quarta-feira, 27 de dezembro de 2006

FERO, FERS, FERRE, TULI, LATUM

Não são raras as vezes que retemos mais aquilo que ouvimos indirectamente do que directamente. E com outra vantagem: não só não somos obrigados a ouvir aquilo que não nos interessa como saímos quando nos dá na gana. Alguém, falando com outro, enunciou o verbo anómalo latino fero, fers, ferre, tuli, latum, que significa – levar, suportar – e que todo o antigo estudante de latim gostava de decorar para botar figura, estratégia que o homem não perdeu, apesar de entradote na idade. Os verbos reflectem a flexão do ser e, consequentemente, a sua regularidade, irregularidade, anomalia, incoação, defectividade, pessoalidade, impessoalidade, para além da voz, tempo e modo. Mas o mais estranho, ou não, é que o verbo ontológico por excelência – o verbo esse (ser) – seja ele mesmo anómalo – sum, es, esse, fui –, como que advertindo-nos que o ser contém a anomalia na sua própria essência. Ou se quisermos: a defectividade original do ser, de que o pecado original é a sua versão teológica e o não ser a ontológica. E andamos nós a querer uma vida regular, normal, perfeita e, se possível, conjugada na passiva. Pior do que o pecado original do ser e da vida é o seu final: a Noite.

Quando estudante, a enunciação de um verbo – fosse em latim: amo, amas amare, amavi, amatum; fosse em inglês: to be, was, been; fosse em francês: aimer, aimant, aimé, j’aime, j’aimai – era obrigatória, reflectindo um ensino estruturado e estruturante. Chamavam-lhe, e bem, as «bases». Quem é que, hoje, tem «bases e com elas se preocupa? Hoje, as bases são como os tectos: falsas. Sem «bases», ninguém pode crescer, fazer o seu edifício teórico e tornar-se espiritualmente autónomo. A democracia, no que nos diz respeito, trouxe a liberdade de pensar, mas levou a exigência. A democracia só se cumpre quando cria espíritos livres, sustentados e independentes. A crítica e o corte absoluto com o passado originou um vazio, que, regra geral, foi mal e apressadamente preenchido. Saber enunciar um verbo é perceber a estrutura radical do verbo nos tempos fundamentais: presente (primeira e segunda pessoa), infinito presente, pretérito perfeito e supino activo, no caso do latim. Hoje, os livros são mais «imagem» do que saber: estão cheios de vedetas de telenovelas, do futebol, da moda, da música e vazios de conteúdo. E, em lugar de um ensino estruturado, temos um ensino “despernado”, feito de remendos, de cruzes, de “copianços”, de cuspo e fotocópias. Ah, como a “bandeira” do inglês de Sócrates e de sua ministra Maria de Lurdes, de que não se conhece uma ideia sobre educação, mais arreou a nacional! Ontem, mandava, mal, o professor, hoje manda, pior, o aluno. Quando mandará o saber? Mas como, se ele foi expulso da sala de aulas? Quantos sabem ler um texto e interpretá-lo? Quantos têm uma ideia própria? Quantos sabem estruturar um pensamento? Quantos sabem e dão importância aos princípios seja na lógica seja na vida? A resposta está à vista: os princípios são a coisa que menos interessa, seja para a multidão seja para a política. A escola está como a vida: sem rigor nem princípios. Salve quem se puder. Quem está errado é o coerente, lógica e eticamente. Oxalá que este meu vaticínio se não confirme: se as medidas que o governo de Sócrates tomou para as diferentes áreas da vida forem iguais àquelas que tomou para o ensino, o desfecho vai ser catastrófico. E que dizer das consequências do processo de Bolonha? Estará, nele, salvaguardada a dialéctica entre «saber» e «competências»?

Acabemos como iniciámos, fazendo outra citação, mas esta, apesar de se ter seguido à primeira e vinda de outro, tendo mais a ver com o estômago do que com verbos: «já são horas, vou comer umas bolinhas da terra a casa de meu pai». E, sem mais, partiu. Ora, aqui está uma expressão que não conhecia. Não há ninguém que não tenha algo a ensinar-nos. Estejamos nós atentos e sem soberba.
Itálico
Post scriptum. Em que mundo estamos?! Interrogação e pasmo, que vêm a propósito das palavras que o porta-voz da Casa Branca, Tony Fratto, proferiu a propósito da morte de Pinochet: «A ditadura de Augusto Pinochet no Chile representou um dos períodos mais difíceis da história da nação. Os nossos pensamentos estão com as vítimas do seu regime e as suas famílias. Elogiamos o povo do Chile por ter construído uma sociedade baseada na liberdade, lei e respeito pelos direitos humanos». Como estas palavras são ofensivas, quando o golpe e a ditadura de Pinochet tiveram como aliados principais Washington e a CIA!

quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

NATAL E MORTE DOS DEUSES

Ele é a Eterna Criança, o deus que faltava.
Ele é o humano que é natural.
Ele é o divino que sorri e que brinca.
[Alberto Caeiro, «Ode» VIII]

Os Deuses, embora nós, são diferentes de nós. Logo à nascença: nós somos filhos da biologia e nove meses de gestação lhe bastam para reproduzir o que lhe demorou milhares de milhões de anos a construir e nos expulsar para a vida; eles filhos dos tempos, melhor, dos nossos contra-tempos, e sua gestação séculos. Os homens germinam no útero materno, os Deuses no útero do espírito do tempo. Nós vindos do sémen, eles do desconhecido ou de mares de lágrimas. Andar a bisbilhotar o dia de nascimento e a vida dos Deuses é não só não perceber os Deuses e a nós como perder tempo, porque procurá-los onde não estão. E se diferentes no nascer, diferentes no morrer: nós, vindos da biologia, por esgotamento desta morremos, eles, porque filhos dos tempos, pelos finais dos grandes ciclos do espírito dos tempos, se apagam. Nós vivemos uma geração, eles in saecula saeculorum. Mas, como nós, finitos. Há duas meteorologias: a do tempo e a do espírito. A primeira é regida por alta e baixas pressões, por ciclones e anti-clones, a segunda, pelas tormentas e abertas do mundo humano, espécie de nevoeiro que se levanta do mar da vida e onde nascem os Deuses. Mas ambas em aquecimento global: vida e atmosfera estão poluídas.

Estamos no Natal. O Deus Menino, à semelhança dos Deuses solares do tempo Quando no alto não se nomeava o céu, nasce no solstício de Inverno. Os Deuses antigos eram terra, sol e vida. Na nora do eterno retorno do tempo, o solstício é re-começo. Como poderiam os Deuses esquecê-lo? E que melhor data para o nascimento do Deus Menino? A simbologia dos Deuses nascidos no solstício, antes de ser salvação, era, imitando o sol, re-início do tempo. A salvação veio com o nosso adoecimento: quando se perdeu o sentido da terra, da vida e do sol. E de nós. O Deus Menino traz a mensagem do solstício: nascer de novo. Contudo, a prenda de nascer raramente vive de mãos dadas com a prenda de ser novo todos os dias. E aqueles que, ao longo de uma vida, os seus dias são de míngua e a mingar? Religião é re-ligar – volver à terra os náufragos – e não caridade – esmola para o náufrago, esquecendo o naufrágio. O presépio, símbolo de despojamento, não pode ser utilizado como justificação de pobreza e miséria. Muito menos feito, sacrilegamente, depósito de compras.

O Pai Natal, caixeiro viajante, com entregas ao domicílio, matou o Deus Menino, o consumismo o despojamento, o individualismo a solidariedade, o adulto a Criança. O Natal esqueceu o solstício e sua ligação à Terra e à vida. Que nova geração divina parirá a globalização das globalizações? Quem não ouve a agonia divina? E a nossa? O deus do «ter» está a matar o Deus do «não-ser» como este tinha morto os Deuses do «ser». Nunca o homem esteve tão só e órfão: não só partiram os Deuses, mas também a política. Resta-nos a poesia e a metafísica do capitalismo: o céu terreno, lotaria que sai a poucos, mas que a fé alimenta. Nunca houve tantos à manjedoura da vida e sem um Deus onde se agarrarem e uma política onde votarem. E sem Natal. E quem os adora? Não aborrecem os Deuses aqueles que neles não crêem, mas os que os utilizam. Descrentes, de nós e do mundo, é o que nós somos. Quem está a matar os Deuses não é o materialismo, mas a materialidade. Quem tem dinheiro compra a felicidade terrena, quem não o tem, que o roube ou, então, que se suicide. Para quando o solstício? E nós Crianças, sempre?

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

VITRAIS DA SÉ DE VILA REAL: UMA LEITURA

0. A História do Espírito passa, segundo Hegel, por três estádios: a arte, a religião e a filosofia. De facto, o homem, primeiro, criou, depois, adorou e, por último, racionalizou. Mas, contrariamente à previsão hegeliana do fim da arte, esta reaparece com mais força do que nunca, a partir da segunda metade do século XIX, ao contrário da razão, que entra, a partir de então, em crise, na sua concepção iluminista, e da religião, que vive a hora da «morte de Deus», apregoada por Nietzsche, em Assim Falava Zaratustra, principalmente.

1. No passado dia 3 de Abril, data da apresentação pública dos Vitrais da Sé de Vila Real de João Vieira, lá estive. Depois disso, já lá voltei várias vezes. E como neles vivem, compaginadamente, a arte, religião e filosofia! O próprio autor, na sua simples e breve intervenção, a contrastar com a longa e maçuda retórica do poder, confessou, publicamente, que, quem o informou, foi o evangelista S. João, a quem dedicou a Obra. Esta empatia entre eles, que está na base da unidade e harmonia profundas entre a forma e conteúdo dos vitrais, é fácil de ver: S. João é o evangelista do Verbo, João Vieira o pintor de letras de luz. Além de evangelista, S. João é poeta, acrescentou João Vieira, mas, aumentamos nós, S. João é, também, filósofo. E é precisamente isto que o faz único entre os evangelistas. João evangelista é influenciado pelo Logos de Fílon de Alexandria (20 a. C – 54 e que Nero mandou matar), filósofo que criou uma doutrina filosófico-religiosa, que ligava o platonismo com a religião judaica: o Logos [Palavra, Razão] passou a ser o intermediário entre a divindade e o mundo. S. João, o evangelista do Logos, ao personificá-lo, fez de Cristo o Logos intermediário: Ninguém jamais viu Deus; o Filho unigénito, que está no seio do Pai, esse é quem o deu a conhecer [S. João, 1, 18]. O prólogo do Evangelho de S. João é um hino ao Logos [Verbo]: No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o verbo era Deus [S. João, 1, 1]. Pode mesmo dizer-se que os primeiros dezoito versículos do Evangelho Segundo S. João são o primeiro texto teológico do cristianismo, além de estarem em consonância com o internacionalismo religioso das epístolas paulistas, não reduzindo, como o fazia Pedro, o cristianismo nascente a uma forma de religião nacional judaica: E todos nós participamos da sua plenitude e graça por graça. Porque a lei foi dada por Moisés, a graça e a verdade foi trazida por Jesus Cristo. [S. João, 1, 16 e 17]. A filosofia do Logos, na linha do platonismo, acentuou a dualidade espírito/matéria e a necessidade de salvar e de substituir este mundo por outro, como vemos no evangelista do espírito: …quem não renascer da água e do espírito não pode entrar no reino de Deus. O que é nascido da carne, é carne; e o que é nascido do espírito, é espírito. [S. João, 3, 5 e 6]. Esta a diferença — mais especulativa e filosófica, e menos histórico-descritiva da vida de Jesus —, que o distingue dos Evangelhos sinópticos: Marcos, Mateus e Lucas limitam-se a descrever, de uma forma muito semelhante e “realista”, a história da vida de Jesus. S. João, ao contrário, parece “distante” dos acontecimentos, moldando-os segundo a teoria do sentido duplo de Fílon: o sentido alegórico e místico.

2. Ao eleger o tema do Logos [Verbo] para os seus vitrais, João Vieira elegeu, consequentemente, o evangelista S. João. Ele está no momento e espaço mais altos dos vitrais. Enquanto Marcos, Mateus e Lucas, ocupam, com tonalidades prosaicas, cada um, sua fresta na nave lateral, do lado sul, João desdobra-se, em cores mais quentes e alegres, pelas três frestas da nave do lado norte e a poesia filosófica do Verbo — No princípio era o Verbo, e o Verbo era com Deus, e o verbo era Deus [S. João, 1, 1] —, escrita em versos de cor e luz, habita a parte mais alta da Sé — as frestas, três de cada lado, da nave central. A altura física lembra a ascese platónica e a cristã, elevando-se à Ideia, pela reminiscência cognitiva («conhecer é recordar»), e a Deus, mediante o Verbo, respectivamente. Nos quatro janelões do presbitério estão os nomes, em latim, dos doze Apóstolos: Pedro, André, Jacob Zebedeu, João, Filipe, Bartolomeu, Tomé, Mateus, Jacob Alfeu, Judas Tadeu, Simão Zelotes, Matias. Pela exuberância de cor e letras, os vitrais, tendo como fundo uma cruz azulada, lembram manuscritos antigos ou mesmo painéis. No transepto do lado sul, há, além da pequena rosácea, a sul, uma referência, a poente, aos dominicanos [domini/cani] — os «cães do Senhor», os «guardiões do Senhor». Contudo, quantas vezes, as palavras, em lugar de iluminarem, são encarceradas em «Index»? Tivessem todos os guardiões das ortodoxias presentes as palavras que Jesus, apesar de ser a luz do mundo [S. João, 8, 11 e 12], dirigiu à mulher adúltera — Nem eu tão pouco te condenarei…— e não teria havido nem autos-de-fé, nem fundamentalismos, nem perseguições nem prisões políticas. Sobre o arco do cruzeiro, a estrela de cinco pontas, símbolos — a estrela e as cinco pontas — de perfeição, evoca a estrela de Belém.

3. Antes de “lermos” a rosácea da fachada principal, vemos nas frestas, que a ladeiam, o anagrama de Cristo, feito a partir das duas primeiras letras — X e P — da palavra Cristo em grego — XPISTOS [o ungido]. A rosácea contém a essência da teologia cristã: a criação, a encarnação e a redenção, e toda a sua simbologia gira em torno da conhecida frase do ApocalipseEu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim, diz o Senhor [Apocalipse, 1, 8] —, livro que, mais que nenhum outro do Novo Testamento, tanta controvérsia entre os teólogos gerou. E a levar em conta a exegese “liberal”, o seu autor não é o S. João evangelista, tese fundamentada, entre outras coisas, na natureza judaica do texto: são a sinagoga de satanás os que dizem que são judeus e não o são [Apocalipse, 3, 9]. O seu autor, inspirado por Deus, (des)venda, (des)eclipsa — apocalipse: apo (fora) kalypsis (cobre) — o que não tardará a acontecer … o tempo está próximo [Apocalipse, 1, 3 ], ou seja, o fim de Roma — Ai, ai daquela grande cidade… que em uma hora foi desolada [Apocalipse, 18, 19] —, o Juízo Final e, continuando o messianismo judaico, a descida dos céus da Jerusalém celeste [Apocalipse, 21, 2 e 10], onde habitarão os eleitos. O Apocalipse é o texto escatológico, que, aliado à encarnação e redenção funda, no essencial, a mundividência cristã. Esta a síntese, que está no vitral da rosácea. Se os vitrais das naves e do presbitério noticiam o Verbo, a sua encarnação e redenção, os evangelistas e os pregadores — de que os doze Apóstolos foram os primeiros —, o vitral da rosácea não só contém todos eles como lhe ajunta o escatológico. A rosácea lembra, pela forma rotunda, o Mundo e, pela cor dominante — o azul —, o infinito. Além do círculo, contém os outros símbolos fundamentais: o centro, a cruz e o quadrado. A cruz, com seus quatro braços, abraça todo o universo, como que a dizer que, por um lado, a dor é imanente ao ontológico e, por outro, que a redenção chega a todo o lado. Ao centro, está um quadrado, no interior do qual estão as letras gregas alfa e ómega, sugerindo esta última, pelo misterioso violeta, que o cobre, o rosto de Cristo: Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. [Apocalipse, 1, 8]. Assim como o quadrado [homem] se inscreve no círculo [divindade] assim Cristo representa o Verbo feito carne, Deus feito homem, habitando entre nós. [S. João, 1, 14]. Através da encarnação, o Verbo une o divino e o humano, liga o céu à terra, inscrevendo «o quadrado no círculo da divindade». [Jean Chevalier e Alain Gheerbrant, Dicionário dos Símbolos, Lisboa, Círculo dos Leitores, 1997, p. 203]. Mas se no Evangelho de S. João o Verbo é, essencialmente, o originárioNo princípio era o Verbo e o Verbo era com Deus… — no Apocalipse, não só se mantém o originário como aparece o fim salvífico: Eu sou o Alfa e o Ómega, o princípio e o fim. A rosácea é, assim, um hino ao cristocentrismo: Cristo, ao centro do quadrado central da cruz [a Jerusalém celeste], que abraça e redime o Universo, e rodeado pelos doze apóstolos, simbolizados pelos rectângulos, onde habita a Palavra de Deus — a luz do Mundo —, é o princípio [Alfa] e o fim [Ómega]. E, como que a dizer-nos que o tempo histórico é finito, a rosácea, qual grande relógio da História e do Universo, "salva" o passar histórico pelo regresso da criação ao criador, lembrando a cada hora, século e época as palavras de Lucas: Coelum et terra transibunt: verba autem non transibunt (passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão, (Luc., 21,33). Antes do início da hora da criação terrena, já as letras E-u s-o-u pré-existem, coincidindo as letras o A-l, com o A vestido de um violeta misterioso e atravessado por um amarelo divino, com o primeiro instante do tempo. Depois, as restantes letras percorrem o mostrador dos tempos: f-a e o ó-m-e-g-a, o p-r-i-n-c-í-p-i-o e o f-i-m, em letras cor de fogo, de azul de passagem para o outro lado e de eternidade, principalmente. A rosácea, quando a hora caminha para poente, é a visão apocalíptica: e todo o olho verá…[Apocalipse, 1,7]

4. Debrucemo-nos, agora, sobre a simbologia da linguagem estética utilizada: as letras. Desde cedo, elas tiveram uma natureza sagrada, porque consideradas como demiurgas e força criadora: tijolos inteligíveis, responsáveis pela construção e explicação do Livro do Mundo. Mesmo hoje, a ciência utiliza essa mesma simbologia, apesar de com natureza diferente. Assim, dizemos que as letras-código, responsáveis pelo livro da vida, são a A(denina), a G(uanina), a T(imina) e a C(itosina), e as letras do código físico do Universo são u e d (quarks base) e o e¯ e vº (leptões: electrão e o neutrino). Contudo, se as letras de todos os vitrais têm uma estrutura, que lembra o caos, as da rosácea, que estão fora do quadrado central, parecem ganhar autonomia e liberdade e, apesar da sua estruturação, aparentemente caótica, parecem transportar, no seu voo luciferino sobre o espaço e o tempo, a ordem e a inteligibilidade da escrita genesíaca. Não nos esqueçamos que toda a criação artística é luciferina e fáustica. Assim, as letras de João Vieira, na sua autonomia estética significante, também elas, se querem fazer carne: letras emaranhadas umas nas outras, quais átomos e mónadas, estruturando-se em génesis e apocalipse estéticos.

5. Independentemente do conteúdo religioso dos vitrais, nomeadamente da rosácea, as letras de João Vieira perguntam pela realidade do real: qual a origem de tudo? Qual o sentido e fim da existência? Face ao silêncio e arracionalidade do Universo e da sua polaridade trágica — Apolo/Dionisio —, a arte grega assumiu naturalmente a morte; Cristo, redimindo a criação do Pai, promete a ressurreição pascal; o messianismo político acredita na salvação histórica do homem; a ciência (des)cobre, mas os direitos de autor não lhe pertencem; a arte, face à «irrealidade histórica», segundo palavras de Octavio Paz, e à efemeridade ontológica, transforma-se em metafísica alternativa: por um lado, cria uma ontologia estética perene e, por outro, o autor conquista, através dela, a salvação do esquecimento e da morte: a eternidade. A religião não deixa, de certa forma, de democratizar a salvação e a eternidade, sendo a democracia a sua versão laica. Mas, face aos direitos terrenos e à elevação das condições materiais de vida, que a democracia trouxe a algum Ocidente, a eternidade ficou cada vez mais relegada para segundo plano. Todos os homens são tentados: a maioria pela carne, poucos pelo saber e por Deus, uma minoria pela criação. E como a arte, segundo Goethe, é uma forma de religião superior, quantos vão adorar os Vitrais da Sé de Vila Real?

6. Os Vitrais de João Vieira transmutaram a Sé: ao esforço fideísta do arco gótico arcaizante, amarrado, ainda, à pesada estrutura românica, e à austeridade e à penumbra medievais, apesar da exuberância do barroco do presbitério, junta-se, agora, o da inteligibilidade e a alegria da boa-nova, trazida em letras de luz, e a Sé, qual nau-nave, eleva-se tirada pela rosácea e frestas pandas de Verbo, cores e Luz.

Parabéns ao Bispo de Vila Real, D. Joaquim Gonçalves
Parabéns ao IPPAR
Parabéns e obrigado a João Vieira
Parabéns à Arte.

António Azevedo, Vila Real, 14 de Abril de 2003

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

UMA FÁBULA ENTRE DUAS HISTÓRIAS

O cego e o rapaz

De aldeia em aldeia, mendigando, conduzia o rapaz o cego. Um dia, contrariamente ao pão seco do costume, a esmola foi acompanhada de chouriça. O rapaz nem queria acreditar e, antes que o cheiro chegasse às narinas do cego, guardou-a, rapidamente, dando-lhe metade do pão. Mas, ao levá-lo à boca, o olfacto do cego apercebeu-se, imediatamente, do cheiro a chouriça, que esta tinha deixado agarrado ao carolo de pão, não fosse a perda de um ou mais sentidos compensada com o reforço da acuidade dos restantes. Desconfiado, voltou-se para o rapaz: ouve lá, que é da chouriça? Que chouriça, retorquiu ele? Não há chouriça nenhuma. Deram-nos o pão barrado com cheiro de chouriça, mas chouriça nem vê-la, defendeu-se o rapaz. O cego, apesar de nada mais dizer, ficou na dele. Uns passos adiante, por descuido do rapaz, que saboreava, um pouco afastado, a chouriça, o cego bateu com a cabeça num sobreiro. Zangado, berrou-lhe: em vez de me guiares, em que andas a pensar, rapaz? Este, ainda com a história da chouriça na cabeça e com ela já no estômago, reagiu: cheirou-te, há pouco, o pão a chouriça, mas não te cheirou, agora, o sobreiro a cortiça. Infelizmente, quem precisa, mesmo com razão, não está em posição e condição de exigir.


O lacrau e a rã

Andava um lacrau, margem acima, margem abaixo, esperando encontrar um meio que o transportasse para o outro lado do rio. Mas quando o desespero começava a ser do tamanho da sua ruindade, eis que o destino lhe colocou uma rã na margem. E dirigindo-se para a rã: os deuses trouxeram-te, junto de mim, para me transportares para a outra margem. Os deuses, perguntou ela? O destino trágico, sim. Como posso confiar em ti? Estranha pergunta, ripostou o lacrau: se, ao me levares no teu dorso, te fizesse mal, o teu mal não seria, também, o meu mal? Perante argumento tão sólido, a rã anuiu em transportá-lo. A meio do rio, a tentação foi mais forte do que ele e da sua própria sobrevivência, e injectou o seu letal veneno na prestável rã. Quando a ruindade está na massa do sangue é ela que manda, mesmo quando a própria vida está em perigo. No rio da vida, somos, muitas vezes, vítimas daqueles que ajudamos: quem sobe na vida, o passado é para branquear e esquecer. E, quantas vezes, lacraus de nós mesmos, não nos auto-injectamos de venenos mortais, não resistindo a impulsos reptilários, que, em nós, ainda, permanecem e mandam?!


Se não sabes, não bulas!

Deu entrada, na urgência, um sinistrado, com a cabeça à mostra. Levado imediatamente para a mesa de operações, o médico cirurgião, enquanto esperava pela anestesia, para iniciar a intervenção cirúrgica, olhou para a cabeça empastada de sangue e, sem pensar, comentou para os seus botões: não sei por onde começar. O paciente, julgado inconsciente pela equipa médica, recomendou, lá dos interstícios do seu inconsciente profundo, ao cirurgião: se não sabes, não bulas! Quanta gente bule onde não devia e onde não sabe!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

DA POLÉMICA

Polémica, de polemos, significa luta, gerada pelos contrários, como nos ensina Heraclito. O mundo sem contradição pararia. Por isso, a alma do mundo está animada de polemos, de polémica. Empédocles vê no polemos, entre a Cólera [Neikos] e o Amor [Philia], a fonte do surgimento de «tudo o que houve, há e haverá». Os gregos colocaram o polemos, onde os judeus viram Javé e os cristãos Deus. No polemos, beberam, até à embriaguez filosófica, Hegel e Marx. Só que os sistemas acabam, sempre, por fechar e encarcerar o polemos, dentro deles. Assim, polémica que não seja geradora de algo não é polémica, é retórica e palavreado. Mas, como há quem só queira polémica por polémica, de que cedo se dá conta — não há verbo nem assunto —, também há os que, com medo dela, a tentam desacreditar, acusando aqueles que a praticam, em coerência, de alimentarem e viverem de polémicas.

O alimento da polémica não são as palavras, mas as ideias. No primeiro caso, está o palavreiro e o palavreado, no segundo, a polémica e as ideias. No primeiro caso, o palavreiro é o protagonista, no segundo, são-no as ideias. Esta a razão por que o palavreiro, grávido de soberba, anda com o rei na barriga, enquanto o polémico, esfomeado de ideias, está livre de contrair o pior dos males: a gordura mental. A luta de ideias é a correspondente, no homem, da luta ontológica, só tendo sentido quando ela vai além de fins individuais e interesseiros. Só que os estáticos e os instalados não gostam da polémica, porque, objectivamente, são uns empecilhos à evolução do mundo e da vida. Se neles actuasse a selecção natural, a realidade, com facilidade, se livraria deles. Daí que acusem a polémica daquilo que eles próprios são: palavreadores. Mas há outra espécie, não menos perigosa: aqueles que, manhosa e hipocritamente, se escondem e se demitem, sob um silêncio que tem tanto de estratégico quanto de cúmplice, mas com o ar mais virtuoso e cristão, da necessidade e imperativo da crítica e da polémica.

A polémica traz à luz a realidade, assustando aqueles cuja vida assenta no não se sabe. A polémica é uma espécie de furão: faz sair os coelhos assustados da toca, pois torna visível que o fogacho, em que vivem, tem raiz na sombra do encoste, do favor que silencia, do jeito e dos clientelismos partidários. Fala-se em liberdade de pensamento e de expressão. Mas quem tem e exerce a liberdade de pensamento e de expressão? Ontem, criticava-se a ditadura por falta de liberdade. E hoje? Quem pode falar, senão aqueles que devem a vida a si mesmos? Os partidos, qual patrão, compram a liberdade, àqueles a quem servem, como ontem a ditadura comprava a liberdade aos que a serviam e prendia aqueles que se lhe opunham. Hoje, não nos podendo prender, aprisionam-nos a vida. Deixa-os falar, murmuram. No que diz respeito à liberdade, no sentido mais elevado que ela tem, venha o diabo e escolha: a ditadura ou democracia. Na ditadura, a liberdade não existe formal nem materialmente. Na democracia, existe formal, mas não materialmente. No plano das ideias, os princípios e a coerência são uma coisa, mas, na prática, tudo é subvertido: não há princípios, não há valores, não há coerência, porque a vida é o contrário de tudo isso. Escola e educação para quê? A Escola, aquelas que ainda o são, é uma ilha. A maioria delas já está alagada. Hoje, a verdadeira preparação para a vida é a apologia da incoerência, do vale tudo e do salve-se quem puder.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2006

NÃO HÁ SEGOR PARA ONDE IR


Face à impiedade dos habitantes de Sodoma e Gomorra, o deus de Abraão confidenciou ao patriarca a sua decisão de as condenar, a elas e aos seus habitantes, à extinção e morte pelo fogo. Abraão, mais humano do que o seu deus, retorquiu-lhe: Senhor, «Quererás tu perder o justo com o ímpio?» [Génesis, 18, 23]. Prometei-me, se encontrarmos cinquenta justos na cidade, que, por amor deles, os poupareis, mais os seus habitantes. O Senhor anuiu, mas Abraão, varão justo e bom conhecedor dos homens, convenceu, sem o enfadar, o seu deus a baixar o número para dez: está bem, Abraão, se houver dez justos, eu perdoarei a toda a cidade por amor deles. Mas nem dez justos encontraram. Então, o futuro deus de Israel, mandou dois anjos a casa do justo Lot, que lhe ordenaram que, o mais cedo possível, saísse, mais a sua mulher e duas filhas virgens, da cidade, para não perecerem na maldade dela. E assim aconteceu: entrava, seguro, Lot, mais a sua família, na cidade de Segor, pela hora da descida do manto do crepúsculo sobre a Terra, quando, vindos do céu, começou a chover enxofre e fogo sobre Sodoma e Gomorra. Mas Segor, como todas as utopias, foi refúgio breve. Hoje, chovem, pelos mesmo lugares, mísseis inteligentes, vindos do mar. A história das Babilónias confunde-se com a história dos deuses: emigraram para Ocidente.

Com o critério do deus de Abraão, quantas cidades sobreviveriam, hoje? E, se houvesse um deus, que dissesse a cada cidade: apresentai-me dez justos e eu a pouparei, quantos Lots apareceriam? Os ímpios subverteram os deuses e em vez de serem eles a enviar os seus anjos a Lot, salvando-o da destruição da cidade, são os ímpios dos bons princípios, das boas maneiras, das influências, que expulsam o justo da vida e a sodomizam. Só os justos são injustos na exigência que fazem aos deuses: que, por amor deles, poupem os injustos. O justo é o mais temido pelos ímpios, porque conhece e combate a “tumografia” da cidade.

Não há Segor para onde ir, porque, ao contrário da mulher de Lot, não olharíamos para trás.

quinta-feira, 7 de dezembro de 2006

A PROPÓSITO DE PARECENÇAS



O nascer é, para quem nos espera, como se viéssemos do nada e não tivéssemos quase um ano de vida. Ninguém nos pergunta pela nossa estadia e habitação uterinas. As novas tecnologias não tardarão a possibilitar que os pais possam acompanhar visualmente a fase embrionária. A primeira preocupação, de quem nos recebe no átrio da vida, é saber se somos perfeitinhos e a quem nos saímos: tem aparecenças com a mãe; é a cara chapada do pai. É no início e no fim da vida que as parecenças são maiores: às parecenças físicas da nascença sucedem e juntam-se, com a entrada na segunda fase da vida, as parecenças comportamentais. Quem já não se confundiu, assustado ou assustada, com o seu próprio pai ou mãe? Sucede-me, por vezes, olhar-me ao espelho e estar lá outro: o meu pai. E tenho uma sensação estranha.

Mas as parecenças não acabam aqui. Ao longo da vida, não há ninguém que não tenha sido confundido com o seu outro, que não conhece e, mesmo que conhecesse, nele não se reconheceria. Todos têm o seu sósia: não o seu irmão biológico, mas estatístico. As combinações genéticas, ao tenderem para infinito, geram, necessariamente, sósias. Esta questão não deixa de estar presente na teoria do eterno retorno, que Raul Proença tratou nos seus dois volumes do Eterno Retorno. É no Capítulo VI do primeiro volume que a hipótese e natureza desse retorno são, especificamente, tratadas, sob duas modalidades possíveis: o retorno da identidade numérica e o retorno da identidade específica. A primeira — retorno da identidade numérica —, além do retorno cosmológico, conteria o retorno da singularidade do eu, a ressurreição individual numericamente idêntica e o valor escatológico; a segunda — retorno da identidade específica —, traduzir-se-ia por um retorno infinito de outro(s) Sócrates, mas como sósia(s) cosmológico(s) do mesmo. Esta pode ter valor cosmológico, mas, continua Raul Proença, «perderia inteiramente toda a sua significação escatológica: não teríamos diante de nós uma doutrina da ressurreição». [Raul Proença, ibidem]. E porque o eterno retorno nietzschiano “fica” pelo retorno da identidade específica (cosmológica), merece, a Raul Proença, o seguinte veredicto: «Zaratustra trouxe aos homens uma promessa desencorajante. [...]. Prometeu-nos repetirmo-nos.[...]. Prometeu-nos a eternidade, mas deu-nos, quanto a nós, uma eternidade ilusória... [...]. Zaratustra mentiu-nos! Abandonemos, pois, Zaratustra»! [Raul Proença, Ibidem].

Voltando às parecenças: ó homem, você é parecidíssimo com Saramago! Quando o vi, pensei mesmo que era ele. Perdão, atalhou ele. O Saramago é que é parecido comigo. Consigo? Interrogou o outro, incrédulo. Pois claro, comigo. Com quem havia de ser? Não sou mais velho do que ele? Não acha que é o filho que se parece com o pai e não o pai com o filho? O incógnito homem, que ninguém conhece nem conhecerá, não se quis ver confundido com Saramago, apesar de célebre e mundialmente conhecido. Saramago, porque mais novo, é que se deve parecer com ele. Num tempo em que poucos gostam de si e em que muitos imitam esta ou aquela figura pública ou dela são fãs, quantos não ficariam satisfeitos, se alguém lhes descobrisse parecenças físicas, ou outras, com alguma celebridade? É caso para dizer: quem não o pode ser, quer parecê-lo. Mas o nosso homem não: antes quer ser ele, simplesmente, do que parecer outro, celebremente. E como está certo!

domingo, 3 de dezembro de 2006

DA INVEJA

Nada possuamos, para que não nos invejem nem a morte nos desejem. Tudo e em tudo sejamos, para que a morte não possa connosco e Osíris não nos peça contas, quando a alma nos pesar. Há que matar a morte com o peso de ser. O ter, por mais pesado que seja, a morte o leva, folgada. Banquetear-se-á a morte com o nosso corpo, banquetear-se-ão os homens com os nossos bens, mas a alma do ser, se a tivermos, nem a morte nem os possessivos tocarão. A alma é o que se é e só tem alma aquele que é. Os encorpados e possessivos são desalmados. Fenecerão de corpo, os bens passarão e os deuses condená-los-ão ao esquecimento. O Egipto demonstrou que o corpo não tem salvação. A Grécia que a divindade e a eternidade estão na estética. As gerações que os bens não têm donos. O santo é, o poeta é, por isso, eternos: eternamente na alma daqueles que não são ou não podem ser tanto como queriam e desejariam. O bilhete para a eternidade não se pode comprar em qualquer editora ou loja metafísica. Os simples são uma espécie de santidade natural, distantes das doenças do «mundo humano». Há uma santa simples, que, acima de todos os deuses, adoro: minha mãe.

Existem duas espécies de inveja: a do ter e a do ser. A primeira faz parte da essência do mundo das coisas. A maioria dos invejados não só gosta de o ser como não olha a meios para passar de invejoso a invejado. No mundo do ter, o objectivo principal e final de vida é possuir e nunca ficar atrás do vizinho. Todos concorrem para ter mais do que outro e para fazer ver ao outro, saboreando o invejado, como aquilo que possui, a visão da mó da inveja a moer o invejoso. Tão ou mais importante que o ter é que o outro não tenha mais que nós. A inveja, neste aspecto, passou a ser o motor do consumo, levando a ter o que se não precisa e a gastar o que se não tem. No mundo do ter, possui a inveja invejados e invejosos: inveja o primeiro que o outro possa ter mais do que ele, inveja o segundo o que o outro tem. Invejar é in-ver: «olhar demasiado para aquilo que é dos outros». A inveja é profunda entre vizinhos ¬– vemo-nos, no ter, amiúde – e atenuada entre estranhos. Alimenta o invejoso o seu não-ter, «olhando demasiado» o que é dos outros, mas como o in-ver não se converte em posse, o resultado é o sentimento de desgosto por não ter bens iguais ou superiores aos alheios. O curioso tem os olhos nos dedos, o invejoso nas coisas alheias.

Outra a inveja do ser. Inveja esta não o que se tem, mas o que se é. São as duas invejas imunes, entre si, mas ambas trituradoras, na sua esfera. Diremos mesmo que a segunda é mais dolorosa, porque do domínio ontológico. Invejam os génios os deuses, os talentos os génios, os medíocres os talentos. A inveja do ser é in-ver demasiado o que o outro é. É inveja da eternidade daqueles que a conquistam e desgosto de sabermos que morremos, como castigo por trocarmos o ser pelo ter ou por incapacidade nossa de aceder ao eterno.

sábado, 2 de dezembro de 2006

DA LUCIDEZ

Olhando retrospectivamente, confesso que os meus estados de maior cegueira estiveram acertados com a hora das minhas maiores certezas. Aprendi que a cegueira maior é julgar que temos a razão. O maior inimigo da razão é o militante racional, porque tende a impô-la aos outros. O maior inimigo da democracia é o militante partidário, porque sonha sempre com maiorias absolutas. O maior inimigo do sentimento religioso é a igreja, porque faz da outra uma heresia e do seu seguidor um infiel. O que rege o mundo e o faz correr é a cegueira, mas só o lúcido é fiel à luz. Sabendo que o erro, mais cedo ou mais tarde, viria ao seu encontro, o lúcido não se fixa. Vive na errância. Cegou Édipo a cegueira de ver o proibido. Não queiramos ver o que ainda a luz não viu, se o que ela nos mostra não vemos. Distantes da cegueira socrática, pela verdade, e do relativismo oportunista dos sofistas, os estóicos viram a lucidez e transformaram a filosofia numa religião sem deuses: o maior dos males é o (ex)cesso e o maior dos bens a felicidade serena.

Lúcido é aquele que, vivendo serenamente acima das igrejas, das ideologias e das razões, é iluminado por todas as perspectivas, não ficando cego por nenhuma. Cegueira é ver uma coisa acima de todas as outras. Amor é cegueira, porque não deixa ver para além da coisa amada. Lúcido o que vê o seu ângulo como apenas mais um. Lúcido o que, concretamente, está centrado, e, abstractamente, descentrado. Lúcido o que está lateralmente dentro. Lúcido o que sai da espécie para a ver de fora, porque de espécie diferente. A verdade não é angular, nem a soma de todos os ângulos. Somar perspectivas significa somar o contraditório. Lúcido o que (re)conhece que todos estão certos, mas nenhum verdadeiro. Cego é o que faz do seu canto o centro do mundo. A maior cegueira não é a física nem a do ignorante, mas a daquele que as ideias cegam, em lugar de iluminarem. Quem bulha por ideias não as respeita e redu-las a botões ou berlindes. Alguém já ganhou uma discussão? E, se a ganhou, o que ganhou com isso? Discutir e pretender ter razão é um acto agressivo e possessivo como outro qualquer. Lúcido o que, sem ignorar, é ignorante, o que, sem nada saber, é sábio. Lúcido é luz branca. Cego o que confunde a cor, onde está, com a luz.

Lúcifer teve a lucidez de ver em Deus a negação de Deus, porque impeditivo do nascimento de um Deus maior. Contudo, perdeu a lucidez, quando se revoltou, porque o lúcido não se revolta. O mesmo sucedeu a Deus, que, porque revoltado, criou o inferno, onde o precipitou. À revolta, responde-se com revolta. À luz, não podemos fazer frente: cega-nos. Só dos lúcidos os deuses têm temor, porque os olham como eles são e não como os homens os vêem. Todo o que carrega a luz carrega leveza e calma, dissolve a escuridão e ilumina os limites. Lúcido é ser luz: ilumina, mas deixa a explicação para os outros; desvenda o rosto do ser, mas a visão não lhe pertence. O que explica o olhar é a luz e não o contrário. Se viver, segundo a verdade, é transformar a vida num inferno, ser e estar lúcido é dar conta de que o inferno é a própria vida e de que a mentira, como meio de sobrevivência e concorrência, faz parte dela. A verdade aprisiona-nos, a lucidez é uma espécie de limbo, para além do verdadeiro e do falso e do prémio e do castigo. O lúcido não visa possuir ou corrigir o mundo, mas iluminá-lo: quem pretendeu corrigir e salvar o mundo tornou-o, sempre, num inferno ainda maior.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2006

DIMENSÕES



A realidade tem várias camadas e cada uma delas as suas dimensões. Nós habitamos num T4 dimensional: ao comprimento, largura e altura cartesianos acrescentou Einstein o tempo. Que muitos arquitectos e engenheiros têm em pouca consideração, pois fazem as coisas de tal modo acanhadas, que, passado pouco tempo, ninguém cabe nelas. Vejam-se as ruas da Cidade e os Itinerários Principais que, não tendo sido feitos com a dimensão do tempo, mais se parecem, poucos anos volvidos, com quelhos apertados e estradas de segunda. Mas o estranho é que, à medida que caminhamos para o infinitamente pequeno, mais dimensões são necessárias. O infinitamente pequeno vive em tal irrequietude, incerteza e ubiquidade que precisa, dizem os físicos das partículas e os modelos matemáticos, não de quatro, mas, imagine-se, de onze dimensões! Já imaginaram um electrão a habitar um T11? Cabe lá uma criança numa casa! Uma criança só cabe na rua! O quantum, seja de espaço, de tempo, de matéria, de energia é o que faz a diferença entre 0 ou 1, entre tudo ou nada.

Mas voltemos ao nosso mundo, à nossa condição e dimensão humanos. Se o tempo cósmico é só um, no mundo humano, há dois tempos: o tempo da nossa vida e o tempo histórico. Na carruagem da História há, independentemente da economia e da classe em que se viaja, duas classes e dois tipos de passageiros: os que perguntam pelos horários dos Caminhos de Ferro da História e os que sabem de cor e salteado, e por aqui ficam, os horários dos caminhos da sua vida. A Linha do Douro, para muitos, começa e acaba entre os apeadeiros em que se movimenta o seu existir. Não há cais nem portos, não há Barcas de Alva nem S. Bentos. Felizes os que, ao som da concertina, vão nas mãos do maquinista do Destino, como se levados pela mão por um Deus! Quem vai nas mãos do Destino bem vai. Bem pior está aquele que o perdeu. Apesar de todos termos tomado o comboio da vida no mesmo Entroncamento da História, os bilhetes, os horários e o destino de cada um são bem diferentes. Desculpe, quantos anos tem? Os anos do Universo e da vida. Como?! E você? Sessenta, feitos. Ninguém lhos dá. Para a maioria, a vida decorre consciente no plano individual, mas inconsciente, no plano histórico-civilizacional. Fora da sua vida e do seu contexto, nada mais há. Civilizacionalmente, a maioria vive no presente. Não há passado nem futuro, para além deles. Esta maneira de estar na vida assemelha-se, em muito, à criança, para a qual a vida é um eterno presente. Esta a chave da felicidade da criança. Aquela a chave da felicidade dos adultos. Mais do que este ou aquele regime político, mais do que com liberdade ou sem ela, o que torna a Civilização e a História possíveis é esta inconsciência feliz. Há duas coisas que nos fazem destemidos: a ignorância e a inconsciência. E quando multiplicadas por multidões fazem exércitos imparáveis.

Epocalmente, contemporâneos, civilizacionalmente, extemporâneos. Qual o seu apeadeiro? Alfarelos! E qual o seu destino? Perdi-o, como quem perde o comboio.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

ESTAMOS NO TEATRO E SOMOS TEATRO

Não sei porquê, ou sei, mas não gosto de me ver a assistir à representação seja daquilo que for. Como não gosto de ir no rebanho. Desapareço e perco-me de mim, no meio dele. Do mesmo modo, ao olhar-me a olhar sinto-me estranho, outro, dos outros, basbaque. Foste ao teatro? Para quê, se nele estamos e o somos? Para quê ir ao teatro, se a verdadeira representação é a vida? Não é a sua representação que o dramaturgo mostra? À medida que deixamos de ser actores no Teatro do Mundo mais passamos a ser dele espectadores. Quem não olha a vida como representação tragicómica não a vê. Vive-a. E é mais feliz. A arte é luz e sombra: mostra a breve luz que não somos e a sombra eterna que somos. O palco da arte é espelho para melhor nos vermos no da vida. Enquanto a razão descreve, o teatro mostra o nosso teatro. Há três órgãos de visão: os olhos, a razão e a arte. Com os olhos, vemos; com a razão, vemos o que vemos; com a arte, sentimos o que vemos. Andamos demasiado afogados no existir para darmos conta de nós. Somos tão bons actores que não damos conta que o somos. Representamos tão bem que não damos conta de que a vida é representação. Tão alucinados que confundimos irrealidade com realidade. O melhor actor da vida é o que a vive e não a questiona. O dramaturgo não faz dramas, antes vê o drama como a essência da vida, tendo o mundo como palco e os homens como actores. O dramaturgo é contra-ponto. O educador ponto.

Eurípides, ao racionalizar a tragédia, matou a tragédia. A intervenção do deus ex machina coloca em cena um elemento estranho ao fatum, interferindo na Necessidade e em suas Leis. Com o deus ex machina, Eurípides introduziu a racionalidade na tragédia e, com ela, a pretensa salvação das personagens. Compreende-se que o dramaturgo se sinta dividido entre o fatum, que tudo rege, e a sua humanidade, mas a quem deve obediência é ao trágico. Dois milénios e meio de racionalidade não só não nos salvaram do trágico como acentuaram a nossa consciência dele. E se Eurípides não resistiu à tentação de salvar, pela via racional, as suas personagens, como imaginar que o Teatro do Mundo poderia subsistir sem o mecanismo do deus ex machina? A história tragicómica humana atingiu tal proporção que obrigou Deus a descer, através do Filho, ao palco do Teatro do Mundo, para justificar a tragédia e sofrimento nossos: se o Filho de Deus morre crucificado na torpíssima cruz, não só justifica o sofrimento como mostra a impossibilidade de salvação deste e neste mundo. A salvação cristista continua a salvação platónica: assim como, no plano gnoseológico, o inteligível salva o sensível assim o outro reino salva este mundo, no plano religioso. A intervenção divina sucedeu à intervenção do deus ex machina trágico. A fidelidade ao mundo exige a assunção do trágico. Quem a ele é infiel fiel passa a ser a um deus ex machina qualquer. Razão e religião, cada uma a seu modo, pensaram poder derrotar o Destino. Em vão. Eurípides é o “moderno” antes do tempo e Deus a versão religiosa de deus ex machina do nosso tempo.

Nascer é entrar em cena e a vida representação. Morrer deixar de representar: acta est fabula. E, embora a representação seja dolorosa e sem outros a aplaudir, que não os próprios, ninguém quer deixar o palco.

sábado, 25 de novembro de 2006

A reposta ao post scriptum do meu artigo Arte e Política tem a caracterizá-la o explicar o antes pelo depois, o persecutório, o substituir a questão central por uma contestação (e ataque) errática lateral e a fartura em adjectivação.

(i) Contextualização. Ao tomar conhecimento da publicação da poesia de Jorge Gomes Miranda no suplemento do DN, em 27 de Outubro, pelas edições do Teatro de Vila Real, decidi, pelas razões expressas no post scriptum do meu artigo Arte e Política, perguntar ao Director do Teatro de Vila Real (e direcção) o que o levava a publicar o «“grupo” de cá» e os de «Lisboa», com prejuízo da «criatividade local». Para o efeito, recorri ao site do Teatro de Vila Real, para me certificar e comprovar quem os publicados, então. Foi esta a base de informação de que parti. Utilizar o que foi publicado depois ou o que vai ser publicado no futuro é não só fugir à questão de fundo como jogar com o depois para justificar o antes. Apesar de o Director saber perfeitamente que Lisboa era, no texto, sinónimo de “fora” da Região, não deu conta de que ao rebater a minha mentira (ignorância, sim, mas não por culpa própria) mais demonstrou a verdade dela: afinal, Jorge Gomes Miranda, não era de Lisboa, mas do Porto! Assim, esquecer a informação disponível, no momento, no site do Teatro, dizer que o editado não era de Lisboa, mas do Porto, e explicar o anterior pelo depois (estribando-se, mesmo, no futuro!) é uma maneira perversa de argumentar. E onde a mentira de ter escrito que os editados pelo Teatro não tinham lugar nas editoras de Lisboa? Iriam eles, ou outros, rejeitar uma publicação oferecida, se toda a gente sabe da dificuldade em publicar poesia? Se outro mérito não tivesse, o meu questionamento teve o mérito de trazer para o domínio público parte da vida de uma empresa pública que tem andado, na sua vertente editorial, mais no domínio do particular. E ainda me goza, duplamente, por não saber a sua novidade editorial: Rui Pires Cabral! Será inocente o facto de a empresa municipal do Teatro de Vila Real, na sua vertente de publicações, em lugar de editar teatro, o que seria a sua vocação natural, editar poesia? Por que razão esta opção? Que motivos lhe estão subjacentes? E por que não se deu conhecimento público do programa editorial, logo, aquando do seu nascimento? O que pensamos é que esta prática editorial está longe da natureza e fins de uma empresa municipal que é servir, antes de mais, o concelho e os munícipes, e com o seu conhecimento e participação aberta.

(ii) Persecutório. Escreve o Director: «Para além de um desrespeito pelos critérios editoriais em causa ...». Não queria acreditar no que estava a ler. Primeiro, como posso desrespeitar os critérios editoriais, se não os conheço e não são do conhecimento público? Segundo, gravíssimo: criticar critérios nada têm a ver com o respeito ou com a falta de respeito, porque, em nome do respeito, calava a boca a toda a gente e, a mim, a caneta. Seria silenciar, ainda mais, o «espaço público» de que José Gil fala, em Portugal, Hoje, o Medo de Existir, e se queixa de ser ocupado pelos partidos e pelo ecrã. Não podia ter encontrado melhor axioma para fundamentar o «lápis azul». Cuidado: quando a Ética invade a Polis (Política), está aberto o caminho para os eixos do bem e do mal. Relativamente aos poetas, maiores, que cita, para se segurar (como lhe ficou mal!), por respeito por eles e pela poesia, fico pelo silêncio.

(iii) É ameaçador. Na parte final, tem outra deriva autoritária e dá outro salto perigoso: se, no início, usou o argumento do «lápis azul», acusando-me de «desrespeito pelos critérios editoriais», no final, acusa-me, por questionar os editados, de «pôr em causa a honestidade da pessoa editorialmente responsável». E, juridicamente, o meu acusador passa a meu melhor advogado: aquele que me acusa de possível dolo, absolve-me com a ignorância com que o pratiquei, ignorância que a devo a ele, pois, como munícipe, o pouco e mal que sei, da vida editorial referida, é, sempre, a posteriori. E se sei quando devo começar o combate, também sei quando o devo terminar: acabará quando os espaços culturais municipais locais forem públicos. E, nesse caso, terei muito gosto em cumprimentar aqueles que critico, porque nada de pessoal me move seja contra quem for, e habitar o espaço público com eles. E se alguma dúvida tivesse de que a minha intervenção o tivesse ferido na sua honestidade, seria o primeiro a reconhecê-lo publicamente. Lembro que distingo o autor Vítor Nogueira, que ontem, publicamente, elogiei e que hoje o reafirmo, da prática cultural, na vertente editorial, do Director do Teatro, que critico. Ao colocar-me na terceira pessoa («ele») e ao “tirar-me” do texto, mais me demonstrou. E, ao não falar (perdão, escrever) para mim, mas de mim, a consequência foi a inevitável: a escrita transformou-se num “mal dizer” d’«ele».

(iv) Adjectivação. Eu belisquei a sua importância e vaidade, a mim, adjectivou-me directa ou indirectamente de leviano, provinciano (não me deite(m) letras para os olhos. Ah!, quem o retórico?!), ressabiado e mente perversa. Quanto a ressabiado: alguém, que contestamos, tem melhor táctica para nos contestar do que a de nos chamar invejoso? Exigir direitos iguais, no plano cultural, é ser ressabiado! A do provinciano está boa! Só me faltava ser acusado de provinciano por defender a Cidade e a Região, e não a mim! A «mente perversa», que mais parece nascida de uma teoria da conspiração, é um bom exemplo do rigor lógico do Director: de uma eventualidade (acontecimento incerto) – «eventual gestão deficiente» –, deduz a «tese»! Leviano por não saber as biobibliografias dos editados e a editar pela editora do Teatro? Acertou. Ofensivo, por o questionar? Então, que chamar aos que questionam o questionar?

(v) O nuclear. No essencial, o que me levou, e leva, a questionar a prática editorial das publicações do Teatro de Vila Real é a contradição que subjaz à sua prática editorial: o não ser pública para os munícipes vila-realenses e o ser municipal para autores fora do município, ferindo, assim, o conceito e vida de empresa municipal e pública. Assim, não é o valor ou não valor dos editados e editáveis que está em causa e dos quais fez amplo panegírico, mas, logo, o próprio facto de que não são munícipes. A abertura a editáveis de fora da Região, nem que um só fosse, mesmo Nobel, e o fechamento local, com excepções para um grupo restrito, desfigura, perverte e subverte a natureza e finalidade de uma empresa que é municipal. Apesar de ser, em absoluto, contrário ao nome e, em parte, à natureza, reconheço que o Grémio Literário tem como objectivo cultural a Região. Ou quer-se substituir à IN-CM? Uma correcção: este confronto é mais do que uma «luta de ideias»: é uma luta pela sua sobrevivência. Este o meu crime. Ecce homo.

LINHA DO DOURO: DOENTE COMO O DOURO

De Barca de Alva a São Bento, descendentemente, de São Bento a Barca de Alva, ascendentemente, durante cem anos, quantas composições de passageiros e de mercadorias, quantos chefes de estação a darem o sinal de partida para a ansiedade, quanta pouca-terra em terra pouca e de poucos, quantas viagens e quantas as águas, quantas esperas e despedidas, quanto vapor e dor, quantas vidas à procura dela, quantos ceguinhos a pedir esmola a troco de um contar desgraças, quantas regueifas compradas por mãos engalfinhadas e penduradas das carruagens, quantas concertinas a alegrar as carruagens, quantos pregões: “rebuçados da Régua”, quanto espaço aberto, quanta via para o infinito, quanta economia?! Corria o ano de 1887 e o dia 8 de Dezembro, quando o comboio chegou a Barca Alva. Junqueiro, tinha, por esta altura, já editado a Velhice do Padre Eterno (1885) e o seu poema «A Bênção da Locomotiva» – A obra está completa. A máquina flameja, / Desenrolando o fumo em ondas pelo ar. / Mas, antes de partir mandem chamara Igreja, / Que é preciso que um bispo a venha baptizar. //(...) // Vamos, esconjurai-lhe o demo que ela encerra, / Extraí a heresia ao aço lampejante! / Ela acaba de vir das forjas d’Inglaterra, / E há-de ser com certeza um pouco protestante – de que escolhemos estas duas estâncias, não deixa de estar ligado à chegada eminente dos carris a Barca de Alva, mesmo ao lado da sua Quinta da Batoca que fica no outro lado do rio. Bênçãos que, hoje, continuam quer sob a aspersão do hissope quer sob outras formas, quando se inaugura isto ou aquilo, apesar de estarmos num Estado não confessional! Vá lá a gente querer entender isto! Chegados a 1987, ano do seu centésimo aniversário, que esperaríamos senão comemorações e parabéns? Aconteceu o oposto: o fecho da linha entre Pocinho e Barca de Alva. Quem decidiu a sua morte em ano de aniversário, além de mostrar ignorância e insensibilidade, matou uma história e empobreceu ainda mais a Região. O Douro é rio e comboio. Matar um é matar o outro. Os gastos para os eventos, sem fim, relativos às comemoração dos 250 anos da criação da Região Demarcada do Douro não só esqueceram a mutilação da Linha do Douro, entre o Pocinho e Barca de Alva, como poderiam ter sido bem melhor aplicados. O silêncio nas estações de Pocinho, Côa, Almendra e Barca de Alva é aterrador e a deterioração, destruição e vandalização da linha um desrespeito pela memória e um entrave para o futuro.

Há uns dias, aconteceu que, entre a estação de Foz Côa e o Vesúvio, um comboio de mercadorias descarrilou, tendo ficado feridos o maquinista e o ajudante. Sem meios de comunicação – os telemóveis não têm sinal durante grande parte da linha! – tiveram que abandonar o comboio e partir, embora feridos, à procura de socorro à Quinta do Vesúvio, de que o contista José Aguilar tem um conto – O Vesúvio –, tendo sido recebidos pelo seu feitor, que, servindo-se do telefone fixo, pediu ajuda para homens, feridos, e composição, descarrilada e tombada. E se maquinista e ajudante tivessem ficado feridos ao ponto de não se poderem deslocar? E se amanhã sucede o mesmo com uma composição de passageiros? Lá teremos, então, o ministro António Costa, na televisão, pedir a demissão e abalar tal como fez o patrão do PS, Jorge Coelho, no seguimento da queda da ponte de Entre-os-Rios, mas desta vez com a oposição de Sócrates: sair por quê?, Costa? Há lá razão para tal? Nem as penses! Quem manda? Ficas e ficas mesmo!

Contudo, se não estranho o silêncio do poder central, estranho o silêncio cúmplice dos autarcas do Alto Douro, não só relativamente a este acontecimento como à necessidade de munir a linha de toda a segurança, inclusive meios de comunicação, e de a reactivar entre o Pocinho e Barca de Alva. O acontecido, que eu saiba, teve somente ecos nos JN e pelo Norte ficou, e, localmente, a única voz crítica que se ouviu foi a dos bombeiros de Provezende, porque uma das corporações que tem, no distrito de Vila Real, a maior frente ferroviária e sem meios para dar resposta, em caso de alguma emergência. A Região do Alto Douro precisa de um rosto que a defenda e projecte, porque os autarcas, por regra, nada mais fazem do que ficar pela sua paróquia partidária e concelhia.

Post scriptum. Como a História é imprevisível e para não levar a sério! No 21.º encontro sobre Cooperação Económica Ásia-Pacífico (APEC – 21 Asia-Pacific Economic Co-operation), a decorrer em Hanoi, assistimos não só à recepção, em grande, do ex-agressor, por parte do agredido (bombardeado e queimado com napalm), como ao facto de o partido comunista vietnamita, órfão do partido comunista irmão da ex-URSS, ter, também, de receber Putin, ex-membro da KBG, mas actualmente “czar” da Rússia! Alguém que se atrevesse a prever metade disto, nos anos oitenta do século passado, era acusado, no mínimo, de louco varrido.

domingo, 5 de novembro de 2006

ARTE E POLÍTICA

Não é a primeira vez que a pergunta – que relação entre arte e política? – me bate à porta da mente, pedindo para entrar. Já a recebemos, falámos e escrevemos, mas o ciclo da escrita é como o das águas: não pára. A este propósito, saúdo, imitando os pardais, a chuva outonal, que me convida para entrar na interioridade, após um verão de fora e voltados para fora.

Para embaraço da direita que nunca fica embarazada, mas nos embaraça, principalmente quando feita pela esquerda, é por demais conhecida a frase de que a cultura é de esquerda. Esta afirmação somente é verdadeira quando a esquerda está na oposição. Fora isso, à cultura, é-lhe indiferente a esquerda e a direita: a esquerda, chegada ao poder, seca a criatividade, a direita, no poder, acicata-a. A direita é os vencedores. E a cristã, ao remeter a salvação para as calendas da eternidade, não precisa de utopia. A direita tradicional diz que a salvação está em Deus e não na política, e a moderna, na biologia. Deus e a biologia os seus aliados. Não a literatura. A esquerda é os vencidos, mas quando chega ao poder esquece-se deles e passa-se para o outro lado. Que cultura e arte nos deixou o “socialismo real”? A esquerda marxista vai mais longe: substitui Deus pela escatologia histórica e a Suma Teológica pelo Capital. Direita e esquerda vivem em contradição e ambas têm como filosofia o materialismo: a direita, o materialismo na vida e o espiritualismo, ou o nada, no além; a esquerda marxista, o materialismo histórico, espiritualmente, e o humanismo, praticamente; a esquerda reformista, a terceira via: nem materialismo nem espiritualismo – materialidade.

Há um tipo de arte que vive acima da esquerda e da direita: a trágica. Não a move as causas políticas, imediata ou mediatamente, mas a não-causa ontológica. Para esta, independentemente de sermos, historicamente, vencedores ou vencidos, somos todos, ontologicamente, vencidos, porque feitos de tempo e pó e sem finalidade e sentido. A esquerda, fora do poder, pode fazer arte, mas não deixa de ser uma forma de política militante: a sua maneira de ser religiosa. A arte, para a direita consequente, é doença. Se doença, para quê poetas sadios de direita? A arte trágica, para direita e esquerda, é pessimismo, egotismo ou doença. A arte maior, porque trágica, não acredita na salvação seja pela História, pela Política ou pela Religião. A arte trágica, ao contrário das ortodoxias – política ou religiosa –, não tem casa. A arte trágica Acontece quando se reúnem duas condições: cultura trágica e genialidade que a represente. A grandeza e eternidade de Shakespeare e de Pessoa está no trágico que percorre as suas obras, porque sacerdotes do único deus: o Destino. Uns, na Metafísica ou na Filosofia da História, outros, no Teatro de Shakespeare e n’ A Passagem das Horas de Pessoa.

Post scriptum. As publicações do Teatro de Vila Real de Poesia Portuguesa Contemporânea, seguindo a agenda de «amor com amor se paga» ou de publicar o “grupo” de cá, acabam de editar, em agradecimento à consagração que têm no DN, mais um poeta de Lisboa! Depois da inauguração com Jukebox de Manuel de Freitas (Abril de 2005), seguido de Que Comboio É Este de A. M. Pires Cabral (2005), deliciam-nos (melhor, deliciam-se!), agora, com as Falésias de Jorge Gomes Miranda (2006). Ex.mos senhores gestor e director (e respectiva direcção) do Teatro de Vila Real, por que razão não criam uma editora particular, que fortuna parece não lhes faltar, para publicarem o que bem e quem lhes apetecer? E estamos a dias da inauguração do Grémio Literário! Para quê o Grémio se, à excepção deles, não há literatura? Ou os poetas de Lisboa e arredores vêm residir para Vila Real? Senhor Presidente, espero que o seu silêncio não passe a cumplicidade! Anda a direita, e Sócrates, obcecada em tudo privatizar e os seus agentes culturais a usarem o público para fins particulares! Não é estranho que as publicações do Teatro de Vila Real (empresa municipal!), em lugar de apostar na criatividade local, dê prioridade a autores de Lisboa, que, além de criatividade duvidosa, já tantas oportunidades têm? Lunar o Teatro, lunar as publicações. Quem são estes representantes da “Poesia Portuguesa Contemporânea” que não têm lugar nas editoras de Lisboa? Eis um excerto da “Poesia Portuguesa Contemporânea”(!) acabado de chegar fresquinho a Vila Real, graças às publicações do Teatro de Vila Real: Falo de quem rasga a pele nas escarpas / de uma página, / fixa os olhos, até eles ficarem raiados de / sangue, no, despenhadeiro de um livro / perdido. // Tal um pescador retira do mar / um relâmpago, exausto / chegará a algum caminho / aquele que troca a vida / por imagens que, porventura, / apenas ele vê? Estará ele a bater-se a algum prémio ou à boleia do premiado? Pobre das escarpas e das fragas, que não têm cantores. Se, entre nós, não há oposição política, como havê-la cultural? Assim, os agentes culturais locais são bem os sósias dos seus mandarins políticos. E com mais um factor a favor: o défice cultural ser superior ao da cidadania. Sem oposição e, consequentemente, sem dúvidas, celebérrimos, portanto. Eternos, não tanto.

quinta-feira, 26 de outubro de 2006

DOURO: VENDAVAL DE (E)VENTOS

Não há fome que não dê em fartura. As comemorações, em simultâneo, dos 250 anos da criação da Região Demarcada do Douro, no distante dia 10 do mês de Setembro do ano de 1756, sem que ainda tivesse decorrido um ano após o terramoto, pelo primeiro-ministro de D. José I, Sebastião José de Carvalho e Melo, futuro Marquês de Pombal, e as do quinto aniversário da classificação, pela UNESCO, do Alto Douro Vinhateiro como Património Mundial, trazem um caudal de eventos (duzentos!, dizem), em que pouco Acontecerá, mas esquecendo os problemas e deixando indiferentes o rio e suas gentes. À sombra do Douro temos tido de tudo: exposições, seminários, ciclos disto e daquilo, música, conferências, inaugurações, publicações, metodicamente pensadas, apalavradas e impressas, antologias e lançamentos de revistas, subsidiadas, mas sem um único tema sobre o Douro, prémios, estudos, palestras e, claro, a visita de Sócrates a propor, em tom de desafio, uma estratégia redentora – vinho, paisagem, cultura e turismo –, seguida, após uma esmola de uns milhões, de um bom dia, meus senhores!, e a de Cavaco que, não lhe querendo ficar atrás, desafia também os agentes locais, embora muitos dos donos do Douro sejam e estejam fora, para o desenvolvimento, e assiste à missa de Acção de Graças, em Lamego, mandada rezar a propósito das comemorações dos 250 anos da criação da Região Demarcada do Douro – não sei o que o Marquês pensará disto tudo (ou sei) – , não sem que antes nos tivesse deliciado com a sua cultura (ou ponto?) literária na Casa de Mateus. Oxalá me engane, mas desconfio que estes duzentos eventos, todos juntos, não vão chegar a um: ao Acontecimento da criação da Região Demarcada do Douro. Da pobreza na Região, a mais elevada do País, Sócrates, o ricaço “socialista”, não falou. Cavaco, por ser esta a sua missão e função, lembrou-a, clericalmente, e abalou.

Levado pela onda, abri uma antologia sobre o Douro, mergulhei nela e nas redes vieram espécies indígenas misturadas com espécies estranhas ao Douro e suas águas: lúcios com bogas, percas com barbo, achigã com mexilhão – uma caldeirada! Decididamente, recusei-me a digeri-la, depois de lhe ler o aspecto. Contudo, celebra-se este ano uma efeméride que poucos dão por ela e menos ainda aqueles que a sentem: o centenário do nascimento de Agostinho da Silva, escritor que, além de Junqueiro e Sampaio Bruno, entre outros, está ligado a Barca de Alva. A evocação e comemoração do centenário do seu nascimento tem servido, essencialmente, para pavoneio cultural de alguns, esquecendo-se o estado de degradação da estação de Barca de Alva, originado pelo encerramento, em 1987, governava então Cavaco (primeiro-ministro de 1985-1995), da linha entre o Pocinho e Barca de Alva. Como é tragicómico ver Cavaco, como presidente, dizer o contrário do que fez como primeiro-ministro, sem que isso o incomode! Por sua vez, o mentor e defensor de OTAs e TGVs, apesar de transmontano e natural de Vilar Maçada, concelho de Alijó, não teve, na linha dos transmontanos de gema com que Lisboa tem feito e faz as suas gemadas, sequer a maçada de falar no assunto – o País não pode ser solidário com vinte quilómetros de linha férrea! Meus senhores: Presidente da República, Primeiro-Ministro, Deputados eleitos pelo Distrito de Bragança, Autarcas de Vila Nova de Foz Côa, Moncorvo, Figueira de Castelo Rodrigo e Freixo de Espada à Cinta, principalmente, Delegado da Cultura e Presidentes do Turismo e do Museu do Douro, chamo-os ao silogismo:
O Douro é Património Mundial.
Barca de Alva faz parte do Douro.
Logo, logo, não: Barca de Alva, património vandalizado e destruído, não faz parte do Património Mundial.

Conhecerá a UNESCO esta falácia? O estado em que se encontra Barca de Alva é, além de vergonhoso e de uma vergonha, um insulto à Cultura, ao Património e ao Douro. Para quem a palavra é carne e não somente artificialidade e forma, Barca de Alva é um poema ofendido, rasgado, ferido: uma escrita de sofrimento.

domingo, 24 de setembro de 2006

A PERSIGNAÇÃO SOCRATISTA

Persignem-se, que a coisa, hoje, não é para menos. Ou por palavras mais chãs: façam o sinal da cruz. Quarta-feira. Dia 13 de Setembro. Via, por acaso, televisão e não queria acreditar no que via: Sócrates, mais a «senhora da educação», parafraseando Pulido Valente, que não é propriamente um valente polido, na inauguração, benzida (!), de uma escola em Faro, não se escusou, com ar beato, a benzer-se! Eu vi. Eu vi. Eu não queria ver. Eu não queria acreditar no que estava a ver. E perguntei-me: onde está o cumprimento do protocolo de Estado, onde se terá metido o «animal feroz», o político duro? Os homens vêem-se frente a Deus e não suportados em maiorias políticas, que, da mesma maneira que lhes saíram, um dia, na rifa, os irão, não tardará, rifar! Quinta-feira. Dia 14 de Setembro. Percorri os jornais e o que queria ver não vi! Nem uma palavra!

Perante o silêncio dos jornais ditos de “referência”, porquê eu, ó deuses, eu, o provinciano, eu, a quem Sócrates não lê, mas de quem, se calhar, fazem queixinhas (e a mim que me importa, se a ele ninguém vai ler, porque não escreve, nem ouvir depois de se lhe acabar o tempo; ia a dizer outra coisa, mas arrependi-me), eu, o que escreve num jornal da província, eu, um amador da cultura, que nunca chegará a profissional ou servidor cultural, ganhando ou acumulando ordenados chorudos (se calhar, esta a razão, porque o escolhido!), eu, a quem nenhum jornal de “referência”, publicaria esta crónica, porque politicamente incorrecta, e a fazê-lo, ratada apareceria, eu, a quem ninguém dá valor, e bem, porque o não tenho (estou melhor assim do que me ser dado, superlativo, por outros e ser levado a pensar que o tinha, não o tendo), porquê, oh, deuses!, porquê, eu, o escolhido a quebrar o silêncio e a escrever sobre a socrástica persignação (os inteligentes saberão por que não socrática) e obrigado a retirar a crónica que estava já preparadinha para a próxima semana, e a entrar com esta, apesar de, ainda, com a esperança que Pulido “ataque” durante o fim de semana? E os deuses: não, não, fá-lo tu, pois há para aí gente que pensaria, e diria, logo, que lhe segues os temas. Fá-lo, já, apesar de estas linhas somente irem ver as letras da imprensa e os olhos dos leitores a elas, na próxima semana. Mas porquê, ó deuses, me castigais duplamente, dando-me o daimon, mas retirando-me os louros da crítica? Por que fazeis de mim o Job da cultura? Eu, o heterodoxo, à margem das capelas locais e nacionais, eu, o verdadeiro periférico, eu, que não tenho «pontas» na Cidade em que vivo nem naquela que o vosso Ulisses criou, nem cadernos culturais a escreverem, e eu a acreditar e a ficar babado que é verdade, que a melhor crónica que se faz em Trás-os-Montes é a minha! Tonto, tonto, como é que a autoridade (autor)iza?, como estás doente e sem sensibilidade, responderam-me: substituis a leveza das musas por musos pesados e confundes o valor do galo com o poleiro em que canta.

Beba, então, a cicuta (ou néctar?) com que os deuses me condenaram: a persignação socratista. Melhor, a uma rubrica dela, pois a persignação ortodoxa exige uma cruz na testa, outra na boca, e outra, ainda, no peito, invocando ao mesmo tempo a Santíssima Trindade (leio no dicionário ao mesmo tempo que recordo a catequese), e não aquela trapalhada, de quem está atrapalhado, de fazer um rabisco de persignação. Saberá Sócrates que persignação é um sinal de quem Deus e a Trindade tem na mente, na boca e no coração? Ou tratará Sócrates Deus como as suas promessas eleitorais? Andou Vera Jardim a teorizar, o PS a propor e a Assembleia da República a votar as novas regras de Protocolo de Estado, de acordo com a Constituição de um Estado não confessional, e eis que o primeiro-ministro é o primeiro a não só não as respeitar como a entrar, no mínimo, em contradição consigo e com a Lei. O que é duplamente grave. Das duas uma: se é crente, devia respeitar o Estado não confessional, porque num acto oficial, melhor, de e em propaganda política, mais a sua capataz do ensino; se não crente, ainda mais grave: porque hipocrisia. Sócrates feriu tudo: a si (sabê-lo-á?), o Protocolo, o Estado e Deus. Vai Sócrates descalçar os sapatos, voltar-se para Meca e rezar a Alá, se, um dia, entrar numa mesquita? Vai Sócrates colocar o solidéu judaico e orar a Javé numa sinagoga, quando não é, que se saiba, do «povo eleito», embora eleito pelo povo, cruzes, cruzes?! E andamos nós a mandar militares para o Afeganistão, a fim de combater os talibãs, e a defender que os Estados árabes deviam separar o político do religioso, quando temos a confusão e seus resquícios dentro de casa! E, perante tudo isto, como me persignaria, se crente fosse! Cada um tem sua forma de se benzer. Esta, apesar de muitos me poderem vir a chamar, no mínimo, de infiel, a minha.

PS. Sábado, recebo, por correio, via Gomes, duas cartas do Dr. Nuno Botelho, com recortes da imprensa nacional que ao assunto se referiam. O Público, de sábado, escondeu, lateralmente, na página dezoito!, o protesto da Associação Cívica República e Laicidade, e o Diário de Notícias, de sexta-feira, traz um artigo de opinião de Fernanda Câncio – «A esquerda benzida» –, onde não conseguiu mostrar a independência e o profissionalismo que pretendia: o cumprimento da “tradição” em lugar da “modernidade”, por parte do primeiro-ministro (não nomeia Sócrates), face a um incógnito padre, não é nada, se comparado com a “gentileza” do «ateu Fidel» e da “grosseria” de Zapatero, perante o pontífice. E esquece (?) o mais importante: a socratista persignação! Compreende-se, o amor fala mais alto. Além disso, se todos mandam a «laicidade às urtigas», isto «não destoa».

Vila Real, 15 de Setembro de 2006

Nota: Até o Eixo do Mal passou sobre brasas sobre o assunto!

sábado, 16 de setembro de 2006

SENHOR, POBRES DOS NUS!

A maioria das vezes, as vestes não enfeitam o corpo. Escondem-no. Por regra, os currículos não mostram a mente. Enfeitam-na. Carnaval da vida. Daí que os figurantes do sambódromono da existência se adulem pela frente e se mordam por trás, se amem às claras e se entreguem escondidos, não se coibindo, mesmo assim, de criticar a geração dos pais e avós por fazer amor em ceroulas, quando eles fornicam às escuras! Aumentar a escuridão sem estrelas a povoá-la é fácil, mas dar à luz é tão difícil e doloroso como saboroso. Sãos, quanto raros, os nus, logo acusados, pelos expulsos, de ingénuos e inocentes. Senhor, pobres dos nus e como o inferno é o paraíso e a expulsão os céus! A vida devia ser, corporalmente, uma praia e, espiritualmente, anónima. Tirada a roupa, trememos de fealdade, esquecidos os títulos, nem uma linha, uma ideia, um pensamento, sacudida a importância, só nulidade. A maquilhagem é provisória e falsa: provisória a beleza que mora sob a toilette, falso o valor que se suporta em títulos entalados, para não falar das vertentes impressionistas da personalidade de alguns pavões, que saboreiam como presunto as palavras que atiram lá do cimo do seu ar despiciendo quanto altivo.

Um amigo perguntou-me: quando escreve, como assina? Pelo nome, respondi. Acho bem, mas assim não vai a lado nenhum. As coisas devem valer por si. Acrescentei. E continuou: mas quem está para ver com objectividade seja aquilo que for e quantos têm capacidade para o fazer? Não vê que no final do texto lá está a tala a suportá-lo: o professor universitário, o ex-ministro, o isto e aquilo? A este propósito, um médico, continuou, perguntou-me: há alguém que dê importância a um letreiro, onde se lê: médico disto ou daquilo? E respondeu-me com a mesma convicção com que me fez a pergunta: ninguém; mas se acrescentar: director que foi de uma especialidade qualquer de um hospital de estrangeiro, o caso muda imediatamente de figura. E sabiamente rematou com esta magia: parece, logo, outro, sendo o mesmo. A magia não desapareceu, os mágicos é que mudaram de nome. Comentei. E, após um breve silêncio, foi à filmoteca inesgotável da sua experiência de vida e tirou de lá mais esta cena: um reitor, meu conhecido, foi ao Ministério da Educação. Atendeu-o o senhor Antunes: quem devo anunciar? Entregue este cartão, se faz favor. O senhor Antunes, ao não ver nada de magnífico na pessoa que tinha ali à sua frente nem nenhum título no cartão, augurou-lhe: aconselho-o a ir embora, pois não vai ser recebido... Não faz mal, faça o favor de o entregar.

Mais importante que sê-lo é parecer sê-lo. De facto, a magia não desapareceu. A vida não é uma posição, mas uma suposição! Mais: uma pressuposição. Ou ainda melhor: uma pressuposição presunçosa! Que seria de tantos pés e mentes descalços sem calçadeira? Calçados pelo partido, calçados pelo lugar, calçados pelos críticos e pela crítica oficial e oficiosa, andam vaidosos quanto doridos, não cabendo nos sapatos da vida. Como a vida anda ao nível dos pés! Esta gente o que está é todos os dias morta por chegar a casa para se tirar dos sapatos em que está. Mas ao contrário dos sapatos, quem precisava de ir à forma era ela. O calçado de hoje, andará descalço amanhã, se não desaparecer até lá; o descalço de hoje, mesmo que amanhã continue descalço, não notará a diferença.

segunda-feira, 11 de setembro de 2006

NAZARÉ

Agosto continua quente. A tradicional nortada fresca que pede um agasalho, à noite, até agora, não apareceu. O mar, na sua luta de tomar a terra, que tem tanto de Titã como de Tântalo, a todos – ricos e pobres, feios e esbeltos, sujos e limpos, eficientes e deficientes –, indiferentemente, banha, contrariando a hierarquização das zonas da praia. Ocupam os elefantes marinhos a beira-mar, em função da sua corpulência, os humanos, em função da sua função. A praia é a verdade do corpo: natural e sem a mentira do vestuário. Sem esta mentira, que seria daqueles que escondem, no que vestem, o corpo que não têm como outros, no palavreado, a alma que perderam ou nunca tiveram? Falatório e vestes: a mesma roupagem para escondermos a nudez! Só o que vive em nudez vive em verdade. Se a maioria dos espaços sociais são heteronímicos – cada um procura e habita o espaço onde se mente ser –, o da praia, com excepção daqueles que a ela vão para vestir outra pele, é ortonímico, porque nos mostra nós mesmos. Se nos enamorássemos na praia, o rosto do amor e do mundo seria bem outro. Não necessariamente mais humano, estético e fiel. E face a tanta naturalidade corporal, a própria alma se naturaliza, regressando ao adâmico estado: para além do bem e do mal.

Aqueles que já não têm corpo para mostrar, mas para conservar (ou recordar), passeiam ao longo do extenso areal – das Pedras, onde o Sítio se precipita pela falésia, até ao Pontão, que alberga a marina dos humores do neptuniano mundo –, como quem revisita a memória que vai desde a criança, que mete o mar dentro do balde, até à descoberta que a realidade é irreal e a vida castelos de areia. Uma onda maior, anunciando a maré alta, espraia-se longamente pela praia, apagando pegadas e sonhos. Pegadas que são, para a criança, os primeiros passos e, para mim, passos passados; sonhos que, para ela, realidade são e, para mim, refúgio.

Enquanto assim sinto, o homem dos gelados passa, apregoando: «Olha o gelado! Gelados Olá!, rijinhos e fresquinhos»! Uma criança convence a mãe, pelo choro, a ter o seu gelado. E eu, que faço da escrita minha oração e choro, a quem quero convencer, se não há ninguém que me ouça e salve? Derretida, a criança saboreia a sua metafísica. Eu, pelo vício metafísico de pensar, derretido.

quinta-feira, 31 de agosto de 2006

DE NOVO, O MITOCÍDIO

Não auguro nada de bom o ter de voltar ao assunto. O que faz com que o Público seja o espaço, por excelência, de legitimação e incentivo ao mitocídio? O que faz correr o director do Público? O que faz com que José Manuel Fernandes esteja tão apressado em que o mitocídio se cumpra? Que desígnio o move? Que finalidade o empurra? Qual a razão da sua pressa? JMF não tem dúvidas nem se interroga. Sabe tudo. JMF é como todos os dogmáticos: o seu saber não radica no saber, mas no púlpito onde se escreve. Não contente de, há já alguns dias, o Público ter feito, em várias páginas, a apologia e defesa da exumação do túmulo de D. Afonso Henriques, no passado 6 de Agosto, volta à carga, em editorial, atirando-se contra as três razões, invocadas pelos responsáveis do património cultural, que impediram, «inopinadamente», a «equipa de cientistas» de violar o mito. Será que não há direito de opinar contra o cientismo?

Primeira razão, administrativa, que rebate assim: «a autorização para realizar o estudo não podia ser dada pela sua delegação em Coimbra, mas tinha de vir a Lisboa. O que significa que tudo o que é importante tem de passar por Lisboa. Pelo menos na cabeça dos dirigente do IPPAR e do Ministério da Cultura». Diz o povo que, quando a esmola é grande, o santo desconfia ou será que FMF se tornou defensor da Regionalização? JMF coloca-se em Lisboa ou fora, em função do que lhe interessa e não do que é essencial. Já lá vamos. Segunda razão: «... em casos como este, não chega vir a Lisboa: é necessário também receber o visto do ministro da tutela. Porque este tem mais competência científica? É pouco provável. Porque o caso é político? É bem mais provável, se bem que não se imagina como pode o fantasma do nosso primeiro rei atormentar os ministros de hoje». E, de forma nada elevada, continua: «O que imagina (depreende-se, sintacticamente, que D. Afonso Henriques!), isso sim, é que eles querem ficar na fotografia. Por isso, se a autorização vier a ser dada, lá teremos por certo comitiva ministerial a assistir». Senhor JMF, a questão antes de ser científica e um caso político, ou não, é um assunto de Estado e Nacional. E, por favor, exume-se e exima-se em descobrir onde estão os verdadeiros fantasmas. A terceira: «... apesar do mês que já transcreveu, os especialistas do IPPAR ainda necessitam de mais 45 dias para apreciar o difícil dossier». E ao seu melhor estilo: «no IPPAR também deve haver um qualquer regime especial de férias judiciais...». Veredicto: JMF reduz tudo a uma questão burocrática e administrativa! Uma hipótese: se, por acaso, amanhã o túmulo de Moisés fosse descoberto nas areias do deserto eu queria ver o JMF a correr para Israel a defender um exame pericial. Já! Era o ias! Levava um pontapé no rabo que nunca mais se veria no Público e em público. JMF confirma o ditado: o que o berço dá a tumba o leva: ao esquerdismo de ontem sucedeu o “direitismo” de hoje. O respeito que o mito lhe merece está bem patente no título do editorial: Compliquex! A terceira parte não só diz bem o que lhe dói como confirma que o editorial é mais um arrazoado do que um tecer de razões. Citemo-la, na sua parte final, porque vale a pena: «E se nos alivia a noção de que há problemas bem mais graves no mundo, deprime-nos sempre esta nossa maneira de fazer tudo trapalhona, provinciana e engasgada».

Não é este editorial – pelo voluntarismo, pela substituição da equação correcta do problema por uma lógica engasgada e pela atitude provinciana de chamar provincianos aos outros – o exemplo daquilo que acusa? O que JMF pretende é assunto, principalmente quando está sem assunto, pois pivot da dupla Cavaco/Sócrates. E já agora por que não pensar num projecto, científico, claro, que exume todos os reis e rainhas, ínclita geração incluída, mais Nunos, Vascos, Cabrais, Albuquerques, Fernãos, Pedros Nunes, Camões, de onde saia um álbum histórico-fotográfico a partir do qual a história seja dada?

quinta-feira, 17 de agosto de 2006

MEDALHAS, INDISTINTAMENTE

É claro, para toda a gente, que uma medalha é a forma de distinguir alguém. Mas já não é tão fácil saber o que é distinção. O facto de alguém ser claramente, e à vista de toda a gente, medalhado não contém em si a necessidade de ele ser distinto. Não temos que distinguir ninguém, o que temos é de prestar homenagem à pessoa onde a Distinção fez sua obra e morada.

Bem sabemos que há uma diferença, entre os planos de conhecer e de valorar, contudo, dentro do leque semântico da palavra distinção – correcção, educação, classe, excepção, nobreza, superioridade, dignidade, delicadeza, bom-tom –, quem não escolheria, para o caso que estamos a tratar, os seguintes significados: excepção, nobreza e superioridade, até porque estes contêm os restantes? E se a nível nacional é difícil encontrar estas três características numa só pessoa, que dizer a nível local? À falta de gente «valorosa», ou por esquecimento de quem o é, o critério de distinção ficou cada vez menos apertado e mais lasso. Sampaio ao medalhar meio mundo, mas esquecendo, ou esquecendo-se, ele lá sabe, de Óscar Lopes, vulgarizou as condecorações. Estranhamente, quem o condecorou foi Cavaco Silva, no último 10 de Junho. Para meu espanto, também estranhamente, ele aceitou, o que somente compreendo devido ao estado de fragilidade física e de saúde em que se encontra. Entende-se que Cavaco, para atenuar o seu défice cultural e criar uma nova imagem, não perca musal evento, ou algo parecido, para se mostrar, mas é já mais difícil de compreender quem se preste a por ele ser, culturalmente, condecorado, quando pela boca lhe saiu a frase da maior soberba intelectual e a mais anti-cultural alguma vez pronunciada por um governante: «nunca tenho dúvidas e raramente me engano». Lá politicamente, e quem da cor da sua alma, vá que não vá. Agora culturalmente, valha-nos Apolo! Eça de Queiroz dava tanto significado e tinha em tão grande apreço a sua medalha de Legião de Honra que a cedeu ao seu vice-cônsul em Paris, para ir a um baile: tire-a da gaveta e leve-a. Ainda a este propósito, ao ter D. Pedro V conhecimento da morte de Herculano, que amiúde visitava, e lembrando-se de ele ter recusado a medalha de Comendador Torre e Espada, fez o seguinte comentário: ele valia mais do que pensava e a medalha não vale coisa nenhuma. É caso para dizer que, na maioria dos casos, os medalhados de hoje valem menos do que pensam e a medalha o valor da cotação que o ouro e a prata têm no mercado. A transformação do acto de distinguir alguém num acontecimento social, num “favor” pessoal ou político, no cumprimento, por cumprimento, de um ritual, não só vulgarizou as medalhas como as tornou num alvo fácil de chacota e de ditos, delas fugindo quem real valor tenha.

Hoje, as medalhas são como aquelas mulheres que, a partir do momento que as vemos com certas companhias, não só perdem a respeitabilidade e credibilidade como ninguém as quer. Ninguém é como quem diz! Agora se me disserem que as medalhas têm como finalidade principal e maior fazer as pessoas felizes, levá-las a pensar que são o que não são, alimentar a sua mitomania e serem um escadote pessoal e social para quem é baixo social ou culturalmente, nada tenho contra. Se a felicidade é assim tão fácil de conseguir, por que não? Deitem-nas à rebatiña!