sábado, 2 de dezembro de 2006
Olhando retrospectivamente, confesso que os meus estados de maior cegueira estiveram acertados com a hora das minhas maiores certezas. Aprendi que a cegueira maior é julgar que temos a razão. O maior inimigo da razão é o militante racional, porque tende a impô-la aos outros. O maior inimigo da democracia é o militante partidário, porque sonha sempre com maiorias absolutas. O maior inimigo do sentimento religioso é a igreja, porque faz da outra uma heresia e do seu seguidor um infiel. O que rege o mundo e o faz correr é a cegueira, mas só o lúcido é fiel à luz. Sabendo que o erro, mais cedo ou mais tarde, viria ao seu encontro, o lúcido não se fixa. Vive na errância. Cegou Édipo a cegueira de ver o proibido. Não queiramos ver o que ainda a luz não viu, se o que ela nos mostra não vemos. Distantes da cegueira socrática, pela verdade, e do relativismo oportunista dos sofistas, os estóicos viram a lucidez e transformaram a filosofia numa religião sem deuses: o maior dos males é o (ex)cesso e o maior dos bens a felicidade serena.
Lúcido é aquele que, vivendo serenamente acima das igrejas, das ideologias e das razões, é iluminado por todas as perspectivas, não ficando cego por nenhuma. Cegueira é ver uma coisa acima de todas as outras. Amor é cegueira, porque não deixa ver para além da coisa amada. Lúcido o que vê o seu ângulo como apenas mais um. Lúcido o que, concretamente, está centrado, e, abstractamente, descentrado. Lúcido o que está lateralmente dentro. Lúcido o que sai da espécie para a ver de fora, porque de espécie diferente. A verdade não é angular, nem a soma de todos os ângulos. Somar perspectivas significa somar o contraditório. Lúcido o que (re)conhece que todos estão certos, mas nenhum verdadeiro. Cego é o que faz do seu canto o centro do mundo. A maior cegueira não é a física nem a do ignorante, mas a daquele que as ideias cegam, em lugar de iluminarem. Quem bulha por ideias não as respeita e redu-las a botões ou berlindes. Alguém já ganhou uma discussão? E, se a ganhou, o que ganhou com isso? Discutir e pretender ter razão é um acto agressivo e possessivo como outro qualquer. Lúcido o que, sem ignorar, é ignorante, o que, sem nada saber, é sábio. Lúcido é luz branca. Cego o que confunde a cor, onde está, com a luz.
Lúcifer teve a lucidez de ver em Deus a negação de Deus, porque impeditivo do nascimento de um Deus maior. Contudo, perdeu a lucidez, quando se revoltou, porque o lúcido não se revolta. O mesmo sucedeu a Deus, que, porque revoltado, criou o inferno, onde o precipitou. À revolta, responde-se com revolta. À luz, não podemos fazer frente: cega-nos. Só dos lúcidos os deuses têm temor, porque os olham como eles são e não como os homens os vêem. Todo o que carrega a luz carrega leveza e calma, dissolve a escuridão e ilumina os limites. Lúcido é ser luz: ilumina, mas deixa a explicação para os outros; desvenda o rosto do ser, mas a visão não lhe pertence. O que explica o olhar é a luz e não o contrário. Se viver, segundo a verdade, é transformar a vida num inferno, ser e estar lúcido é dar conta de que o inferno é a própria vida e de que a mentira, como meio de sobrevivência e concorrência, faz parte dela. A verdade aprisiona-nos, a lucidez é uma espécie de limbo, para além do verdadeiro e do falso e do prémio e do castigo. O lúcido não visa possuir ou corrigir o mundo, mas iluminá-lo: quem pretendeu corrigir e salvar o mundo tornou-o, sempre, num inferno ainda maior.
Lúcido é aquele que, vivendo serenamente acima das igrejas, das ideologias e das razões, é iluminado por todas as perspectivas, não ficando cego por nenhuma. Cegueira é ver uma coisa acima de todas as outras. Amor é cegueira, porque não deixa ver para além da coisa amada. Lúcido o que vê o seu ângulo como apenas mais um. Lúcido o que, concretamente, está centrado, e, abstractamente, descentrado. Lúcido o que está lateralmente dentro. Lúcido o que sai da espécie para a ver de fora, porque de espécie diferente. A verdade não é angular, nem a soma de todos os ângulos. Somar perspectivas significa somar o contraditório. Lúcido o que (re)conhece que todos estão certos, mas nenhum verdadeiro. Cego é o que faz do seu canto o centro do mundo. A maior cegueira não é a física nem a do ignorante, mas a daquele que as ideias cegam, em lugar de iluminarem. Quem bulha por ideias não as respeita e redu-las a botões ou berlindes. Alguém já ganhou uma discussão? E, se a ganhou, o que ganhou com isso? Discutir e pretender ter razão é um acto agressivo e possessivo como outro qualquer. Lúcido o que, sem ignorar, é ignorante, o que, sem nada saber, é sábio. Lúcido é luz branca. Cego o que confunde a cor, onde está, com a luz.
Lúcifer teve a lucidez de ver em Deus a negação de Deus, porque impeditivo do nascimento de um Deus maior. Contudo, perdeu a lucidez, quando se revoltou, porque o lúcido não se revolta. O mesmo sucedeu a Deus, que, porque revoltado, criou o inferno, onde o precipitou. À revolta, responde-se com revolta. À luz, não podemos fazer frente: cega-nos. Só dos lúcidos os deuses têm temor, porque os olham como eles são e não como os homens os vêem. Todo o que carrega a luz carrega leveza e calma, dissolve a escuridão e ilumina os limites. Lúcido é ser luz: ilumina, mas deixa a explicação para os outros; desvenda o rosto do ser, mas a visão não lhe pertence. O que explica o olhar é a luz e não o contrário. Se viver, segundo a verdade, é transformar a vida num inferno, ser e estar lúcido é dar conta de que o inferno é a própria vida e de que a mentira, como meio de sobrevivência e concorrência, faz parte dela. A verdade aprisiona-nos, a lucidez é uma espécie de limbo, para além do verdadeiro e do falso e do prémio e do castigo. O lúcido não visa possuir ou corrigir o mundo, mas iluminá-lo: quem pretendeu corrigir e salvar o mundo tornou-o, sempre, num inferno ainda maior.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2006
A realidade tem várias camadas e cada uma delas as suas dimensões. Nós habitamos num T4 dimensional: ao comprimento, largura e altura cartesianos acrescentou Einstein o tempo. Que muitos arquitectos e engenheiros têm em pouca consideração, pois fazem as coisas de tal modo acanhadas, que, passado pouco tempo, ninguém cabe nelas. Vejam-se as ruas da Cidade e os Itinerários Principais que, não tendo sido feitos com a dimensão do tempo, mais se parecem, poucos anos volvidos, com quelhos apertados e estradas de segunda. Mas o estranho é que, à medida que caminhamos para o infinitamente pequeno, mais dimensões são necessárias. O infinitamente pequeno vive em tal irrequietude, incerteza e ubiquidade que precisa, dizem os físicos das partículas e os modelos matemáticos, não de quatro, mas, imagine-se, de onze dimensões! Já imaginaram um electrão a habitar um T11? Cabe lá uma criança numa casa! Uma criança só cabe na rua! O quantum, seja de espaço, de tempo, de matéria, de energia é o que faz a diferença entre 0 ou 1, entre tudo ou nada.
Mas voltemos ao nosso mundo, à nossa condição e dimensão humanos. Se o tempo cósmico é só um, no mundo humano, há dois tempos: o tempo da nossa vida e o tempo histórico. Na carruagem da História há, independentemente da economia e da classe em que se viaja, duas classes e dois tipos de passageiros: os que perguntam pelos horários dos Caminhos de Ferro da História e os que sabem de cor e salteado, e por aqui ficam, os horários dos caminhos da sua vida. A Linha do Douro, para muitos, começa e acaba entre os apeadeiros em que se movimenta o seu existir. Não há cais nem portos, não há Barcas de Alva nem S. Bentos. Felizes os que, ao som da concertina, vão nas mãos do maquinista do Destino, como se levados pela mão por um Deus! Quem vai nas mãos do Destino bem vai. Bem pior está aquele que o perdeu. Apesar de todos termos tomado o comboio da vida no mesmo Entroncamento da História, os bilhetes, os horários e o destino de cada um são bem diferentes. Desculpe, quantos anos tem? Os anos do Universo e da vida. Como?! E você? Sessenta, feitos. Ninguém lhos dá. Para a maioria, a vida decorre consciente no plano individual, mas inconsciente, no plano histórico-civilizacional. Fora da sua vida e do seu contexto, nada mais há. Civilizacionalmente, a maioria vive no presente. Não há passado nem futuro, para além deles. Esta maneira de estar na vida assemelha-se, em muito, à criança, para a qual a vida é um eterno presente. Esta a chave da felicidade da criança. Aquela a chave da felicidade dos adultos. Mais do que este ou aquele regime político, mais do que com liberdade ou sem ela, o que torna a Civilização e a História possíveis é esta inconsciência feliz. Há duas coisas que nos fazem destemidos: a ignorância e a inconsciência. E quando multiplicadas por multidões fazem exércitos imparáveis.
Epocalmente, contemporâneos, civilizacionalmente, extemporâneos. Qual o seu apeadeiro? Alfarelos! E qual o seu destino? Perdi-o, como quem perde o comboio.
quarta-feira, 29 de novembro de 2006
Não sei porquê, ou sei, mas não gosto de me ver a assistir à representação seja daquilo que for. Como não gosto de ir no rebanho. Desapareço e perco-me de mim, no meio dele. Do mesmo modo, ao olhar-me a olhar sinto-me estranho, outro, dos outros, basbaque. Foste ao teatro? Para quê, se nele estamos e o somos? Para quê ir ao teatro, se a verdadeira representação é a vida? Não é a sua representação que o dramaturgo mostra? À medida que deixamos de ser actores no Teatro do Mundo mais passamos a ser dele espectadores. Quem não olha a vida como representação tragicómica não a vê. Vive-a. E é mais feliz. A arte é luz e sombra: mostra a breve luz que não somos e a sombra eterna que somos. O palco da arte é espelho para melhor nos vermos no da vida. Enquanto a razão descreve, o teatro mostra o nosso teatro. Há três órgãos de visão: os olhos, a razão e a arte. Com os olhos, vemos; com a razão, vemos o que vemos; com a arte, sentimos o que vemos. Andamos demasiado afogados no existir para darmos conta de nós. Somos tão bons actores que não damos conta que o somos. Representamos tão bem que não damos conta de que a vida é representação. Tão alucinados que confundimos irrealidade com realidade. O melhor actor da vida é o que a vive e não a questiona. O dramaturgo não faz dramas, antes vê o drama como a essência da vida, tendo o mundo como palco e os homens como actores. O dramaturgo é contra-ponto. O educador ponto.
Eurípides, ao racionalizar a tragédia, matou a tragédia. A intervenção do deus ex machina coloca em cena um elemento estranho ao fatum, interferindo na Necessidade e em suas Leis. Com o deus ex machina, Eurípides introduziu a racionalidade na tragédia e, com ela, a pretensa salvação das personagens. Compreende-se que o dramaturgo se sinta dividido entre o fatum, que tudo rege, e a sua humanidade, mas a quem deve obediência é ao trágico. Dois milénios e meio de racionalidade não só não nos salvaram do trágico como acentuaram a nossa consciência dele. E se Eurípides não resistiu à tentação de salvar, pela via racional, as suas personagens, como imaginar que o Teatro do Mundo poderia subsistir sem o mecanismo do deus ex machina? A história tragicómica humana atingiu tal proporção que obrigou Deus a descer, através do Filho, ao palco do Teatro do Mundo, para justificar a tragédia e sofrimento nossos: se o Filho de Deus morre crucificado na torpíssima cruz, não só justifica o sofrimento como mostra a impossibilidade de salvação deste e neste mundo. A salvação cristista continua a salvação platónica: assim como, no plano gnoseológico, o inteligível salva o sensível assim o outro reino salva este mundo, no plano religioso. A intervenção divina sucedeu à intervenção do deus ex machina trágico. A fidelidade ao mundo exige a assunção do trágico. Quem a ele é infiel fiel passa a ser a um deus ex machina qualquer. Razão e religião, cada uma a seu modo, pensaram poder derrotar o Destino. Em vão. Eurípides é o “moderno” antes do tempo e Deus a versão religiosa de deus ex machina do nosso tempo.
Nascer é entrar em cena e a vida representação. Morrer deixar de representar: acta est fabula. E, embora a representação seja dolorosa e sem outros a aplaudir, que não os próprios, ninguém quer deixar o palco.
Eurípides, ao racionalizar a tragédia, matou a tragédia. A intervenção do deus ex machina coloca em cena um elemento estranho ao fatum, interferindo na Necessidade e em suas Leis. Com o deus ex machina, Eurípides introduziu a racionalidade na tragédia e, com ela, a pretensa salvação das personagens. Compreende-se que o dramaturgo se sinta dividido entre o fatum, que tudo rege, e a sua humanidade, mas a quem deve obediência é ao trágico. Dois milénios e meio de racionalidade não só não nos salvaram do trágico como acentuaram a nossa consciência dele. E se Eurípides não resistiu à tentação de salvar, pela via racional, as suas personagens, como imaginar que o Teatro do Mundo poderia subsistir sem o mecanismo do deus ex machina? A história tragicómica humana atingiu tal proporção que obrigou Deus a descer, através do Filho, ao palco do Teatro do Mundo, para justificar a tragédia e sofrimento nossos: se o Filho de Deus morre crucificado na torpíssima cruz, não só justifica o sofrimento como mostra a impossibilidade de salvação deste e neste mundo. A salvação cristista continua a salvação platónica: assim como, no plano gnoseológico, o inteligível salva o sensível assim o outro reino salva este mundo, no plano religioso. A intervenção divina sucedeu à intervenção do deus ex machina trágico. A fidelidade ao mundo exige a assunção do trágico. Quem a ele é infiel fiel passa a ser a um deus ex machina qualquer. Razão e religião, cada uma a seu modo, pensaram poder derrotar o Destino. Em vão. Eurípides é o “moderno” antes do tempo e Deus a versão religiosa de deus ex machina do nosso tempo.
Nascer é entrar em cena e a vida representação. Morrer deixar de representar: acta est fabula. E, embora a representação seja dolorosa e sem outros a aplaudir, que não os próprios, ninguém quer deixar o palco.
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