segunda-feira, 18 de dezembro de 2006
0. A História do Espírito passa, segundo Hegel, por três estádios: a arte, a religião e a filosofia. De facto, o homem, primeiro, criou, depois, adorou e, por último, racionalizou. Mas, contrariamente à previsão hegeliana do fim da arte, esta reaparece com mais força do que nunca, a partir da segunda metade do século XIX, ao contrário da razão, que entra, a partir de então, em crise, na sua concepção iluminista, e da religião, que vive a hora da «morte de Deus», apregoada por Nietzsche, em Assim Falava Zaratustra, principalmente.
1. No passado dia 3 de Abril, data da apresentação pública dos Vitrais da Sé de Vila Real de João Vieira, lá estive. Depois disso, já lá voltei várias vezes. E como neles vivem, compaginadamente, a arte, religião e filosofia! O próprio autor, na sua simples e breve intervenção, a contrastar com a longa e maçuda retórica do poder, confessou, publicamente, que, quem o informou, foi o evangelista S. João, a quem dedicou a Obra. Esta empatia entre eles, que está na base da unidade e harmonia profundas entre a forma e conteúdo dos vitrais, é fácil de ver: S. João é o evangelista do Verbo, João Vieira o pintor de letras de luz. Além de evangelista, S. João é poeta, acrescentou João Vieira, mas, aumentamos nós, S. João é, também, filósofo. E é precisamente isto que o faz único entre os evangelistas. João evangelista é influenciado pelo Logos de Fílon de Alexandria (20 a. C – 54 e que Nero mandou matar), filósofo que criou uma doutrina filosófico-religiosa, que ligava o platonismo com a religião judaica: o Logos [Palavra, Razão] passou a ser o intermediário entre a divindade e o mundo. S. João, o evangelista do Logos, ao personificá-lo, fez de Cristo o Logos intermediário: Ninguém jamais viu Deus; o Filho unigénito, que está no seio do Pai, esse é quem o deu a conhecer [S. João, 1, 18]. O prólogo do Evangelho de S. João é um hino ao Logos [Verbo]: No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o verbo era Deus [S. João, 1, 1]. Pode mesmo dizer-se que os primeiros dezoito versículos do Evangelho Segundo S. João são o primeiro texto teológico do cristianismo, além de estarem em consonância com o internacionalismo religioso das epístolas paulistas, não reduzindo, como o fazia Pedro, o cristianismo nascente a uma forma de religião nacional judaica: E todos nós participamos da sua plenitude e graça por graça. Porque a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade foi trazida por Jesus Cristo. [S. João, 1, 16 e 17]. A filosofia do Logos, na linha do platonismo, acentuou a dualidade espírito/matéria e a necessidade de salvar e de substituir este mundo por outro, como vemos no evangelista do espírito: …quem não renascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do espírito, é espírito. [S. João, 3, 5 e 6]. Esta a diferença — mais especulativa e filosófica, e menos histórico-descritiva da vida de Jesus —, que o distingue dos Evangelhos sinópticos: Marcos, Mateus e Lucas limitam-se a descrever, de uma forma muito semelhante e “realista”, a história da vida de Jesus. S. João, ao contrário, parece “distante” dos acontecimentos, moldando-os segundo a teoria do sentido duplo de Fílon: o sentido alegórico e místico.
2. Ao eleger o tema do Logos [Verbo] para os seus vitrais, João Vieira elegeu, consequentemente, o evangelista S. João. Ele está no momento e espaço mais altos dos vitrais. Enquanto Marcos, Mateus e Lucas, ocupam, com tonalidades prosaicas, cada um, sua fresta na nave lateral, do lado sul, João desdobra-se, em cores mais quentes e alegres, pelas três frestas da nave do lado norte e a poesia filosófica do Verbo — No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o verbo era Deus [S. João, 1, 1] —, escrita em versos de cor e luz, habita a parte mais alta da Sé — as frestas, três de cada lado, da nave central. A altura física lembra a ascese platónica e a cristã, elevando-se à Ideia, pela reminiscência cognitiva («conhecer é recordar»), e a Deus, mediante o Verbo, respectivamente. Nos quatro janelões do presbitério estão os nomes, em latim, dos doze Apóstolos: Pedro, André, Jacob Zebedeu, João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Jacob Alfeu, Judas Tadeu, Simão Zelotes, Matias. Pela exuberância de cor e letras, os vitrais, tendo como fundo uma cruz azulada, lembram manuscritos antigos ou mesmo painéis. No transepto do lado sul, há, além da pequena rosácea, a sul, uma referência, a poente, aos dominicanos [domini/cani] — os «cães do Senhor», os «guardiões do Senhor». Contudo, quantas vezes, as palavras, em lugar de iluminarem, são encarceradas em «Index»? Tivessem todos os guardiões das ortodoxias presentes as palavras que Jesus, apesar de ser a luz do mundo [S. João, 8, 11 e 12], dirigiu à mulher adúltera — Nem eu tão pouco te condenarei…— e não teria havido nem autos-de-fé, nem fundamentalismos, nem perseguições nem prisões políticas. Sobre o arco do cruzeiro, a estrela de cinco pontas, símbolos — a estrela e as cinco pontas — de perfeição, evoca a estrela de Belém.
3. Antes de “lermos” a rosácea da fachada principal, vemos nas frestas, que a ladeiam, o anagrama de Cristo, feito a partir das duas primeiras letras — X e P — da palavra Cristo em grego — XPISTOS [o ungido]. A rosácea contém a essência da teologia cristã: a criação, a encarnação e a redenção, e toda a sua simbologia gira em torno da conhecida frase do Apocalipse — Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim, diz o Senhor [Apocalipse, 1, 8] —, livro que, mais que nenhum outro do Novo Testamento, tanta controvérsia entre os teólogos gerou. E a levar em conta a exegese “liberal”, o seu autor não é o S. João evangelista, tese fundamentada, entre outras coisas, na natureza judaica do texto: são a sinagoga de satanás os que dizem que são judeus e não o são [Apocalipse, 3, 9]. O seu autor, inspirado por Deus, (des)venda, (des)eclipsa — apocalipse: apo (fora) kalypsis (cobre) — o que não tardará a acontecer … o tempo está próximo [Apocalipse, 1, 3 ], ou seja, o fim de Roma — Ai, ai daquela grande cidade… que em uma hora foi desolada [Apocalipse, 18, 19] —, o Juízo Final e, continuando o messianismo judaico, a descida dos céus da Jerusalém celeste [Apocalipse, 21, 2 e 10], onde habitarão os eleitos. O Apocalipse é o texto escatológico, que, aliado à encarnação e redenção funda, no essencial, a mundividência cristã. Esta a síntese, que está no vitral da rosácea. Se os vitrais das naves e do presbitério noticiam o Verbo, a sua encarnação e redenção, os evangelistas e os pregadores — de que os doze Apóstolos foram os primeiros —, o vitral da rosácea não só contém todos eles como lhe ajunta o escatológico. A rosácea lembra, pela forma rotunda, o Mundo e, pela cor dominante — o azul —, o infinito. Além do círculo, contém os outros símbolos fundamentais: o centro, a cruz e o quadrado. A cruz, com seus quatro braços, abraça todo o universo, como que a dizer que, por um lado, a dor é imanente ao ontológico e, por outro, que a redenção chega a todo o lado. Ao centro, está um quadrado, no interior do qual estão as letras gregas alfa e ómega, sugerindo esta última, pelo misterioso violeta, que o cobre, o rosto de Cristo: Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. [Apocalipse, 1, 8]. Assim como o quadrado [homem] se inscreve no círculo [divindade] assim Cristo representa o Verbo feito carne, Deus feito homem, habitando entre nós. [S. João, 1, 14]. Através da encarnação, o Verbo une o divino e o humano, liga o céu à terra, inscrevendo «o quadrado no círculo da divindade». [Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário dos Símbolos, Lisboa, Círculo dos Leitores, 1997, p. 203]. Mas se no Evangelho de S. João o Verbo é, essencialmente, o originário — No princípio era o Verbo e o Verbo era com Deus… — no Apocalipse, não só se mantém o originário como aparece o fim salvífico: Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. A rosácea é, assim, um hino ao cristocentrismo: Cristo, ao centro do quadrado central da cruz [a Jerusalém celeste], que abraça e redime o Universo, e rodeado pelos doze apóstolos, simbolizados pelos rectângulos, onde habita a Palavra de Deus — a luz do Mundo —, é o princípio [Alfa] e o fim [Ómega]. E, como que a dizer-nos que o tempo histórico é finito, a rosácea, qual grande relógio da História e do Universo, "salva" o passar histórico pelo regresso da criação ao criador, lembrando a cada hora, século e época as palavras de Lucas: Coelum et terra transibunt: verba autem non transibunt (passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão, (Luc., 21,33). Antes do início da hora da criação terrena, já as letras E-u s-o-u pré-existem, coincidindo as letras o A-l, com o A vestido de um violeta misterioso e atravessado por um amarelo divino, com o primeiro instante do tempo. Depois, as restantes letras percorrem o mostrador dos tempos: f-a e o ó-m-e-g-a, o p-r-i-n-c-í-p-i-o e o f-i-m, em letras cor de fogo, de azul de passagem para o outro lado e de eternidade, principalmente. A rosácea, quando a hora caminha para poente, é a visão apocalíptica: e todo o olho verá…[Apocalipse, 1,7]
4. Debrucemo-nos, agora, sobre a simbologia da linguagem estética utilizada: as letras. Desde cedo, elas tiveram uma natureza sagrada, porque consideradas como demiurgas e força criadora: tijolos inteligíveis, responsáveis pela construção e explicação do Livro do Mundo. Mesmo hoje, a ciência utiliza essa mesma simbologia, apesar de com natureza diferente. Assim, dizemos que as letras-código, responsáveis pelo livro da vida, são a A(denina), a G(uanina), a T(imina) e a C(itosina), e as letras do código físico do Universo são u e d (quarks base) e o e¯ e vº (leptões: electrão e o neutrino). Contudo, se as letras de todos os vitrais têm uma estrutura, que lembra o caos, as da rosácea, que estão fora do quadrado central, parecem ganhar autonomia e liberdade e, apesar da sua estruturação, aparentemente caótica, parecem transportar, no seu voo luciferino sobre o espaço e o tempo, a ordem e a inteligibilidade da escrita genesíaca. Não nos esqueçamos que toda a criação artística é luciferina e fáustica. Assim, as letras de João Vieira, na sua autonomia estética significante, também elas, se querem fazer carne: letras emaranhadas umas nas outras, quais átomos e mónadas, estruturando-se em génesis e apocalipse estéticos.
5. Independentemente do conteúdo religioso dos vitrais, nomeadamente da rosácea, as letras de João Vieira perguntam pela realidade do real: qual a origem de tudo? Qual o sentido e fim da existência? Face ao silêncio e arracionalidade do Universo e da sua polaridade trágica — Apolo/Dionisio —, a arte grega assumiu naturalmente a morte; Cristo, redimindo a criação do Pai, promete a ressurreição pascal; o messianismo político acredita na salvação histórica do homem; a ciência (des)cobre, mas os direitos de autor não lhe pertencem; a arte, face à «irrealidade histórica», segundo palavras de Octavio Paz, e à efemeridade ontológica, transforma-se em metafísica alternativa: por um lado, cria uma ontologia estética perene e, por outro, o autor conquista, através dela, a salvação do esquecimento e da morte: a eternidade. A religião não deixa, de certa forma, de democratizar a salvação e a eternidade, sendo a democracia a sua versão laica. Mas, face aos direitos terrenos e à elevação das condições materiais de vida, que a democracia trouxe a algum Ocidente, a eternidade ficou cada vez mais relegada para segundo plano. Todos os homens são tentados: a maioria pela carne, poucos pelo saber e por Deus, uma minoria pela criação. E como a arte, segundo Goethe, é uma forma de religião superior, quantos vão adorar os Vitrais da Sé de Vila Real?
6. Os Vitrais de João Vieira transmutaram a Sé: ao esforço fideísta do arco gótico arcaizante, amarrado, ainda, à pesada estrutura românica, e à austeridade e à penumbra medievais, apesar da exuberância do barroco do presbitério, junta-se, agora, o da inteligibilidade e a alegria da boa-nova, trazida em letras de luz, e a Sé, qual nau-nave, eleva-se tirada pela rosácea e frestas pandas de Verbo, cores e Luz.
Parabéns ao Bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves
Parabéns ao IPPAR
Parabéns e obrigado a João Vieira
Parabéns à Arte.
António Azevedo, Vila Real, 14 de Abril de 2003
1. No passado dia 3 de Abril, data da apresentação pública dos Vitrais da Sé de Vila Real de João Vieira, lá estive. Depois disso, já lá voltei várias vezes. E como neles vivem, compaginadamente, a arte, religião e filosofia! O próprio autor, na sua simples e breve intervenção, a contrastar com a longa e maçuda retórica do poder, confessou, publicamente, que, quem o informou, foi o evangelista S. João, a quem dedicou a Obra. Esta empatia entre eles, que está na base da unidade e harmonia profundas entre a forma e conteúdo dos vitrais, é fácil de ver: S. João é o evangelista do Verbo, João Vieira o pintor de letras de luz. Além de evangelista, S. João é poeta, acrescentou João Vieira, mas, aumentamos nós, S. João é, também, filósofo. E é precisamente isto que o faz único entre os evangelistas. João evangelista é influenciado pelo Logos de Fílon de Alexandria (20 a. C – 54 e que Nero mandou matar), filósofo que criou uma doutrina filosófico-religiosa, que ligava o platonismo com a religião judaica: o Logos [Palavra, Razão] passou a ser o intermediário entre a divindade e o mundo. S. João, o evangelista do Logos, ao personificá-lo, fez de Cristo o Logos intermediário: Ninguém jamais viu Deus; o Filho unigénito, que está no seio do Pai, esse é quem o deu a conhecer [S. João, 1, 18]. O prólogo do Evangelho de S. João é um hino ao Logos [Verbo]: No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o verbo era Deus [S. João, 1, 1]. Pode mesmo dizer-se que os primeiros dezoito versículos do Evangelho Segundo S. João são o primeiro texto teológico do cristianismo, além de estarem em consonância com o internacionalismo religioso das epístolas paulistas, não reduzindo, como o fazia Pedro, o cristianismo nascente a uma forma de religião nacional judaica: E todos nós participamos da sua plenitude e graça por graça. Porque a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade foi trazida por Jesus Cristo. [S. João, 1, 16 e 17]. A filosofia do Logos, na linha do platonismo, acentuou a dualidade espírito/matéria e a necessidade de salvar e de substituir este mundo por outro, como vemos no evangelista do espírito: …quem não renascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do espírito, é espírito. [S. João, 3, 5 e 6]. Esta a diferença — mais especulativa e filosófica, e menos histórico-descritiva da vida de Jesus —, que o distingue dos Evangelhos sinópticos: Marcos, Mateus e Lucas limitam-se a descrever, de uma forma muito semelhante e “realista”, a história da vida de Jesus. S. João, ao contrário, parece “distante” dos acontecimentos, moldando-os segundo a teoria do sentido duplo de Fílon: o sentido alegórico e místico.
2. Ao eleger o tema do Logos [Verbo] para os seus vitrais, João Vieira elegeu, consequentemente, o evangelista S. João. Ele está no momento e espaço mais altos dos vitrais. Enquanto Marcos, Mateus e Lucas, ocupam, com tonalidades prosaicas, cada um, sua fresta na nave lateral, do lado sul, João desdobra-se, em cores mais quentes e alegres, pelas três frestas da nave do lado norte e a poesia filosófica do Verbo — No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o verbo era Deus [S. João, 1, 1] —, escrita em versos de cor e luz, habita a parte mais alta da Sé — as frestas, três de cada lado, da nave central. A altura física lembra a ascese platónica e a cristã, elevando-se à Ideia, pela reminiscência cognitiva («conhecer é recordar»), e a Deus, mediante o Verbo, respectivamente. Nos quatro janelões do presbitério estão os nomes, em latim, dos doze Apóstolos: Pedro, André, Jacob Zebedeu, João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Jacob Alfeu, Judas Tadeu, Simão Zelotes, Matias. Pela exuberância de cor e letras, os vitrais, tendo como fundo uma cruz azulada, lembram manuscritos antigos ou mesmo painéis. No transepto do lado sul, há, além da pequena rosácea, a sul, uma referência, a poente, aos dominicanos [domini/cani] — os «cães do Senhor», os «guardiões do Senhor». Contudo, quantas vezes, as palavras, em lugar de iluminarem, são encarceradas em «Index»? Tivessem todos os guardiões das ortodoxias presentes as palavras que Jesus, apesar de ser a luz do mundo [S. João, 8, 11 e 12], dirigiu à mulher adúltera — Nem eu tão pouco te condenarei…— e não teria havido nem autos-de-fé, nem fundamentalismos, nem perseguições nem prisões políticas. Sobre o arco do cruzeiro, a estrela de cinco pontas, símbolos — a estrela e as cinco pontas — de perfeição, evoca a estrela de Belém.
3. Antes de “lermos” a rosácea da fachada principal, vemos nas frestas, que a ladeiam, o anagrama de Cristo, feito a partir das duas primeiras letras — X e P — da palavra Cristo em grego — XPISTOS [o ungido]. A rosácea contém a essência da teologia cristã: a criação, a encarnação e a redenção, e toda a sua simbologia gira em torno da conhecida frase do Apocalipse — Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim, diz o Senhor [Apocalipse, 1, 8] —, livro que, mais que nenhum outro do Novo Testamento, tanta controvérsia entre os teólogos gerou. E a levar em conta a exegese “liberal”, o seu autor não é o S. João evangelista, tese fundamentada, entre outras coisas, na natureza judaica do texto: são a sinagoga de satanás os que dizem que são judeus e não o são [Apocalipse, 3, 9]. O seu autor, inspirado por Deus, (des)venda, (des)eclipsa — apocalipse: apo (fora) kalypsis (cobre) — o que não tardará a acontecer … o tempo está próximo [Apocalipse, 1, 3 ], ou seja, o fim de Roma — Ai, ai daquela grande cidade… que em uma hora foi desolada [Apocalipse, 18, 19] —, o Juízo Final e, continuando o messianismo judaico, a descida dos céus da Jerusalém celeste [Apocalipse, 21, 2 e 10], onde habitarão os eleitos. O Apocalipse é o texto escatológico, que, aliado à encarnação e redenção funda, no essencial, a mundividência cristã. Esta a síntese, que está no vitral da rosácea. Se os vitrais das naves e do presbitério noticiam o Verbo, a sua encarnação e redenção, os evangelistas e os pregadores — de que os doze Apóstolos foram os primeiros —, o vitral da rosácea não só contém todos eles como lhe ajunta o escatológico. A rosácea lembra, pela forma rotunda, o Mundo e, pela cor dominante — o azul —, o infinito. Além do círculo, contém os outros símbolos fundamentais: o centro, a cruz e o quadrado. A cruz, com seus quatro braços, abraça todo o universo, como que a dizer que, por um lado, a dor é imanente ao ontológico e, por outro, que a redenção chega a todo o lado. Ao centro, está um quadrado, no interior do qual estão as letras gregas alfa e ómega, sugerindo esta última, pelo misterioso violeta, que o cobre, o rosto de Cristo: Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. [Apocalipse, 1, 8]. Assim como o quadrado [homem] se inscreve no círculo [divindade] assim Cristo representa o Verbo feito carne, Deus feito homem, habitando entre nós. [S. João, 1, 14]. Através da encarnação, o Verbo une o divino e o humano, liga o céu à terra, inscrevendo «o quadrado no círculo da divindade». [Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário dos Símbolos, Lisboa, Círculo dos Leitores, 1997, p. 203]. Mas se no Evangelho de S. João o Verbo é, essencialmente, o originário — No princípio era o Verbo e o Verbo era com Deus… — no Apocalipse, não só se mantém o originário como aparece o fim salvífico: Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. A rosácea é, assim, um hino ao cristocentrismo: Cristo, ao centro do quadrado central da cruz [a Jerusalém celeste], que abraça e redime o Universo, e rodeado pelos doze apóstolos, simbolizados pelos rectângulos, onde habita a Palavra de Deus — a luz do Mundo —, é o princípio [Alfa] e o fim [Ómega]. E, como que a dizer-nos que o tempo histórico é finito, a rosácea, qual grande relógio da História e do Universo, "salva" o passar histórico pelo regresso da criação ao criador, lembrando a cada hora, século e época as palavras de Lucas: Coelum et terra transibunt: verba autem non transibunt (passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão, (Luc., 21,33). Antes do início da hora da criação terrena, já as letras E-u s-o-u pré-existem, coincidindo as letras o A-l, com o A vestido de um violeta misterioso e atravessado por um amarelo divino, com o primeiro instante do tempo. Depois, as restantes letras percorrem o mostrador dos tempos: f-a e o ó-m-e-g-a, o p-r-i-n-c-í-p-i-o e o f-i-m, em letras cor de fogo, de azul de passagem para o outro lado e de eternidade, principalmente. A rosácea, quando a hora caminha para poente, é a visão apocalíptica: e todo o olho verá…[Apocalipse, 1,7]
4. Debrucemo-nos, agora, sobre a simbologia da linguagem estética utilizada: as letras. Desde cedo, elas tiveram uma natureza sagrada, porque consideradas como demiurgas e força criadora: tijolos inteligíveis, responsáveis pela construção e explicação do Livro do Mundo. Mesmo hoje, a ciência utiliza essa mesma simbologia, apesar de com natureza diferente. Assim, dizemos que as letras-código, responsáveis pelo livro da vida, são a A(denina), a G(uanina), a T(imina) e a C(itosina), e as letras do código físico do Universo são u e d (quarks base) e o e¯ e vº (leptões: electrão e o neutrino). Contudo, se as letras de todos os vitrais têm uma estrutura, que lembra o caos, as da rosácea, que estão fora do quadrado central, parecem ganhar autonomia e liberdade e, apesar da sua estruturação, aparentemente caótica, parecem transportar, no seu voo luciferino sobre o espaço e o tempo, a ordem e a inteligibilidade da escrita genesíaca. Não nos esqueçamos que toda a criação artística é luciferina e fáustica. Assim, as letras de João Vieira, na sua autonomia estética significante, também elas, se querem fazer carne: letras emaranhadas umas nas outras, quais átomos e mónadas, estruturando-se em génesis e apocalipse estéticos.
5. Independentemente do conteúdo religioso dos vitrais, nomeadamente da rosácea, as letras de João Vieira perguntam pela realidade do real: qual a origem de tudo? Qual o sentido e fim da existência? Face ao silêncio e arracionalidade do Universo e da sua polaridade trágica — Apolo/Dionisio —, a arte grega assumiu naturalmente a morte; Cristo, redimindo a criação do Pai, promete a ressurreição pascal; o messianismo político acredita na salvação histórica do homem; a ciência (des)cobre, mas os direitos de autor não lhe pertencem; a arte, face à «irrealidade histórica», segundo palavras de Octavio Paz, e à efemeridade ontológica, transforma-se em metafísica alternativa: por um lado, cria uma ontologia estética perene e, por outro, o autor conquista, através dela, a salvação do esquecimento e da morte: a eternidade. A religião não deixa, de certa forma, de democratizar a salvação e a eternidade, sendo a democracia a sua versão laica. Mas, face aos direitos terrenos e à elevação das condições materiais de vida, que a democracia trouxe a algum Ocidente, a eternidade ficou cada vez mais relegada para segundo plano. Todos os homens são tentados: a maioria pela carne, poucos pelo saber e por Deus, uma minoria pela criação. E como a arte, segundo Goethe, é uma forma de religião superior, quantos vão adorar os Vitrais da Sé de Vila Real?
6. Os Vitrais de João Vieira transmutaram a Sé: ao esforço fideísta do arco gótico arcaizante, amarrado, ainda, à pesada estrutura românica, e à austeridade e à penumbra medievais, apesar da exuberância do barroco do presbitério, junta-se, agora, o da inteligibilidade e a alegria da boa-nova, trazida em letras de luz, e a Sé, qual nau-nave, eleva-se tirada pela rosácea e frestas pandas de Verbo, cores e Luz.
Parabéns ao Bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves
Parabéns ao IPPAR
Parabéns e obrigado a João Vieira
Parabéns à Arte.
António Azevedo, Vila Real, 14 de Abril de 2003
sexta-feira, 15 de dezembro de 2006
O cego e o rapaz
De aldeia em aldeia, mendigando, conduzia o rapaz o cego. Um dia, contrariamente ao pão seco do costume, a esmola foi acompanhada de chouriça. O rapaz nem queria acreditar e, antes que o cheiro chegasse às narinas do cego, guardou-a, rapidamente, dando-lhe metade do pão. Mas, ao levá-lo à boca, o olfacto do cego apercebeu-se, imediatamente, do cheiro a chouriça, que esta tinha deixado agarrado ao carolo de pão, não fosse a perda de um ou mais sentidos compensada com o reforço da acuidade dos restantes. Desconfiado, voltou-se para o rapaz: ouve lá, que é da chouriça? Que chouriça, retorquiu ele? Não há chouriça nenhuma. Deram-nos o pão barrado com cheiro de chouriça, mas chouriça nem vê-la, defendeu-se o rapaz. O cego, apesar de nada mais dizer, ficou na dele. Uns passos adiante, por descuido do rapaz, que saboreava, um pouco afastado, a chouriça, o cego bateu com a cabeça num sobreiro. Zangado, berrou-lhe: em vez de me guiares, em que andas a pensar, rapaz? Este, ainda com a história da chouriça na cabeça e com ela já no estômago, reagiu: cheirou-te, há pouco, o pão a chouriça, mas não te cheirou, agora, o sobreiro a cortiça. Infelizmente, quem precisa, mesmo com razão, não está em posição e condição de exigir.
O lacrau e a rã
Andava um lacrau, margem acima, margem abaixo, esperando encontrar um meio que o transportasse para o outro lado do rio. Mas quando o desespero começava a ser do tamanho da sua ruindade, eis que o destino lhe colocou uma rã na margem. E dirigindo-se para a rã: os deuses trouxeram-te, junto de mim, para me transportares para a outra margem. Os deuses, perguntou ela? O destino trágico, sim. Como posso confiar em ti? Estranha pergunta, ripostou o lacrau: se, ao me levares no teu dorso, te fizesse mal, o teu mal não seria, também, o meu mal? Perante argumento tão sólido, a rã anuiu em transportá-lo. A meio do rio, a tentação foi mais forte do que ele e da sua própria sobrevivência, e injectou o seu letal veneno na prestável rã. Quando a ruindade está na massa do sangue é ela que manda, mesmo quando a própria vida está em perigo. No rio da vida, somos, muitas vezes, vítimas daqueles que ajudamos: quem sobe na vida, o passado é para branquear e esquecer. E, quantas vezes, lacraus de nós mesmos, não nos auto-injectamos de venenos mortais, não resistindo a impulsos reptilários, que, em nós, ainda, permanecem e mandam?!
Se não sabes, não bulas!
Deu entrada, na urgência, um sinistrado, com a cabeça à mostra. Levado imediatamente para a mesa de operações, o médico cirurgião, enquanto esperava pela anestesia, para iniciar a intervenção cirúrgica, olhou para a cabeça empastada de sangue e, sem pensar, comentou para os seus botões: não sei por onde começar. O paciente, julgado inconsciente pela equipa médica, recomendou, lá dos interstícios do seu inconsciente profundo, ao cirurgião: se não sabes, não bulas! Quanta gente bule onde não devia e onde não sabe!
De aldeia em aldeia, mendigando, conduzia o rapaz o cego. Um dia, contrariamente ao pão seco do costume, a esmola foi acompanhada de chouriça. O rapaz nem queria acreditar e, antes que o cheiro chegasse às narinas do cego, guardou-a, rapidamente, dando-lhe metade do pão. Mas, ao levá-lo à boca, o olfacto do cego apercebeu-se, imediatamente, do cheiro a chouriça, que esta tinha deixado agarrado ao carolo de pão, não fosse a perda de um ou mais sentidos compensada com o reforço da acuidade dos restantes. Desconfiado, voltou-se para o rapaz: ouve lá, que é da chouriça? Que chouriça, retorquiu ele? Não há chouriça nenhuma. Deram-nos o pão barrado com cheiro de chouriça, mas chouriça nem vê-la, defendeu-se o rapaz. O cego, apesar de nada mais dizer, ficou na dele. Uns passos adiante, por descuido do rapaz, que saboreava, um pouco afastado, a chouriça, o cego bateu com a cabeça num sobreiro. Zangado, berrou-lhe: em vez de me guiares, em que andas a pensar, rapaz? Este, ainda com a história da chouriça na cabeça e com ela já no estômago, reagiu: cheirou-te, há pouco, o pão a chouriça, mas não te cheirou, agora, o sobreiro a cortiça. Infelizmente, quem precisa, mesmo com razão, não está em posição e condição de exigir.
O lacrau e a rã
Andava um lacrau, margem acima, margem abaixo, esperando encontrar um meio que o transportasse para o outro lado do rio. Mas quando o desespero começava a ser do tamanho da sua ruindade, eis que o destino lhe colocou uma rã na margem. E dirigindo-se para a rã: os deuses trouxeram-te, junto de mim, para me transportares para a outra margem. Os deuses, perguntou ela? O destino trágico, sim. Como posso confiar em ti? Estranha pergunta, ripostou o lacrau: se, ao me levares no teu dorso, te fizesse mal, o teu mal não seria, também, o meu mal? Perante argumento tão sólido, a rã anuiu em transportá-lo. A meio do rio, a tentação foi mais forte do que ele e da sua própria sobrevivência, e injectou o seu letal veneno na prestável rã. Quando a ruindade está na massa do sangue é ela que manda, mesmo quando a própria vida está em perigo. No rio da vida, somos, muitas vezes, vítimas daqueles que ajudamos: quem sobe na vida, o passado é para branquear e esquecer. E, quantas vezes, lacraus de nós mesmos, não nos auto-injectamos de venenos mortais, não resistindo a impulsos reptilários, que, em nós, ainda, permanecem e mandam?!
Se não sabes, não bulas!
Deu entrada, na urgência, um sinistrado, com a cabeça à mostra. Levado imediatamente para a mesa de operações, o médico cirurgião, enquanto esperava pela anestesia, para iniciar a intervenção cirúrgica, olhou para a cabeça empastada de sangue e, sem pensar, comentou para os seus botões: não sei por onde começar. O paciente, julgado inconsciente pela equipa médica, recomendou, lá dos interstícios do seu inconsciente profundo, ao cirurgião: se não sabes, não bulas! Quanta gente bule onde não devia e onde não sabe!
segunda-feira, 11 de dezembro de 2006
Polémica, de polemos, significa luta, gerada pelos contrários, como nos ensina Heraclito. O mundo sem contradição pararia. Por isso, a alma do mundo está animada de polemos, de polémica. Empédocles vê no polemos, entre a Cólera [Neikos] e o Amor [Philia], a fonte do surgimento de «tudo o que houve, há e haverá». Os gregos colocaram o polemos, onde os judeus viram Javé e os cristãos Deus. No polemos, beberam, até à embriaguez filosófica, Hegel e Marx. Só que os sistemas acabam, sempre, por fechar e encarcerar o polemos, dentro deles. Assim, polémica que não seja geradora de algo não é polémica, é retórica e palavreado. Mas, como há quem só queira polémica por polémica, de que cedo se dá conta — não há verbo nem assunto —, também há os que, com medo dela, a tentam desacreditar, acusando aqueles que a praticam, em coerência, de alimentarem e viverem de polémicas.
O alimento da polémica não são as palavras, mas as ideias. No primeiro caso, está o palavreiro e o palavreado, no segundo, a polémica e as ideias. No primeiro caso, o palavreiro é o protagonista, no segundo, são-no as ideias. Esta a razão por que o palavreiro, grávido de soberba, anda com o rei na barriga, enquanto o polémico, esfomeado de ideias, está livre de contrair o pior dos males: a gordura mental. A luta de ideias é a correspondente, no homem, da luta ontológica, só tendo sentido quando ela vai além de fins individuais e interesseiros. Só que os estáticos e os instalados não gostam da polémica, porque, objectivamente, são uns empecilhos à evolução do mundo e da vida. Se neles actuasse a selecção natural, a realidade, com facilidade, se livraria deles. Daí que acusem a polémica daquilo que eles próprios são: palavreadores. Mas há outra espécie, não menos perigosa: aqueles que, manhosa e hipocritamente, se escondem e se demitem, sob um silêncio que tem tanto de estratégico quanto de cúmplice, mas com o ar mais virtuoso e cristão, da necessidade e imperativo da crítica e da polémica.
A polémica traz à luz a realidade, assustando aqueles cuja vida assenta no não se sabe. A polémica é uma espécie de furão: faz sair os coelhos assustados da toca, pois torna visível que o fogacho, em que vivem, tem raiz na sombra do encoste, do favor que silencia, do jeito e dos clientelismos partidários. Fala-se em liberdade de pensamento e de expressão. Mas quem tem e exerce a liberdade de pensamento e de expressão? Ontem, criticava-se a ditadura por falta de liberdade. E hoje? Quem pode falar, senão aqueles que devem a vida a si mesmos? Os partidos, qual patrão, compram a liberdade, àqueles a quem servem, como ontem a ditadura comprava a liberdade aos que a serviam e prendia aqueles que se lhe opunham. Hoje, não nos podendo prender, aprisionam-nos a vida. Deixa-os falar, murmuram. No que diz respeito à liberdade, no sentido mais elevado que ela tem, venha o diabo e escolha: a ditadura ou democracia. Na ditadura, a liberdade não existe formal nem materialmente. Na democracia, existe formal, mas não materialmente. No plano das ideias, os princípios e a coerência são uma coisa, mas, na prática, tudo é subvertido: não há princípios, não há valores, não há coerência, porque a vida é o contrário de tudo isso. Escola e educação para quê? A Escola, aquelas que ainda o são, é uma ilha. A maioria delas já está alagada. Hoje, a verdadeira preparação para a vida é a apologia da incoerência, do vale tudo e do salve-se quem puder.
O alimento da polémica não são as palavras, mas as ideias. No primeiro caso, está o palavreiro e o palavreado, no segundo, a polémica e as ideias. No primeiro caso, o palavreiro é o protagonista, no segundo, são-no as ideias. Esta a razão por que o palavreiro, grávido de soberba, anda com o rei na barriga, enquanto o polémico, esfomeado de ideias, está livre de contrair o pior dos males: a gordura mental. A luta de ideias é a correspondente, no homem, da luta ontológica, só tendo sentido quando ela vai além de fins individuais e interesseiros. Só que os estáticos e os instalados não gostam da polémica, porque, objectivamente, são uns empecilhos à evolução do mundo e da vida. Se neles actuasse a selecção natural, a realidade, com facilidade, se livraria deles. Daí que acusem a polémica daquilo que eles próprios são: palavreadores. Mas há outra espécie, não menos perigosa: aqueles que, manhosa e hipocritamente, se escondem e se demitem, sob um silêncio que tem tanto de estratégico quanto de cúmplice, mas com o ar mais virtuoso e cristão, da necessidade e imperativo da crítica e da polémica.
A polémica traz à luz a realidade, assustando aqueles cuja vida assenta no não se sabe. A polémica é uma espécie de furão: faz sair os coelhos assustados da toca, pois torna visível que o fogacho, em que vivem, tem raiz na sombra do encoste, do favor que silencia, do jeito e dos clientelismos partidários. Fala-se em liberdade de pensamento e de expressão. Mas quem tem e exerce a liberdade de pensamento e de expressão? Ontem, criticava-se a ditadura por falta de liberdade. E hoje? Quem pode falar, senão aqueles que devem a vida a si mesmos? Os partidos, qual patrão, compram a liberdade, àqueles a quem servem, como ontem a ditadura comprava a liberdade aos que a serviam e prendia aqueles que se lhe opunham. Hoje, não nos podendo prender, aprisionam-nos a vida. Deixa-os falar, murmuram. No que diz respeito à liberdade, no sentido mais elevado que ela tem, venha o diabo e escolha: a ditadura ou democracia. Na ditadura, a liberdade não existe formal nem materialmente. Na democracia, existe formal, mas não materialmente. No plano das ideias, os princípios e a coerência são uma coisa, mas, na prática, tudo é subvertido: não há princípios, não há valores, não há coerência, porque a vida é o contrário de tudo isso. Escola e educação para quê? A Escola, aquelas que ainda o são, é uma ilha. A maioria delas já está alagada. Hoje, a verdadeira preparação para a vida é a apologia da incoerência, do vale tudo e do salve-se quem puder.
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