso nem a mente nem os ossos se lhe vão aproveitar. Era bom que a igreja católica abrisse a ordenação às mulheres para ver se se dedicavam a outras teologias. Tinham muito com que se entreter: muitos santos para desenterrar, muitas relíquias para saber da sua autenticidade e muita fé para matar. O que esta gente procura é construir a sua eternidade no desenterrar/enterrar a eternidade dos outros.
Esta teóloga do cientismo, excelente intérprete de um big-brother científico e de uma visão individualista da história, em moda, além de não ter respeito pelos mortos e de não temer a sua profanação, não deu conta de que esteve em vias de cometer o crime maior: matar o mito. Se não sabe e não tem consciência do crime que esteve para cometer, leia com atenção ou peça a alguém que lhe explique o verso de Fernando Pessoa: o mito é o nada que é tudo. Ora, o que a forense não sabe, e isto é o mais grave, é que ao desenterrar o primeiro rei enterrava o mito. Senhora forense, no túmulo, não está D. Afonso Henriques, está o mito! Que nos interessa a bisbilhotice desta paparazzi do cientismo – saber: o rosto do rei, a sua ficha médica (depois de morto!), o seu DNA ( se corresponde com o de D. Sancho I, a fim de tirar a eterna dúvida romana: o pai é sempre incerto?), e a sua dieta, assuntos que encheriam as revistas mundanas e os tablóides, mas nem uma página da História –, se ficamos sem o mito D. Afonso Henriques? Senhora forense, tocar no mito é mexer com as origens. Sabe que aquele que não as tem ou não sabe delas não sobreviverá? Num momento de grande fragilidade nacional, o que, infelizmente, não é de agora, matar o mito seria agravar ainda mais a crise. Pare, imediatamente, com o “mitocídio”, minha senhora. Aproveite as suas qualidades de investigadora, se as tem, para o foro judicial. Está é proibida de mexer e de bisbilhotar onde e o que não deve.
A moda pegou de tal modo que este tipo de “investigação” não pára aqui: outra teóloga, Maria Augusta Luísa Cruz, esta da Universidade do Minho, quer fazer o mesmo ao túmulo de D. Sebastião, para saber do «perfil genético» daquele que Actéon castigou! Quererá esta outra paparazzi tirar a limpo as preocupações camonianas sobre o castigo que o Amor fez pender sobre D. Sebastião por ser revelde ao amor: ao fazer ua famosa expedição / contra o mundo revelde, por que emende / erros grandes que há dias nele estão (Os Lusíadas, IX, 25)? Não há ninguém que ensine a esta professora universitária que, em D. Sebastião, está o mito do sebastianismo e, no seu túmulo, uns ossos que dificilmente serão os dele? A exemplo do que fizemos acima com a sua colega, aconselho-a a ler, bem, o poema «D. Sebastião» de Fernando Pessoa, na Mensagem. Eis dois versos: É o que eu me sonhei que eterno dura, / É Esse que regressarei. Quer uma opinião? Investigue o perfil genético de Sócrates e de Cavaco, dois exemplares, vivos, quer mais e melhor?, de sebastianismo político – não se apresentaram, ambos, como salvadores? –, que, assim, será desnecessário, amanhã, desenterrá-los, e deixe-se de histórias. Esta gente não se sonha e por isso nem a mente nem os ossos se lhe vão aproveitar. Era bom que a igreja católica abrisse a ordenação às mulheres para ver se se dedicavam a outras teologias. Tinham muito com que se entreter: muitos santos para desenterrar, muitas relíquias para saber da sua autenticidade e muita fé para matar. O que esta gente procura é construir a sua eternidade no desenterrar/enterrar a eternidade dos outros.
quarta-feira, 12 de julho de 2006
Quem havia de dizer que Portas passava, de um dia para o outro, de condenado político a juiz da política? As medidas de coação política duraram pouco: de arguido passou a arguente e de silêncio preventivo a comentador. E, como se isto não bastasse, o seu espaço televisivo, na SIC Notícias, foi baptizado de estado da arte. Mais importante do que o acto de nomear é como e porque se nomeia. Acompanhem-me à pia baptismal. Se estão a pensar que Paulo Portas abandonou a crítica política para passar a ser crítico de arte, estão redondamente enganados. A arte aqui é outra. Melhor, as artes são outras. Se estão a pensar que Portas se tenha enganado e trocado arte do Estado por estado da arte, estão mais perto da verdade, mas, mesmo assim, enganados. Talvez, Portas, brincalhão como é, se tenha divertido ao espelho e com o espelho desta simetria. E podem questionar-se: não teria sido melhor ter-lhe chamado o estado do Estado? Tendes um pouco de razão. Mas não toda. O termo traz-me o conhecido adágio: presunção e água benta cada um toma a que quer. Eis, para espanto de nós todos, mas que não espanta nem atemoriza Portas, a definição do termo o estado da arte: «nível mais elevado de desenvolvimento de uma área científica ou técnica, alcançado num determinado período». O sintagma o estado da arte, nascido em 1910, em contexto tecnológico, num livro relativo a uma turbina de gás, é um sintagma com alguma fortuna semântica, para não dizer fino, de que Portas, fino que nem um alho, se apropriou.
A fazer jus ao nome, quererá Portas fazer-nos crer que, com ele, por ele e graças a ele, se atingiu, com o estado da arte, o topo e la crème de la crème da análise e comentário políticos? E como vai reagir a concorrência dos marcelos, dos pachecos e dos vitorinos à chegada de mais um palavroso? O «Paulinho das feiras» há muito que partiu. Era uma imagem de um político de terceiro mundo, que era urgente apagar. Depois de ter sido senhor das bélicas forças lusas, Portas não quer descer dos céus onde subiu. Pôs-se a andar do partido, após a derrota eleitoral, e só voltará, se voltar, para voos tão ou mais altos.
Não comungo da opinião de um comentador político que viu n’ o estado da arte prova do faro político de Portas. Portas, conta ele, à semelhança de um dos seus cães que descobre, mais depressa e mais longe do que os outros, o cheiro de uma fêmea com cio, viu, antes de ninguém, o vazio de oposição existente e ocupou-o. E discordo pelo seguinte: a não existência de oposição tem, neste momento, causas políticas e não político-partidárias. Portas não consegue viver sem poder e protagonismo: com o fim da coligação Santana (PSD)/Portas (CDS) e não podendo fazer, por enquanto, oposição político-partidária, criou a coligação possível: a coligação entre o poder da língua e a língua do poder. Se mais respeitador do significado original do sintagma, por que não chamar-lhe turbina palavrosa, em vez de o estado da arte?
A fazer jus ao nome, quererá Portas fazer-nos crer que, com ele, por ele e graças a ele, se atingiu, com o estado da arte, o topo e la crème de la crème da análise e comentário políticos? E como vai reagir a concorrência dos marcelos, dos pachecos e dos vitorinos à chegada de mais um palavroso? O «Paulinho das feiras» há muito que partiu. Era uma imagem de um político de terceiro mundo, que era urgente apagar. Depois de ter sido senhor das bélicas forças lusas, Portas não quer descer dos céus onde subiu. Pôs-se a andar do partido, após a derrota eleitoral, e só voltará, se voltar, para voos tão ou mais altos.
Não comungo da opinião de um comentador político que viu n’ o estado da arte prova do faro político de Portas. Portas, conta ele, à semelhança de um dos seus cães que descobre, mais depressa e mais longe do que os outros, o cheiro de uma fêmea com cio, viu, antes de ninguém, o vazio de oposição existente e ocupou-o. E discordo pelo seguinte: a não existência de oposição tem, neste momento, causas políticas e não político-partidárias. Portas não consegue viver sem poder e protagonismo: com o fim da coligação Santana (PSD)/Portas (CDS) e não podendo fazer, por enquanto, oposição político-partidária, criou a coligação possível: a coligação entre o poder da língua e a língua do poder. Se mais respeitador do significado original do sintagma, por que não chamar-lhe turbina palavrosa, em vez de o estado da arte?
domingo, 9 de julho de 2006
- Visita o sítio www.djbradanderson.com/global/
- depois, no lado direito, sob uma esfera verde tens: Cost of the War in Iraque
- clica
sexta-feira, 7 de julho de 2006
O modelo do Big-bang (grande explosão), que pretende explicar a origem e evolução do Universo, é a versão científica do Enuma Elish mesopotâmico, do Nu (barro) e Ra (sol) egípcios, do Génesis vétero-testamentário. Depois do mito, o mito da razão, depois da narração a explicação, depois dos deuses, a sua ausência, depois da fantasia, a realidade, depois da inocência, a expulsão.
Que é necessário para construir o Universo senão tijolos e cimento? Planta?, autor?, nem pensar! À luz do homem pensante e racional, este o maior dos mistérios. O mistério não é haver Autor. O mistério dos mistérios é não haver Autor. Deus é a nossa solução para o mistério. Deuses e nós, que semelhanças! Já tivemos deuses oleiros, relojoeiros, inteligência superior, arquitectos e, agora, o deus-ciência. E o que nos diz esta nova divindade? Que, perdão pelo simplismo, apenas com quatro letras-tijolos fundamentais estáveis – e- (electrão) e ve- (neutrino electrónico), baptizados de leptões, e u e d (quarks) – mais quatro tipos de cimento-força (bosões): gluões (força de cor), fotão (força electromagnética), os bosões Wº W+ e W- (força nuclear fraca), responsáveis da transformação de um protão em um neutrão e o inverso, acompanhada da transformação e- –» ve e ve –» e-, respectivamente) e gravitão (força gravitacional), temos o alfabeto, a gramática e as regras de sintaxe para construir o conto do Universo. Assim: com quarks fazemos nucleões (protão e neutrão), que graças à força nuclear fraca mudam de personalidade, facilitando a organização e estruturação atómicas da matéria, e o cimento fortíssimo que os prende no núcleo atómico é a força de cor; com nucleões mais leptões, criamos átomos; os átomos, por sua vez, acostam uns aos outros, criando moléculas e macromoléculas, sendo, neste caso, o cimento a força electromagnética; e para que o macro não viva em caos, lá está a força gravitacional a pautar a harmonia das esferas celestes. Mas a criatividade ôntica não acaba aqui: a química inventou quatro letras - A(denina), T(imina), G(uanina) C(itosina) - e meteu-se a construir a vida. Não contente, inventou-nos nós. E tal como há sempre uma obra que não merece o artista assim o quadro de nós a Vida.
Quando a história começou? Dizem os apóstolos do deus-ciência que há, aproximadamente, 14/15 milhares de milhões de anos, fruto de uma grande explosão, a energia, o espaço e o tempo soltaram-se do estado claustrofóbico em que se encontravam, ou de uma flutuação quântica: densidade a tender para infinito e tempo e espaço para zero. E tal como um balão em enchimento, o Universo, desde então, não deixou de se expandir, soprado pela anti-gravidade. Este romance cósmico tem, abreviada e simplificadamente, quatro capítulos: a era hadrónica (criação dos hadrões a partir dos quarks) e a era leptónica (criação do electrão e do neutrino), concluídas dez segundos após ter acontecido o Big-bang (mas como a temperatura era ainda suficiente alta, deu-se, no terceiro minuto, a seguir ao Big-bang, a nucleosíntese do hélio, deutério e lítio); a era radioactiva, que dura, aproximadamente, um milhão de anos, seguindo-se a era estelar (o domínio da matéria). O Universo organizou-se, a partir da era estelar, em grandes massas de matéria, composta essencialmente de hidrogénio, massas essas que, estruturadas pela força gravitacional, originaram galáxias, agrupadas em enxames e super-enxames, onde nasceram as primeiras gerações de estrelas. O acontecimento físico principal que se dá com e ao longo da era estelar é a continuação da nucleosíntese [síntese de nucleões, originando átomos cada vez mais pesados] no núcleo das estrelas, que tinha terminado no hélio. E se a maioria das estrelas morre, calmamente, com a nucleosíntese do ferro, o mesmo não acontece com as chamadas estrelas massivas – super-novas – que morrem violentamente: explodem e sintetizam elementos pesados até ao urânio, semeando-os pelo espaço interestelar (nunca Mendeleev, pai da Tabela Periódica dos Elementos, imaginou tal origem dos elementos!). Sem esta escória nuclear não teria havido planetas, vida, nós. O Sol é uma estrela, pelo menos, de segunda geração, pois o meio onde o nosso sistema estelar nasceu já continha todos os elementos da Tabela Periódica. Quanto à composição do Universo, os últimos dados apontam para 4% de matéria atómica, 22% de matéria escura e 74% de energia escura. Logo, só vemos 4% do Universo.
Veredicto cósmico: o Universo nasceu leve e caminha necessária e irreversivelmente para ser, cada vez mais, pesado. Isto é: para o seu esgotamento, fecho e enfarto. Para o ómega. Com o urânio, fecha-se a complexidade física atómica, como com o homem se fechou, parece, a vida. Se o hidrogénio é o alfa, o urânio é o ómega. Quando o hidrogénio se esgotar, não haverá mais azeite celeste para alimentar as aluminárias do céu. E as trevas dominarão o Universo. Que dia novo acordará delas? O deus-ciência não nos ampara, não nos salva; mostra-nos a realidade em toda a sua tragédia e esplendor. Para impotência nossa. Como tudo era mais seguro e eterno quando nada se sabia! Aos deuses antigos ainda podíamos orar. Ao deus-ciência não há oração possível. À fé sucedeu a condenação. Como as ideologias são um pai para aqueles que nunca chegam a ser adultos!
P.S. O meu pedido de desculpas: Ao Universo, pelo meu simplismo, ao leitor, pela paciência que teve, e ao jornal, pelo espaço que lhe roubei.
Que é necessário para construir o Universo senão tijolos e cimento? Planta?, autor?, nem pensar! À luz do homem pensante e racional, este o maior dos mistérios. O mistério não é haver Autor. O mistério dos mistérios é não haver Autor. Deus é a nossa solução para o mistério. Deuses e nós, que semelhanças! Já tivemos deuses oleiros, relojoeiros, inteligência superior, arquitectos e, agora, o deus-ciência. E o que nos diz esta nova divindade? Que, perdão pelo simplismo, apenas com quatro letras-tijolos fundamentais estáveis – e- (electrão) e ve- (neutrino electrónico), baptizados de leptões, e u e d (quarks) – mais quatro tipos de cimento-força (bosões): gluões (força de cor), fotão (força electromagnética), os bosões Wº W+ e W- (força nuclear fraca), responsáveis da transformação de um protão em um neutrão e o inverso, acompanhada da transformação e- –» ve e ve –» e-, respectivamente) e gravitão (força gravitacional), temos o alfabeto, a gramática e as regras de sintaxe para construir o conto do Universo. Assim: com quarks fazemos nucleões (protão e neutrão), que graças à força nuclear fraca mudam de personalidade, facilitando a organização e estruturação atómicas da matéria, e o cimento fortíssimo que os prende no núcleo atómico é a força de cor; com nucleões mais leptões, criamos átomos; os átomos, por sua vez, acostam uns aos outros, criando moléculas e macromoléculas, sendo, neste caso, o cimento a força electromagnética; e para que o macro não viva em caos, lá está a força gravitacional a pautar a harmonia das esferas celestes. Mas a criatividade ôntica não acaba aqui: a química inventou quatro letras - A(denina), T(imina), G(uanina) C(itosina) - e meteu-se a construir a vida. Não contente, inventou-nos nós. E tal como há sempre uma obra que não merece o artista assim o quadro de nós a Vida.
Quando a história começou? Dizem os apóstolos do deus-ciência que há, aproximadamente, 14/15 milhares de milhões de anos, fruto de uma grande explosão, a energia, o espaço e o tempo soltaram-se do estado claustrofóbico em que se encontravam, ou de uma flutuação quântica: densidade a tender para infinito e tempo e espaço para zero. E tal como um balão em enchimento, o Universo, desde então, não deixou de se expandir, soprado pela anti-gravidade. Este romance cósmico tem, abreviada e simplificadamente, quatro capítulos: a era hadrónica (criação dos hadrões a partir dos quarks) e a era leptónica (criação do electrão e do neutrino), concluídas dez segundos após ter acontecido o Big-bang (mas como a temperatura era ainda suficiente alta, deu-se, no terceiro minuto, a seguir ao Big-bang, a nucleosíntese do hélio, deutério e lítio); a era radioactiva, que dura, aproximadamente, um milhão de anos, seguindo-se a era estelar (o domínio da matéria). O Universo organizou-se, a partir da era estelar, em grandes massas de matéria, composta essencialmente de hidrogénio, massas essas que, estruturadas pela força gravitacional, originaram galáxias, agrupadas em enxames e super-enxames, onde nasceram as primeiras gerações de estrelas. O acontecimento físico principal que se dá com e ao longo da era estelar é a continuação da nucleosíntese [síntese de nucleões, originando átomos cada vez mais pesados] no núcleo das estrelas, que tinha terminado no hélio. E se a maioria das estrelas morre, calmamente, com a nucleosíntese do ferro, o mesmo não acontece com as chamadas estrelas massivas – super-novas – que morrem violentamente: explodem e sintetizam elementos pesados até ao urânio, semeando-os pelo espaço interestelar (nunca Mendeleev, pai da Tabela Periódica dos Elementos, imaginou tal origem dos elementos!). Sem esta escória nuclear não teria havido planetas, vida, nós. O Sol é uma estrela, pelo menos, de segunda geração, pois o meio onde o nosso sistema estelar nasceu já continha todos os elementos da Tabela Periódica. Quanto à composição do Universo, os últimos dados apontam para 4% de matéria atómica, 22% de matéria escura e 74% de energia escura. Logo, só vemos 4% do Universo.
Veredicto cósmico: o Universo nasceu leve e caminha necessária e irreversivelmente para ser, cada vez mais, pesado. Isto é: para o seu esgotamento, fecho e enfarto. Para o ómega. Com o urânio, fecha-se a complexidade física atómica, como com o homem se fechou, parece, a vida. Se o hidrogénio é o alfa, o urânio é o ómega. Quando o hidrogénio se esgotar, não haverá mais azeite celeste para alimentar as aluminárias do céu. E as trevas dominarão o Universo. Que dia novo acordará delas? O deus-ciência não nos ampara, não nos salva; mostra-nos a realidade em toda a sua tragédia e esplendor. Para impotência nossa. Como tudo era mais seguro e eterno quando nada se sabia! Aos deuses antigos ainda podíamos orar. Ao deus-ciência não há oração possível. À fé sucedeu a condenação. Como as ideologias são um pai para aqueles que nunca chegam a ser adultos!
P.S. O meu pedido de desculpas: Ao Universo, pelo meu simplismo, ao leitor, pela paciência que teve, e ao jornal, pelo espaço que lhe roubei.
sábado, 1 de julho de 2006
As populações seguem o instinto que a nossa História lhes pôs no sangue: alia-te ao rico e não àquele que o contesta. Em termos de sobrevivência, o instinto é mais certo do que a razão: não é verdade que o que contesta o rico, em lugar da riqueza, o quer ser? Entre ser governado por pedintes, que esqueceram as migalhas, ou por dadores de esmolas, optaria, se a isso fosse obrigado, pelos segundos. Ou sob uma outra forma: entre o rico histórico e um novo rico, preferiria, de longe e sem pensar, o primeiro. Ou ainda: entre o novo rico de esquerda, e pela esquerda, e o sempre rico da direita, e pela direita, optaria por este. Aquele, regra geral, usa a esquerda para chegar a ser de direita. O povo o diz: não sirvas a quem serviu e não peças a quem pediu.
A meta, ou, se quisermos, a utopia, da esquerda revolucionária, que ruiu, não visava, em teoria, que o proletário substituísse (passasse a ser) o rico, que o escravo substituísse o senhor ou que o explorado substituísse o explorador, mas a superação de ambos. O “socialismo” ruiu porque, em lugar de caminhar – e poderia ser outro o caminho? – para a superação do antagonismo senhor/escravo, proletarizou toda uma sociedade, substituindo, no plano económico, o antigo explorador pela estrutura do partido. Sem a contradição classista e sem ter caminhado (e seria possível fazê-lo?) para a superação do explorador/explorado, a economia “socialista” não podia ter outro fim senão o seu próprio esgotamento.
A esquerda reformista, todos o sabem, não visa ser alternativa ao capitalismo nem ser revolucionária, mas, mediante reformas, edificar, consolidar e defender o Estado Providência. Assim, a esquerda reformista não pode, com o risco de se descaracterizar, pretender substituir-se à direita, mas superá-la, claro, em moldes reformistas. Ora, o que assistimos com o governo de Sócrates é o ele substituir-se, política, social e economicamente, ao centro-direita. E de tal forma a substituição resultou que o suplente (PS) está a ser melhor do que o titular (PSD), para espanto das SADs dos grupos empresariais e financeiros, que não se cansam de elogiar a coragem política do suplente Sócrates. Este mimetismo político do PS de Sócrates só é possível porque não há uma direita em Portugal. De certa forma, desde Cavaco, a direita não tem tido partido. A crise de liderança do PSD não só não deixou de se acentuar desde Cavaco como não tem solução à vista. Se Marques Mendes não se vê, a alternativa Filipe Menezes seria o regresso a um certo santanismo. Para agravar tudo isto, foi durante os governos de Durão e Santana que a crise, com uma inércia que já vinha dos anteriores governos do PS e do PSD, bateu no fundo, deixando o caminho livre a Sócrates. Contudo, apesar da fragilidade em que o PSD se encontra, apesar da maioria absoluta de Sócrates, o certo é que o PS se substitui ao PSD em lugar de o superar. Face a uma economia fragilizada e a um país em depressão, Sócrates, em nome da crise e por esta justificada «cortou a direito» (palavras de Jorge Coelho na Quadratura do Círculo), a que Pacheco Pereira acrescentou: «e à direita». Para quê mais palavras, se o discurso se fez redondo? O PS é, neste momento, um partido de centro direita na forma – arrogante – e no conteúdo – liberalizante. Sócrates criou uma inércia política de direita, perigosa, que amanhã o PSD vai aproveitar. E quem a vai, então, parar? Sócrates? Por tudo isto, a oposição a esta política nunca poderá vir do PSD, mas pedidos de a aprofundar. Assim, seria de esperar que a contestação surgisse dentro do próprio PS, porque quem não contesta a direita em casa como a pode contestar na casa alheia? Os interesses e/ou a falta de democraticidade interna do partido falam mais alto do que a ideologia. Que é feito de Alegre? Escreve sobre futebol!
PS. A afirmação de Manuel dos Santos, eurodeputado do PS, que diz ser o governo de Sócrates uma «Comissão Liquidatária» do PS, é de grande dignidade. Mas sabendo-se que os partidos não têm vida democrática ou outra – abrem para eleições e os que ganham fecham, de seguida, para o “governanço”, e os que perdem, para balanço – não é de esperar grande contestação interna. O certo é que amanhã – quando Sócrates cair e o PS for oposição (a quê se ele abriu as portas a esta política?) – todos vão acusá-lo daquilo que hoje poucos têm coragem para o fazer e dizer.
A meta, ou, se quisermos, a utopia, da esquerda revolucionária, que ruiu, não visava, em teoria, que o proletário substituísse (passasse a ser) o rico, que o escravo substituísse o senhor ou que o explorado substituísse o explorador, mas a superação de ambos. O “socialismo” ruiu porque, em lugar de caminhar – e poderia ser outro o caminho? – para a superação do antagonismo senhor/escravo, proletarizou toda uma sociedade, substituindo, no plano económico, o antigo explorador pela estrutura do partido. Sem a contradição classista e sem ter caminhado (e seria possível fazê-lo?) para a superação do explorador/explorado, a economia “socialista” não podia ter outro fim senão o seu próprio esgotamento.
A esquerda reformista, todos o sabem, não visa ser alternativa ao capitalismo nem ser revolucionária, mas, mediante reformas, edificar, consolidar e defender o Estado Providência. Assim, a esquerda reformista não pode, com o risco de se descaracterizar, pretender substituir-se à direita, mas superá-la, claro, em moldes reformistas. Ora, o que assistimos com o governo de Sócrates é o ele substituir-se, política, social e economicamente, ao centro-direita. E de tal forma a substituição resultou que o suplente (PS) está a ser melhor do que o titular (PSD), para espanto das SADs dos grupos empresariais e financeiros, que não se cansam de elogiar a coragem política do suplente Sócrates. Este mimetismo político do PS de Sócrates só é possível porque não há uma direita em Portugal. De certa forma, desde Cavaco, a direita não tem tido partido. A crise de liderança do PSD não só não deixou de se acentuar desde Cavaco como não tem solução à vista. Se Marques Mendes não se vê, a alternativa Filipe Menezes seria o regresso a um certo santanismo. Para agravar tudo isto, foi durante os governos de Durão e Santana que a crise, com uma inércia que já vinha dos anteriores governos do PS e do PSD, bateu no fundo, deixando o caminho livre a Sócrates. Contudo, apesar da fragilidade em que o PSD se encontra, apesar da maioria absoluta de Sócrates, o certo é que o PS se substitui ao PSD em lugar de o superar. Face a uma economia fragilizada e a um país em depressão, Sócrates, em nome da crise e por esta justificada «cortou a direito» (palavras de Jorge Coelho na Quadratura do Círculo), a que Pacheco Pereira acrescentou: «e à direita». Para quê mais palavras, se o discurso se fez redondo? O PS é, neste momento, um partido de centro direita na forma – arrogante – e no conteúdo – liberalizante. Sócrates criou uma inércia política de direita, perigosa, que amanhã o PSD vai aproveitar. E quem a vai, então, parar? Sócrates? Por tudo isto, a oposição a esta política nunca poderá vir do PSD, mas pedidos de a aprofundar. Assim, seria de esperar que a contestação surgisse dentro do próprio PS, porque quem não contesta a direita em casa como a pode contestar na casa alheia? Os interesses e/ou a falta de democraticidade interna do partido falam mais alto do que a ideologia. Que é feito de Alegre? Escreve sobre futebol!
PS. A afirmação de Manuel dos Santos, eurodeputado do PS, que diz ser o governo de Sócrates uma «Comissão Liquidatária» do PS, é de grande dignidade. Mas sabendo-se que os partidos não têm vida democrática ou outra – abrem para eleições e os que ganham fecham, de seguida, para o “governanço”, e os que perdem, para balanço – não é de esperar grande contestação interna. O certo é que amanhã – quando Sócrates cair e o PS for oposição (a quê se ele abriu as portas a esta política?) – todos vão acusá-lo daquilo que hoje poucos têm coragem para o fazer e dizer.
segunda-feira, 26 de junho de 2006
Se Cavaco, enquanto primeiro-ministro, que foi, é responsável pela degradação da formação dos professores que o seu ministro da Educação Roberto Carneiro levou a cabo, com a abertura de Universidades e ESEs ao privado, sem ter em conta a sua qualidade, Sócrates, a versão cavaquista do PS, está a dar o golpe de misericórdia na Escola Pública, através da sua capataz e carrasca Maria de Lurdes. Não admira, assim, que ao «mate-se» de Sócrates responda o «esfole-se» de Cavaco.
Cinco medidas a tomar pelos professores:
- Deixarem-se de Modelos e Continentes fixos, que a paradigmática e a tectónica das placas desmentem.
- Todas as Marias de Lurdes, vulgo Lulus, devem ir ao registo civil e mudarem rapidamente de nome.
- Enviarem um SMS ao Belmiro, de preferência, pela Optimus, para o ajudar na OPA à PT, agradecendo-lhe a defesa intransigente das causas dos professores.
- Comprarem todos os dias o Público e agradecer ao Zé o apoio dado à luta dos professores.
- Todos o que votaram PS enviarem uma carta ao Zé Sócrates, dando-lhe os parabéns pela sua política educativa.
Cinco medidas a tomar pelos professores:
- Deixarem-se de Modelos e Continentes fixos, que a paradigmática e a tectónica das placas desmentem.
- Todas as Marias de Lurdes, vulgo Lulus, devem ir ao registo civil e mudarem rapidamente de nome.
- Enviarem um SMS ao Belmiro, de preferência, pela Optimus, para o ajudar na OPA à PT, agradecendo-lhe a defesa intransigente das causas dos professores.
- Comprarem todos os dias o Público e agradecer ao Zé o apoio dado à luta dos professores.
- Todos o que votaram PS enviarem uma carta ao Zé Sócrates, dando-lhe os parabéns pela sua política educativa.
sexta-feira, 23 de junho de 2006
A Páscoa natural está entre nós e as tílias seu altar-mor. “Naturemo-nos”, desnaturados, e celebremo-la na floração das tílias. Celebremo-la numa oração à natureza divina da divina Natureza. Saudemos, na floração das tílias, a ressurreição do vegetal. Saudemos, nas tílias, a Natureza e nossa fidelidade à Terra. Saudemos, na Terra, o ventre vegetal. Saudemos, nas tílias, as árvores, irmãs nossas antiquíssimas. Saudemos, nas tílias, a Cidade. Saudemos, nas nossas tílias, todas as árvores de todas as cidades do Mundo. Saudemos, na árvore, a metáfora da Criação e de Tudo amplexo. Saudemos, nas árvores, a Contemporaneidade. Saudemos, no reino vegetal, a alimentação empedocliana de terra, água, ar e fogo. Saudemos, na vegetalidade, os ombros da animalidade. Saudemos, na folhagem, o ar que respiramos. Saudemos, na seiva, o sangue nosso primitivo. Saudemos, nas raízes, o nosso amor à terra e às origens. Saudemos, no tronco, a Verticalidade. Saudemos, nas copas, o céu que tocam, as aves que as habitam e o vento que as agitam, sacodem e exercitam. Saudemos, na floresta, o mundo vegetal e seus medos, mistérios e virgindade antigos. Saudemos, na floresta, Enkidu e os cedros do Líbano. Saudemos, nas florestas africanas, a nossa Casa antiga, de onde, um dia, saímos, mal passo e atrevimento nossos, abalando pela savana da existência. Saudemos a saúde do natural, deste lado doente e artificial. Saudemos, na floração das tílias, o nascimento de Eros, que antes de ser animal foi vegetal. Saudemos, na floração das tílias, as primeiras flores que enfeitaram a Terra. Saudemos, na floração das tílias, o tempo de núpcias vegetais. Saudemos, na floração das tílias, a nossa floração. Saudemos, himeróticos, as tílias vestidas de erotismo. Saudemos os insectos que vêm, casamenteiros, à orgia vegetal. Saudemos, na perda de virgindade de miríades de corolas, os lábios de pétalas. Saudemos, na floração das tílias, o bacanal vegetal acima do bem e do mal. Saudemos, na desfloração, a floração. Saudemos, na floração das tílias, o cio da terra, da seiva e da vida.
Choremos a partida dos deuses da Terra. Choremo-la. Choremos a morte da natureza divina da Natureza que a metafísica, a racionalidade e a ciência sentenciaram. Oh, Terra antiga, Jardim dos deuses e os homens seus jardineiros! Expulsamos a humanidade superior divina e substituímo-la por um Deus estranho à Terra. Devastamos o Jardim e substituímo-lo pela Civilização. Expulsamos os olhos cheios de Natureza e substituímo-los por uma razão repleta de fórmulas e equações abstractas. Que importa ter uma teoria do Universo, se o Universo não tem nem precisa de teoria alguma? Que importa a teoria da criação, se não amamos as criaturas? Há mais verdade na iliteracia absoluta do que na absolutização da literacia. Há mais Universo no sentir do que no conhecer. Conhecer sem sentir é mentira científica como sentir sem sentimento é farsa artística.
O nosso pecado original foi termos saído da Natureza. Queda irreversível. Saímos da naturalidade e entramos na artificialidade. Artificiais, artificiais, cada vez mais, artificiais, é o que nós somos. Não há baptismos nem políticas que nos limpem. Uns vão ao Jordão limpar-se, outros, pela mão de Rousseau e Marx, vão ao passado buscar o «bom selvagem» para curar o mau selvagem civilizacional. Não é pela vida nem pela História que voltamos a Casa, mas pela mão da morte, que ao pó natural nos restitui. Saudemos, nas floração das tílias, a saudade da naturalidade, que fomos.
Choremos a partida dos deuses da Terra. Choremo-la. Choremos a morte da natureza divina da Natureza que a metafísica, a racionalidade e a ciência sentenciaram. Oh, Terra antiga, Jardim dos deuses e os homens seus jardineiros! Expulsamos a humanidade superior divina e substituímo-la por um Deus estranho à Terra. Devastamos o Jardim e substituímo-lo pela Civilização. Expulsamos os olhos cheios de Natureza e substituímo-los por uma razão repleta de fórmulas e equações abstractas. Que importa ter uma teoria do Universo, se o Universo não tem nem precisa de teoria alguma? Que importa a teoria da criação, se não amamos as criaturas? Há mais verdade na iliteracia absoluta do que na absolutização da literacia. Há mais Universo no sentir do que no conhecer. Conhecer sem sentir é mentira científica como sentir sem sentimento é farsa artística.
O nosso pecado original foi termos saído da Natureza. Queda irreversível. Saímos da naturalidade e entramos na artificialidade. Artificiais, artificiais, cada vez mais, artificiais, é o que nós somos. Não há baptismos nem políticas que nos limpem. Uns vão ao Jordão limpar-se, outros, pela mão de Rousseau e Marx, vão ao passado buscar o «bom selvagem» para curar o mau selvagem civilizacional. Não é pela vida nem pela História que voltamos a Casa, mas pela mão da morte, que ao pó natural nos restitui. Saudemos, nas floração das tílias, a saudade da naturalidade, que fomos.
sábado, 17 de junho de 2006
«Nenhum povo pode viver em harmonia
consigo mesmo sem uma imagem positiva de si».
[Eduardo Lourenço, in O Labirinto da Saudade]
consigo mesmo sem uma imagem positiva de si».
[Eduardo Lourenço, in O Labirinto da Saudade]
Se partirmos do paradigma de utopia, proposto por Ernst Bloch – iluminação antecipante (Vor-Schein) sobre o ainda-não-ser, por parte da consciência antecipante do sujeito –, muita da literatura portuguesa bem caberia nesse paradigma utópico. Vítor Aguiar e Silva, no seguimento da sua definição de utopia – «A expressão multímoda e ubíqua da esperança – a esperança como sentimento e emoção, mas sobretudo como um acto cognitivo constitutivo do futuro» –, lê o episódio da "Ilha dos Amores" à luz da categoria da utopia: «A progénie forte e bela anunciada por Vénus será a encarnação da utopia como energia transformadora do ser» , o «...semen de um mundo, de um tempo e de um homem novos» . Contudo, se a utopia é «acto cognitivo constitutivo do futuro», caberá nela a esperança messiânica, onde o desbravar cognitivo e activo do homem («antropologia optimista» ) é substituído por uma concepção teológica ou teleológica da História? Pensamos que não.

Mas, se olharmos à esperança, sem mais, de esperança e messianismo é, logo, o berço da nacionalidade e o mito de Ourique; de esperança é o messianismo do Mestre, em Fernão Lopes; de esperanças realizadas, são os títulos de D. Manuel I; de esperança no futuro de Portugal e de D. Sebastião, são os seguintes versos do Épico: maravilha fatal da nossa idade, / Dada ao mundo por Deus, que todo mande, / Para do mundo a Deus dar parte grande (Lus., I, 6) // E.../ Dareis matéria a nunca ouvido canto (Lus., I,15); de esperança, foi o salmo sebastianista durante o cativeiro; de esperanças são as Esperanças de Portugal, que Vieira profetiza; de desesperança continuava a ser o tempo para a gente de nação e para quem pensasse em ser moderno; de esperança iluminista, é a literatura romântica que almeja uma pátria à luz da Modernidade; apesar do suicídio, de esperança, é a ontologia anteriana; de esperança, é o nacionalismo místico de António Nobre; de esperança universal, é O Encoberto de Sampaio Bruno; de esperança, é a República; de esperança, é a “era lusíada” e o saudosismo de Pascoaes; de desesperança, é o modernismo; de esperança e luta, é o neo-realismo literário; de esperança, é o paracletismo agostiniano; de esperança as portas que Abril abriu... As nossas revoluções, com excepção da de 1383-85, que trouxe algo de qualitativamente novo (sem ela as caravelas não teriam saído do Tejo), nada mais foram do que tentativas para recuperar tempo perdido. 1820, 1910 e 1974 foram fugas para a frente.
(...)
A cumplicidade entre o religioso e o político, que acompanha toda a nossa História, com alguma excepção do nosso romantismo e da República, não podia deixar de se reflectir no mundo das ideias. Assim, desde o mito das origens de Portugal até Agostinho da Silva, há, apesar das diferenças, um pensamento que percorre uma certa história de Portugal: a missão sobrenatural de Portugal no Mundo e a consequente substituição do povo de Israel, como povo eleito, e de seu Deus (Javé) por Portugal e por um novo Deus (Cristo, Saudade, Paracleto). Contudo, a sistematização desta ideia – Portugal, como o outro eleito de Deus – só a encontramos presente, embora sob forma diferente, principalmente, em Vieira, Pascoaes e Agostinho da Silva. Teixeira de Pascoaes não só confirma o destino sobrenatural de Portugal como vê nele a pedra onde assentou e se edificou: «…este pensamento messiânico, redentor, sobrenatural, que já vem do longínquo alvorecer da Pátria e lhe deu independência e grandeza através dos séculos» .
O que faz (melhor, fazia) de nós sermos semelhantes a Israel é a fragilidade dos nossos Estados. No resto, somos absolutamente diferentes: eles unidos na Diáspora, nós diluídos na Dispersão, eles ricos, nós pobres, eles messiânicos nacionalistas, nós messiânicos universalistas. Eles Javé (Estado nacional e histórico), nós Cristo (além e império espiritual), eles Pedro (nacionalismo), nós Paulo (internacionalismo). Eles, sem território e sem Estado, nunca perderam, ao longo de mais de dois mil anos, a nacionalidade, nós, apesar de com Estado e território durante oito séculos, temos uma nacionalidade frágil.
As profecias são férteis em tempos de cativeiro, reflectindo elas a esperança e aspiração dos povos à sua libertação, porque como diz o salmo: Junto dos rios de Babilónia, ali nos assentámos e pusemos a chorar, lembrando-nos de Sião. (Salmo 136,1). Teve Israel mais profetas no tempo do cativeiro de Babilónia do que em toda a sua história. Do nosso cativeiro filipino emergiu o sebastianismo e, dizem, sobre ele já tinha profetizado Bandarra, em meados do século XVI: «Já o tempo desejado é chegado / Já se cerram os quarenta / Desta era, que se ementa / Por um Doutor já passado./ O rei novo é levantado, / Já dá brado, / Já assoma sua bandeira… / Saia, saia esse Infante / Bem andante! / O seu nome é Dom João. E se cativeiros nacionais fazem até os salgueiros chorar e mortos “desejar”, que dizer dos multinacionais? As profecias do Apocalipse de João – Caiu, caiu a grande Babilónia e converteu-se em habitações de demónios e em retiro de todo o espírito imundo e em guarida de toda a ave hedionda e abominável. / Porque todas as nações beberam do vinho da ira da sua prostituição; e os reis da terra se corromperam com ela e os mercadores se fizeram ricos com o excesso das suas delícias. // Ai, ai daquela grande cidade de Babilónia, aquela cidade forte; porque num momento veio a tua condenação. (Apocalipse, 18, 2, 3 e 10) – demoraram quatro séculos a realizarem-se, mas o desfecho traduziu-se, nunca o imaginaria o autor do Apocalipse, nas pazes entre Igreja e Estado: eleição do cristianismo como religião oficial de Roma, ou, segundo Agostinho da Silva, na venda da Igreja a Constantino.
Se assim profetizou João, ansioso que a Besta (Roma), cabeça do Império, caísse, que dizer do som da Trombeta apocalíptica, que anunciará o fim do Império dos impérios, pois os gritos nesse tempo não serão somente das doze tribos de Israel, mas de todas as tribos do globo. Contudo, onde estão os profetas, se só ouvimos as línguas através das quais o Império fala e escreve nas consciências? Se Leo rugiet, onde estão os profetas, que não os ouvimos?
Apesar do tempo, das distância e das Ideias, que separam Pascoaes (1877-1952) de António Vieira (1608-1697), três coisas há que lhes são comuns: ambos vivem num momento de crise da nacionalidade, ambos sistematizaram uma concepção mística da nacionalidade e ambos têm o seu apocalipse. Vieira, vivendo o cativeiro filipino e seu fim, insere a História de Portugal numa teologia da História, vendo nos profetas os “pontos” de Deus, que nos lembram o texto que cumprimos no teatro do mundo. Pascoaes vê, na República, as condições para a saída da decadência e para o renascimento de Portugal (A «Renascença Portuguesa» teria aqui um papel importante), no sentido de ocupar o seu lugar de liderança espiritual no mundo, pois a nação predilecta da Saudade. A importância da Saudade na mundividência pascoaesiana só é perfeitamente entendida quando damos conta de que ela religa, ontologicamente, a tríade: espírito, matéria (queda), espírito (redenção). Quanto à visão apocalíptica, Vieira vê no Quinto Império, a consumação dos tempos, e Pascoaes, em Regresso ao Paraíso, substitui, apocalipticamente, o velho Deus por um novo Deus, a fim de salvar, prometeica e clementemente, a Humanidade condenada, abrindo, assim, uma nova era divina e humana.
(...)
Teixeira de Pascoaes continua, por um lado, o evolucionismo espiritualista, raiz da heterodoxia religiosa de muitos dos intelectuais do século XIX (espiritualismo naturalista de Antero, misticismo naturalista de Junqueiro e teodiceia positivista de Sampaio Bruno) e, por outro, enxerta nele a saudade e a missão transcendente de Portugal. Com a gradual substituição da matriz romântica pela decadente, a revolução romântica deu lugar ao retorno de ideais sebastianistas e messiânicos, com excepção daqueles republicanos que inseriam a inevitabilidade da República na lei dos três estados de Comte. A partir da última década do século XIX, o Zeitgeist (Espírito do Tempo) começou a ser claramente outro: o racionalismo (Kant, Hegel) dá lugar ao irracionalismo e ao inconsciente (Schopenhauer, Nietzsche e Eduard von Hartmann); o mesmo acontece com o progresso de Michelet, Proudhon e Comte, que é substituído pela decadência de Lombroso e de Max Nordau; e o espaço do romantismo progressista de Vítor Hugo começa a ser ocupado pelo simbolismo e decadentismo de Mallarmé e de Verlaine. A categoria histórica da decadência e a sua tradução estético-literária vieram exacerbar, ainda mais, e alimentar o trauma da nossa decadência nacional. Depois de uma breve racionalização da História de Portugal, que percorre o nosso romantismo e, paralelamente, os nossos republicanos positivistas e racionalistas, eis-nos, novamente, no refúgio da salvação sebastianista e a ressuscitar a missão sobrenatural de Portugal, ou, como escreve Sampaio Bruno, dizer a Pátria é «revoar para as zonas transcendentes». A consciência do estado da nação gerou, por parte dos românticos, revolução e, por parte dos “decadentes”, nacionalismo místico e, por alguns modernistas, indiferença.
(...)
Sampaio Bruno, depois de uma fase materialista (Análise da Crença Cristã e A Geração Nova), espiritualiza Comte, Hegel e Marx, mas estes deixaram-lhe marcas: a sua teodiceia positiva evolucionista não deixa de ser o lugar de encontro ecléctico entre o hegelianismo, o positivismo, o marxismo, o darwnismo, a ciência, a religião e, claro, Leibniz (1646-1716). A ideia central do Encoberto (1904) é a de que o fim da História – «ajudar a evolução natureza» a superar o não homogéneo – não é obra de homem individual, mas odisseia universal e colectiva: «Dissipe-se a nuvem que encobre o herói. O herói não é um príncipe predestinado. Não é o mesmo um povo. É o Homem» . E termina O Encoberto, parafraseando a Paráfrase do maior crente do sebastianismo – D. João de Castro –, com a profecia de um Quinto Império, mistura de religião, marxismo e comtismo, que há-de trazer a paz universal: «Porque, em todo o mundo, a Paz será» . O progresso iluminista deu lugar a uma metafísica de progresso. Para Sampaio Bruno, a evolução é o meio para Deus sair da imperfeição em que caiu, sendo o «fim do homem» «ajudar a evolução da Natureza», ou seja, a ajudar a sair Deus da imperfeição, porque Deus, como absoluto, aproximando-se aqui de Hegel, está no final dos tempos. Esta a ideia de Deus presente em a Ideia de Deus (1902). Aqui, Sampaio Bruno, seguindo Leibniz, visa um compromisso entre o velho e o novo, só que, em Leibniz, essa contradição traduziu-se em vida e, em Sampaio Bruno, pouco ou nada de qualitativamente novo gerou. Ao fim e ao cabo, nenhum destes nossos intelectuais se conseguiu libertar daquilo que criticaram – o religioso – e isto porque nunca tinha havido na nossa cultura uma reacção secular, propriamente dita, com excepção de Anastácio Cunha.
A «Voz da Razão», de Anastácio da Cunha ou de quem quer que tenha sido, é o ponto mais alto do deísmo da nossa literatura nacional, superando, pela forma serena e racional, como vê a divindade, românticos e decadentes e outros.
..........................................
Se a razão, que do céu veio,
Enganaste o triste humano,
Não era a razão outrora,
Era deus autor do engano.
Se num ente limitado
Não cabe uma acção imensa,
Como pode a culpa humana
Tornar-se infinita ofensa?
…………………….
Se ofende as leis sociais
Evite-o a sociedade;
Não tenham ligeiras culpas
Castigos de eternidade.
………………………
Grande Deus! Porque motivo
A criação empreendeste?
Que os homens te ofenderiam
Acaso não conheceste?
………………………
Se a providência previa
Dos homens o precipício,
Porque lhe deu (podendo)
Mais forças que ao torpe vício?
……………………
Foi-nos dado a liberdade,
Para podermos merecer;
Porém nós, dela abusando,
Quão funesta vem a ser!
……………………….
Pois um presente escolhido,
Que por um Deus nos foi dado
Para fazer-nos felizes,
Torna o homem desgraçado?…
………………………..
Que me aproveita o ser livre,
Se oculto motivo forte
Sempre (oh céus!) me determina
A obrar desta, ou de outra sorte?
N.B. Excertos retirados do ensaio (inédito) – Portugal: o outro eleito de Deus – de António Azevedo

Mas, se olharmos à esperança, sem mais, de esperança e messianismo é, logo, o berço da nacionalidade e o mito de Ourique; de esperança é o messianismo do Mestre, em Fernão Lopes; de esperanças realizadas, são os títulos de D. Manuel I; de esperança no futuro de Portugal e de D. Sebastião, são os seguintes versos do Épico: maravilha fatal da nossa idade, / Dada ao mundo por Deus, que todo mande, / Para do mundo a Deus dar parte grande (Lus., I, 6) // E.../ Dareis matéria a nunca ouvido canto (Lus., I,15); de esperança, foi o salmo sebastianista durante o cativeiro; de esperanças são as Esperanças de Portugal, que Vieira profetiza; de desesperança continuava a ser o tempo para a gente de nação e para quem pensasse em ser moderno; de esperança iluminista, é a literatura romântica que almeja uma pátria à luz da Modernidade; apesar do suicídio, de esperança, é a ontologia anteriana; de esperança, é o nacionalismo místico de António Nobre; de esperança universal, é O Encoberto de Sampaio Bruno; de esperança, é a República; de esperança, é a “era lusíada” e o saudosismo de Pascoaes; de desesperança, é o modernismo; de esperança e luta, é o neo-realismo literário; de esperança, é o paracletismo agostiniano; de esperança as portas que Abril abriu... As nossas revoluções, com excepção da de 1383-85, que trouxe algo de qualitativamente novo (sem ela as caravelas não teriam saído do Tejo), nada mais foram do que tentativas para recuperar tempo perdido. 1820, 1910 e 1974 foram fugas para a frente.
(...)
A cumplicidade entre o religioso e o político, que acompanha toda a nossa História, com alguma excepção do nosso romantismo e da República, não podia deixar de se reflectir no mundo das ideias. Assim, desde o mito das origens de Portugal até Agostinho da Silva, há, apesar das diferenças, um pensamento que percorre uma certa história de Portugal: a missão sobrenatural de Portugal no Mundo e a consequente substituição do povo de Israel, como povo eleito, e de seu Deus (Javé) por Portugal e por um novo Deus (Cristo, Saudade, Paracleto). Contudo, a sistematização desta ideia – Portugal, como o outro eleito de Deus – só a encontramos presente, embora sob forma diferente, principalmente, em Vieira, Pascoaes e Agostinho da Silva. Teixeira de Pascoaes não só confirma o destino sobrenatural de Portugal como vê nele a pedra onde assentou e se edificou: «…este pensamento messiânico, redentor, sobrenatural, que já vem do longínquo alvorecer da Pátria e lhe deu independência e grandeza através dos séculos» .
O que faz (melhor, fazia) de nós sermos semelhantes a Israel é a fragilidade dos nossos Estados. No resto, somos absolutamente diferentes: eles unidos na Diáspora, nós diluídos na Dispersão, eles ricos, nós pobres, eles messiânicos nacionalistas, nós messiânicos universalistas. Eles Javé (Estado nacional e histórico), nós Cristo (além e império espiritual), eles Pedro (nacionalismo), nós Paulo (internacionalismo). Eles, sem território e sem Estado, nunca perderam, ao longo de mais de dois mil anos, a nacionalidade, nós, apesar de com Estado e território durante oito séculos, temos uma nacionalidade frágil.
As profecias são férteis em tempos de cativeiro, reflectindo elas a esperança e aspiração dos povos à sua libertação, porque como diz o salmo: Junto dos rios de Babilónia, ali nos assentámos e pusemos a chorar, lembrando-nos de Sião. (Salmo 136,1). Teve Israel mais profetas no tempo do cativeiro de Babilónia do que em toda a sua história. Do nosso cativeiro filipino emergiu o sebastianismo e, dizem, sobre ele já tinha profetizado Bandarra, em meados do século XVI: «Já o tempo desejado é chegado / Já se cerram os quarenta / Desta era, que se ementa / Por um Doutor já passado./ O rei novo é levantado, / Já dá brado, / Já assoma sua bandeira… / Saia, saia esse Infante / Bem andante! / O seu nome é Dom João. E se cativeiros nacionais fazem até os salgueiros chorar e mortos “desejar”, que dizer dos multinacionais? As profecias do Apocalipse de João – Caiu, caiu a grande Babilónia e converteu-se em habitações de demónios e em retiro de todo o espírito imundo e em guarida de toda a ave hedionda e abominável. / Porque todas as nações beberam do vinho da ira da sua prostituição; e os reis da terra se corromperam com ela e os mercadores se fizeram ricos com o excesso das suas delícias. // Ai, ai daquela grande cidade de Babilónia, aquela cidade forte; porque num momento veio a tua condenação. (Apocalipse, 18, 2, 3 e 10) – demoraram quatro séculos a realizarem-se, mas o desfecho traduziu-se, nunca o imaginaria o autor do Apocalipse, nas pazes entre Igreja e Estado: eleição do cristianismo como religião oficial de Roma, ou, segundo Agostinho da Silva, na venda da Igreja a Constantino.
Se assim profetizou João, ansioso que a Besta (Roma), cabeça do Império, caísse, que dizer do som da Trombeta apocalíptica, que anunciará o fim do Império dos impérios, pois os gritos nesse tempo não serão somente das doze tribos de Israel, mas de todas as tribos do globo. Contudo, onde estão os profetas, se só ouvimos as línguas através das quais o Império fala e escreve nas consciências? Se Leo rugiet, onde estão os profetas, que não os ouvimos?
Apesar do tempo, das distância e das Ideias, que separam Pascoaes (1877-1952) de António Vieira (1608-1697), três coisas há que lhes são comuns: ambos vivem num momento de crise da nacionalidade, ambos sistematizaram uma concepção mística da nacionalidade e ambos têm o seu apocalipse. Vieira, vivendo o cativeiro filipino e seu fim, insere a História de Portugal numa teologia da História, vendo nos profetas os “pontos” de Deus, que nos lembram o texto que cumprimos no teatro do mundo. Pascoaes vê, na República, as condições para a saída da decadência e para o renascimento de Portugal (A «Renascença Portuguesa» teria aqui um papel importante), no sentido de ocupar o seu lugar de liderança espiritual no mundo, pois a nação predilecta da Saudade. A importância da Saudade na mundividência pascoaesiana só é perfeitamente entendida quando damos conta de que ela religa, ontologicamente, a tríade: espírito, matéria (queda), espírito (redenção). Quanto à visão apocalíptica, Vieira vê no Quinto Império, a consumação dos tempos, e Pascoaes, em Regresso ao Paraíso, substitui, apocalipticamente, o velho Deus por um novo Deus, a fim de salvar, prometeica e clementemente, a Humanidade condenada, abrindo, assim, uma nova era divina e humana.
(...)
Teixeira de Pascoaes continua, por um lado, o evolucionismo espiritualista, raiz da heterodoxia religiosa de muitos dos intelectuais do século XIX (espiritualismo naturalista de Antero, misticismo naturalista de Junqueiro e teodiceia positivista de Sampaio Bruno) e, por outro, enxerta nele a saudade e a missão transcendente de Portugal. Com a gradual substituição da matriz romântica pela decadente, a revolução romântica deu lugar ao retorno de ideais sebastianistas e messiânicos, com excepção daqueles republicanos que inseriam a inevitabilidade da República na lei dos três estados de Comte. A partir da última década do século XIX, o Zeitgeist (Espírito do Tempo) começou a ser claramente outro: o racionalismo (Kant, Hegel) dá lugar ao irracionalismo e ao inconsciente (Schopenhauer, Nietzsche e Eduard von Hartmann); o mesmo acontece com o progresso de Michelet, Proudhon e Comte, que é substituído pela decadência de Lombroso e de Max Nordau; e o espaço do romantismo progressista de Vítor Hugo começa a ser ocupado pelo simbolismo e decadentismo de Mallarmé e de Verlaine. A categoria histórica da decadência e a sua tradução estético-literária vieram exacerbar, ainda mais, e alimentar o trauma da nossa decadência nacional. Depois de uma breve racionalização da História de Portugal, que percorre o nosso romantismo e, paralelamente, os nossos republicanos positivistas e racionalistas, eis-nos, novamente, no refúgio da salvação sebastianista e a ressuscitar a missão sobrenatural de Portugal, ou, como escreve Sampaio Bruno, dizer a Pátria é «revoar para as zonas transcendentes». A consciência do estado da nação gerou, por parte dos românticos, revolução e, por parte dos “decadentes”, nacionalismo místico e, por alguns modernistas, indiferença.
(...)
Sampaio Bruno, depois de uma fase materialista (Análise da Crença Cristã e A Geração Nova), espiritualiza Comte, Hegel e Marx, mas estes deixaram-lhe marcas: a sua teodiceia positiva evolucionista não deixa de ser o lugar de encontro ecléctico entre o hegelianismo, o positivismo, o marxismo, o darwnismo, a ciência, a religião e, claro, Leibniz (1646-1716). A ideia central do Encoberto (1904) é a de que o fim da História – «ajudar a evolução natureza» a superar o não homogéneo – não é obra de homem individual, mas odisseia universal e colectiva: «Dissipe-se a nuvem que encobre o herói. O herói não é um príncipe predestinado. Não é o mesmo um povo. É o Homem» . E termina O Encoberto, parafraseando a Paráfrase do maior crente do sebastianismo – D. João de Castro –, com a profecia de um Quinto Império, mistura de religião, marxismo e comtismo, que há-de trazer a paz universal: «Porque, em todo o mundo, a Paz será» . O progresso iluminista deu lugar a uma metafísica de progresso. Para Sampaio Bruno, a evolução é o meio para Deus sair da imperfeição em que caiu, sendo o «fim do homem» «ajudar a evolução da Natureza», ou seja, a ajudar a sair Deus da imperfeição, porque Deus, como absoluto, aproximando-se aqui de Hegel, está no final dos tempos. Esta a ideia de Deus presente em a Ideia de Deus (1902). Aqui, Sampaio Bruno, seguindo Leibniz, visa um compromisso entre o velho e o novo, só que, em Leibniz, essa contradição traduziu-se em vida e, em Sampaio Bruno, pouco ou nada de qualitativamente novo gerou. Ao fim e ao cabo, nenhum destes nossos intelectuais se conseguiu libertar daquilo que criticaram – o religioso – e isto porque nunca tinha havido na nossa cultura uma reacção secular, propriamente dita, com excepção de Anastácio Cunha.
A «Voz da Razão», de Anastácio da Cunha ou de quem quer que tenha sido, é o ponto mais alto do deísmo da nossa literatura nacional, superando, pela forma serena e racional, como vê a divindade, românticos e decadentes e outros.
..........................................
Se a razão, que do céu veio,
Enganaste o triste humano,
Não era a razão outrora,
Era deus autor do engano.
Se num ente limitado
Não cabe uma acção imensa,
Como pode a culpa humana
Tornar-se infinita ofensa?
…………………….
Se ofende as leis sociais
Evite-o a sociedade;
Não tenham ligeiras culpas
Castigos de eternidade.
………………………
Grande Deus! Porque motivo
A criação empreendeste?
Que os homens te ofenderiam
Acaso não conheceste?
………………………
Se a providência previa
Dos homens o precipício,
Porque lhe deu (podendo)
Mais forças que ao torpe vício?
……………………
Foi-nos dado a liberdade,
Para podermos merecer;
Porém nós, dela abusando,
Quão funesta vem a ser!
……………………….
Pois um presente escolhido,
Que por um Deus nos foi dado
Para fazer-nos felizes,
Torna o homem desgraçado?…
………………………..
Que me aproveita o ser livre,
Se oculto motivo forte
Sempre (oh céus!) me determina
A obrar desta, ou de outra sorte?
N.B. Excertos retirados do ensaio (inédito) – Portugal: o outro eleito de Deus – de António Azevedo
10 de Junho
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhua austera, apagada e vil tristeza.
(Lus., X, 145)
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Dhua austera, apagada e vil tristeza.
(Lus., X, 145)
Que pensará Camões:
sobre a sua ligação ao dia de Portugal?
da parada militar que Cavaco, como comandante supremo das forças armadas, ordenou que se fizesse, para se mostrar e mostrar o nosso brilho e poderio bélico?
da fumaça, do barulho e da avaria do carro de combate que embarrilou a bélica parada? da censura que esta avaria foi alvo, tendo os media nacionais editado o mínimo de imagens, quando, nas televisões estrangeiras, foi fartamente divulgada, fonte de ridículo e alvo de chacota?
do desfile de homens de fardas, de máquinas velhas e enferrujadas, de honras e continências, perante a tribuna enfeitada de chefes disto e daquilo que gastam os Símbolos?
e de Cavaco?
e do desconhecimento nosso e de Portugal?
e do seu dia, se o 10 de Junho é mais um dia feriado e menos o dia de Portugal?
e deste Portugal faz-de-conta?
e da nova gesta nacional ser o futebol e a genialidade o saber fintar bem e dar uns chutos?
sobre a sua ligação ao dia de Portugal?
da parada militar que Cavaco, como comandante supremo das forças armadas, ordenou que se fizesse, para se mostrar e mostrar o nosso brilho e poderio bélico?
da fumaça, do barulho e da avaria do carro de combate que embarrilou a bélica parada? da censura que esta avaria foi alvo, tendo os media nacionais editado o mínimo de imagens, quando, nas televisões estrangeiras, foi fartamente divulgada, fonte de ridículo e alvo de chacota?
do desfile de homens de fardas, de máquinas velhas e enferrujadas, de honras e continências, perante a tribuna enfeitada de chefes disto e daquilo que gastam os Símbolos?
e de Cavaco?
e do desconhecimento nosso e de Portugal?
e do seu dia, se o 10 de Junho é mais um dia feriado e menos o dia de Portugal?
e deste Portugal faz-de-conta?
e da nova gesta nacional ser o futebol e a genialidade o saber fintar bem e dar uns chutos?
Bush avisou, com cinco minutos de antecedência, o “Presidente” do Iraque que ia encontrar-se com ele na embaixada americana em Bagdad! Do género: estou em Bagdad, na nossa embaixada. Não se importa de aparecer por cá? Há melhor forma de provar que o Iraque não é um país independente nem seguro?
Guantánamo é um crime, que o silêncio cúmplice e miserável da Europa tolera e absolve, e uma vergonha civilizacional.
O futebol, mais do que um desporto de massas, é um desporto que atravessa toda a sociedade e, consequentemente, todas as classes. Se calhar, a coisa mais distribuída não é, como julgava Descartes, a razão, mas a emoção. O futebol é a ponte do falatório interclassista: um médico, um trolha, um professor, um polícia, todos discutem, todos argumentam, em pé de igualdade, os acontecimentos desportivos. Até me lembro de um presidente de um conselho directivo, não com o nosso voto, que o único jornal que lia era a Bola, entrando, na Escola, com ele debaixo do braço, com todo à-vontade e como se fosse a coisa mais natural e culta do mundo. Com um livro é que eu nunca o vi. Que seria das pessoas, sem o tempo e o futebol, para iniciarem e manterem uma conversa? Tem estado um frio dos diabos! Não acha? Está um calor insuportável! Nem à sombra se está bem. Passa-se o fim de semana em catarse futebolística e o resto da semana em euforia ou ressaca. O mundial de futebol está aí como meio de evasão para os problemas e para a crise. E para Sócrates o momento adequado para atacar a sério e a doer as vítimas do costume: professores e função pública. Antes da selecção partir para a gesta, ou para o naufrágio trágico-futebolístico, Cavaco não quis ficar atrás de Sócrates, tendo Belém recebido, tal como S. Bento tinha já feito, a caravela futebolística. A Federação, agradecida, ofereceu a ambos a camisola do 12.º jogador. Podia lá um político dizer que não gostava de futebol! Lá se ia a sua imagem populista, sem a qual as vitórias eleitorais estariam condenadas ao fracasso. E como condenar a idolatria ao jogador de futebol e aos ídolos da pop music que alguns manuais escolares não deixam de fazer, se Cavaco a alimenta?: «Faço votos para que o vosso brio, a vossa luta para vencer e o desportivismo sejam exemplo para as nossas crianças». E que dizer quando os “poetas” fazem poemas a Figo? A indústria futebolística, apesar de ter já levado o futebolista para a passerelle e a passerelle para o relvado, tudo está a fazer para levar as mulheres para os estádios, fazendo-lhes crer que sem futebol a sua libertação e a igualdade de direitos face ao homem não estarão completos. E lá foram elas, aos milhares, para o estádio nacional a alimentar o patriotismo da emoção. O futebol é a nova religião, com catedrais próprias, onde, em lugar de Deus, estão os ídolos, e, em vez da intimidade, do silêncio e da oração, está a descarga catártica: berros, palavrões, pancadaria ou a vitória que falta na vida. Os judeus e seus irmãos semitas islâmicos têm só um dia no ano para apedrejar o satanás e o bode. Está visto que é pouco. Importem o futebol, elegendo-o como desporto nacional, e terão um árbitro, para apedrejar ao sabat e às sextas, como nós já o fazemos aos domingos. Ele é o panem et circenses dos tempos de hoje. E para aqueles que não podem ir ao futebol o futebol vem a eles: as televisões trazem-no a casa, fazendo, por altura dos jogos dos “grandes”, um assédio tal que não há outro remédio, senão desligar o televisor, porque não há para onde fugir.
Os jornais diários desportivos, por sua vez, têm mais saída do que os de “informação” e não há canal televisivo que não tenha o seu painel de comentadores para a ressaca futebolística. E que seria do nosso patriotismo sem o futebol? Sem mar, sem caravelas, sem império, sem conquistas fora e dentro de nós, a selecção é, hoje, o esteio da lusa pátria. PS. Cuidado, professores e funcionários públicos! Sócrates já montou a estratégia: os pontos da lança da sua política – Teixeira dos Santos, Maria de Lurdes e Vieira da Silva – estão a postos para entrar a matar, à margem da lei e à canelada, escondidos pelo futebol.
Os jornais diários desportivos, por sua vez, têm mais saída do que os de “informação” e não há canal televisivo que não tenha o seu painel de comentadores para a ressaca futebolística. E que seria do nosso patriotismo sem o futebol? Sem mar, sem caravelas, sem império, sem conquistas fora e dentro de nós, a selecção é, hoje, o esteio da lusa pátria. PS. Cuidado, professores e funcionários públicos! Sócrates já montou a estratégia: os pontos da lança da sua política – Teixeira dos Santos, Maria de Lurdes e Vieira da Silva – estão a postos para entrar a matar, à margem da lei e à canelada, escondidos pelo futebol.
CARTAS A SÓCRATES (V) - “Lecciones del norte” e “Os suspeitos do costume.”
Publicado por António Azevedo“Ensinamentos do norte”: este o título de um artigo de opinião do jornal El País, de finais de Abril, da autoria de Jeffrey D. Sachs, catedrático de Economia e director do Earth Institute da Universidade de Columbia e traduzido por News Clips. Vamos, então, aos ensinamentos. O autor abre o artigo com este “pragmatismo”: «Se o mundo gastasse mais tempo a analisar o que verdadeiramente funciona ou não, haveria menos discussões sobre economia». Isto a propósito da questão: «como combinar as forças do mercado e a segurança social». «A esquerda, continua o autor, pede um aumento da protecção social; a direita diz que, ao fazê-lo, debilitaria o crescimento económico e aumentaria os défices que a sustentam». Mas o que nos diz a experiência dos países nórdicos – Dinamarca, Finlândia, Islândia, Holanda, Noruega e Suécia – é que eles não só «souberam combinar a assistência social com níveis de rendimento elevados e com um crescimento económico sólido e a estabilidade macroeconómica» como «alcançaram uma elevada qualidade de governo». O autor faz, em seguida, uma comparação dos dados estatísticos, em vários domínios, entre os países nórdicos e os EEUU, com claro prejuízo para estes. Lemos, ainda, que os impostos nacionais nos países nórdicos são superiores a 30% do PIB e que é a «fiscalidade elevada que mantém, à escala nacional, a atenção sanitária, a educação, as pensões e outros serviços sociais, dando como resultado níveis baixos de pobreza...». E notem, melhor, sublinhem, senhores editorialistas, opinadores e comentadores, defensores de pensamento e sentido único para a História: «Os países nórdicos não são economias “socialistas”, baseadas na propriedade e planificação estatal, mas economias de “Estado do bem-estar”, baseadas na propriedade privada e nos mercados, com serviço público de protecção social». Jeffrey Sachs lembra ainda que: «O importante é que investem fortemente em educação superior e em ciência e tecnologia, de forma que se mantêm na vanguarda das indústrias de alta tecnologia». E quanto à longevidade: «a esperança de vida aproxima-se, nos países nórdicos, dos oitenta anos...». A propósito da esperança de vida, vale a pena recordar “Os suspeitos do costume”, título da coluna de Manuel António Pina, de 10 de Maio de 2006, autor de Por outras palavras, na última página do JN, que, com os seus duzentos caracteres, mais coisa menos coisa, vale o jornal. Face às razões que nos apontam, mas não explicam, para a causa de estarmos na cauda da Europa – envelhecimento da população e a falta de produtividade –, eis o contraditório do cronista: «A idade média dos portugueses (40,6 anos) é inferior à dos finlandeses (41,3 anos), dos suecos (40,9 anos) e dos dinamarqueses (40,7 anos); os 66,3% dos portugueses em idade “produtiva”, isto é entre os 15 e 64 anos, são mais que os suecos (65,7%), os noruegueses (65,9%) ou os dinamarqueses (66,1%); e os nossos idosos são menos (17,2% em Portugal contra, por exemplo, 17,6 na Suécia)». E conclui: Se a causa para o nosso atraso fosse o envelhecimento da população, então, «deveríamos estar melhor do que as melhores economias da Europa». Quanto à segunda causa do nosso atraso: a produtividade. Se não há queixa quanto à produtividade dos trabalhadores portugueses nos vários países do mundo onde estão emigrados, a causa não estará noutro lado? «Não será altura de, por uma vez, pensarmos nas empresas e nos empresários que temos, e nos políticos que temos, em lugar de nos desculparmos sempre com os nossos velhos e os nossos trabalhadores»? Pergunto-me: a Finlândia de que Sócrates fala e quer imitar onde fica? E por que não contratar um primeiro-ministro nórdico que, sem mudar de camisola, nos “norteie”?
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