sábado, 17 de março de 2007

DA BATOTA POLÍTICA E DA POLÍTICA DA BATOTA

Com o advento de Sócrates ao poder, o jogo político viciou-se. Se alguém tinha dúvidas, os últimos tempos têm vindo a mostrar a contradição em que vivem todos os quadrantes:

(i) As maiores manifestações, de sempre, de professores e da função pública realizaram-se contra este governo “socialista”; apesar do executivo ser socialista, nunca tinha havido um governo tão de direita, arrogante e que tanto amesquinhasse os seus trabalhadores como este; nunca os direitos foram tão atacados; nunca as políticas da educação e saúde foram tão contestadas, devido à destruição e perversão do ECD, ao fecho de escolas, de urgências e de maternidades, enquanto no deserto criado, emergem hospitais privados! O que faz correr Correia de Campos – estrategicamente, escondido, desde há uns dias – a fechar tudo em nome de uma estatística abstracta? E se as manifestações e greves somente se fazem sentir na Administração Pública é bem o sinal dos tempos: que aconteceria aos trabalhadores do sector privado, caso fizessem greve? A liberdade sindical está, de certo modo, reduzida aos trabalhadores do Estado. E mesmo estes que se cuidem! Este governar ao centro-direita com os votos maioritários de esquerda é honesto? O engenheiro, pela prestigiada Universidade Independente, José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa diz que está cumprir o programa eleitoral!

(ii) Por outro lado, o governar ao centro-direita anulou a oposição dos líderes dessa área política e, consequentemente, a influência dos respectivos partidos. Esta a causa por que nas últimas semanas, temos assistido a reacções, por parte da direita político-partidária, à monopolização do centrão levada a cabo por José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa. Depois do anúncio de Portas, o comportamento de Marques Mendes sofreu algumas alterações: opõe-se, opõe-se, quando o que devia fazer era bater palmas ao governo e, quando se opõe, fá-lo mal (é o caso de se opor ao fecho Embaixada no Iraque), e o pedido de uma audiência a Cavaco para dar eco à sua contestação à OTA é já consequência do efeito-Portas. E Santana, que, tal como Portas, não pode estar quieto, calado e amarrado, vem, também, falar da necessidade de uma redefinição da direita e do centro-direita. Tudo isto, porque José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa baralhou de tal modo a política que joga com os trunfos da direita. Contudo, ao contrário de Portas, que pode trazer algum frisson, as aparições de Santana podem, pelo contrário, ser uma bênção para o executivo socratista.

(iii) E, para agravar a confusão e a contradição, não é que Cavaco comemorou o ano de presidência, agradado com actuação do governo e incentivando-o a não desperdiçar as condições favoráveis (maioria absoluta) para fazer as “reformas necessárias”? Que querem PSD e CDS, quando o ás de trunfos e o mundo económico-financeiro estão com Sócrates? E que ilações políticas daqui se podem retirar, senão estas: estai calados, seus tontos, estai calados, porque enquanto assim governar bem estamos! Em lugar de criticar, ponde os olhos nele! E quando José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa se negar e fizer o desvio político-eleitoral à esquerda, cá estamos!

(iv) Em jeito de síntese: a direita político-partidária geme, porque sem poder, enquanto a direita económico-financeira coça a barriga de contente (Cavaco incluído); os partidos à esquerda do PS barafustam, mas não combatem, não tendo estado à altura, no plano político, da luta que tem havido nos planos sindical e social, enquanto a população, em geral, geme. Ouvimos de vez em quando: já não há homens de palavra como dantes; essa verdade dura chegou, há muito, à política. Apesar disso, a política da batota é incensada e sacralizada pelos sacristães dos media.

quarta-feira, 14 de março de 2007

É ALTURA DA PODA


«A poda é a arte e a técnica de orientar e educar as plantas,
de modo compatível com o fim que se tem em vista».
[SIMÃO, S., Tratado de Fruticultura. Piracicaba: FEALQ, 1998.]

É altura da poda seca. Deve-se o tema desta crónica a eu ter passado parte do fim-de-semana a podar o damasqueiro e a videira que, mais do que uvas, faz uma frondosa latada no verão, onde faço a minha sala de jantar. Seguindo a epígrafe, que encabeça o texto, podei o damasqueiro em forma de vaso, conforme meu pai me ensinou, forma que é utilizada para oliveiras, amendoeiras e outras árvores de fruta, pois tem duas vantagens: a planta respira melhor e, por outro, a recolha dos frutos é facilitada; a ramada podo-a seguindo e segundo este princípio: desenho uma coluna vertebral de onde nascem regular e alternadamente costelas com dois olhos de onde verde e pampos brotarão. Frutos? Se o damasqueiro é irregular, tendo anos em que carrega bem e outros em que damascos nem vê-los, a ramada não recebe o sol suficiente e a casta não é a melhor indicada para o local, mas é coisa que não me aborrece por aí além, pois o mais importante é o espaço verde, aprazível e fresco, para não dizer religioso, que a latada faz, lembrando um templo pagão do frígio deus.

Agora, peço-lhes para fazerem o exercício que eu fiz: leiam a citação que encabeça o texto e substituam a poda por educação e as plantas por pessoas (crianças, adultos, professores e alunos, ministros e ministras). Que dizem? E, quando leio os diferentes tipos de poda – poda de formação, de frutificação (as podas de rejuvenescimento, regeneração e tratamento estão ainda a dar os primeiros passos com a biotecnologia e as operações plásticas) –, mais a semelhança entre árvores e nós me aparece familiar, verdadeira e saborosa! Assim como a árvore frutifica em função do modo como é formada, assim nós frutificamos em função da cepa (dos genes) e do modo como somos formados pela educação familiar, social e escolar. Se a poda aumenta o vigor, porque não desperdiça energias em mamões e ramos sem utilidade; se o tronco aumenta na proporção inversa da poda; a educação, do mesmo modo, orienta a energia para o nosso crescimento e desenvolvimento e, em lugar de obesidade mental e corporal, torna-nos elegantes física e espiritualmente – «alma sã em corpo são». A educação não deixa de ser uma espécie de poda: corta o que impede e desvia o desenvolvimento e orienta e potencia a seiva que nos faz. E como nos falta o princípio pedagógico que a citação refere – «de modo compatível com o fim que se tem em vista» – e não metendo todas as espécies e pessoas na forma da poda única. Uma poda errada, na natureza, destrói a árvore; na vida e na escola, gera insatisfação, distúrbios e insucesso. Quem hoje percebe da poda? Não seria importante que pais, professores, ministros e ministras de educação tirassem um curso de poda? E quem hoje quer ser podado? Não é mais fácil andar à solta?

Estamos sem cultivo: naturalmente, tudo abandonado e sem agri-cultura, humanamente, a iliteracia, a escola para todos, mas para ninguém, e o abandono. À falta de uma formação exigente de podadores (a começar pelos formadores!), à falta de exigência para podadores e podados, à falta de cultura que tenha em conta a cepa de cada um, à falta de saber dos feitores que passam pelos ministérios, como se quinta deles fosse, somos cada vez mais um mata espessa sem fruto nem baga, que amanhã alimentará incêndios sociais. Não somos um país, somos um matagal.

quinta-feira, 8 de março de 2007

O REGRESSO DE PORTAS

Escrevemos, aquando da demissão de Portas da presidência do partido, após a derrota do PSD e do CDS nas últimas legislativos, que Portas só voltaria à política para voos mais altos. No plano das intenções, assim parece acontecer. Depois da fase do luto, que ele não cumpriu, mas entregou a outros – foi a Ribeiro e Castro como podia ter sido a Telmo Correia ou a outro – ei-lo de volta, apesar de nunca verdadeiramente ter saído: se, partidariamente, calado (na Assembleia da República, nem piou), politicamente, continuou palavroso, graças às portas que a SIC Notícias lhe abriu, como comentador, no programa Estado da Arte, mas não com o sucesso esperado pelo canal e pelo comentador.

Então, o que traz Portas de volta? Se a agonia do CDS é o motivo, não é a razão: Portas não quer desperdiçar a porta aberta pela ausência de oposição à direita. E por ela quer entrar como candidato a líder de direita e da direita. Da direita, principalmente. Ele o disse: é preciso oposição do centro-direita a Sócrates e um líder que faça oposição. Como Portas, se pudesse, daria o salto do CDS para o PSD! Contudo, é precisamente este o salto que pretende dar, mas sob uma outra forma. E por que não tentar, se no circo da política a acrobacia não implica perigo, porque as quedas são amortecidas pela rede da memória curta? Apesar da táctica e do incentivo, que lhe foram dados por quem eu nunca esperava (Pulido Valente) – Portas, se for «subversivo» e não «populista, poderá vir a ser o líder da direita –, o objectivo não só é difícil de atingir como nos parece mais filho da fantasia do que de análise fria. E por várias razões: (i) como já escrevemos, a ausência de oposição, de direita, não reside em saber ou não saber fazer oposição, mas no facto de o PS de Sócrates ter ocupado o espaço de centro-direita e para o comprovar basta ver o apoio que este governo tem dos media, em geral; e sabendo nós quem eles representam, não vão, de certo, trocar Sócrates por Portas, se não trocam Sócrates por Marques Mendes (o pouco destaque que o DN e o Público lhe deram – este remeteu-o para a sexta página, sem qualquer referência na primeira – diz muito); neste momento, quem melhor serve política e economicamente os interesses do centro-direita é o executivo de Sócrates; (ii) assim, a revolução que Portas pode trazer não é de conteúdo, mas de forma; como pode criticar as políticas de Sócrates, se elas são de direita? Formalmente, sim, pois Marques Mendes, amordaçado pelas políticas de centro-direita de Sócrates, não tem sido nem formal nem materialmente oposição visível; (iii) contudo, a reentrada em cena de Portas, e principalmente com esta agenda política em mente, não vai deixar o PSD quieto e mudo (Marques Mendes que se mexa e cuide); e, se Portas tiver algum sucesso, bem poderá obrigar o PSD a fazer um congresso extraordinário e a encontrar um novo líder (ou uma líder, não estão as mulheres na moda?), que torne, pelo menos, o PSD visível, caso não caia no suicídio de entregar o PSD nas mãos de Menezes, e a não ficar à espera que a cicuta do poder “mate” Sócrates.

O golpe de Sócrates foi governar à bloco central, sem precisar de alianças com o PSD. A oposição só pode vir do PCP, do BE e do interior do PS, porque acabou com a de direita, só que o PS é o seu líder e o aparelho, salvo duas ou três excepções, trocou as referências ideológicas pelo poder. Como quer Portas ser o político da direita, se, além de ter de se substituir ao PSD, a direita está com Sócrates, embora com o cartão do PSD, no bolso e, se calhar, com as cotas em atraso? Mais de que cumprir uma missão impossível, Portas parece cumprir, uma vez mais, a sua missão: agitar. Portas é o hiper-activo da “nossa” política. E, no morno em que isto está, tem mais a ganhar do que a perder. E que vai enervar Sócrates e tudo fazer para que ele perca a cabeça, vai.

sexta-feira, 2 de março de 2007

A POLÍTICA DO DIA SEGUINTE


Sócrates não desarma: depois de, nas Jornadas Parlamentares, ter proclamado o PS de partido «progressista» (a necessidade de o dizer não reflectirá a ausência de o ser?), pelo contributo que deu para a despenalização do aborto até às dez semanas, não tardou, receoso que a ideia fecundasse, a fazê-la abortar com a política «do dia seguinte» de direita.

Após a vitória do sim no referendo sobre a despenalização do aborto, houve dois acontecimentos, que passaram despercebidos (?), que eu saiba, à grande imprensa, aos seus comentadores e colunistas residentes e que passo a referir: (i) José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, nas Jornadas Parlamentares do PS, deixou, porque sem ponto, que o seu inconsciente falasse livremente e sem freio: ...caros camaradas, agora, quero dizer-vos «do fundo do meu coração» que «talvez» não tenha vivido uma noite como a de domingo (noite do referendo) e pensei que o PS bem merecia ser classificado de partido «progressista»! Talvez? Como esta frase, principalmente a palavra «progressista», é, psicológica e psicanaliticamente, a «chave» para “entrar” em Sócrates. Fiquemos pelo essencial: José Pinto de Sousa, primeiro-ministro, ao adjectivar o PS de «progressista» (categoria política fundamental da terminologia política de esquerda), pela adesão à causa da despenalização do aborto, demonstrou, sem querer, o seguinte – aquele que é, há dois anos, o primeiro responsável pelo ataque ao Estado Providência, aproveitando o fantasma do défice, é o mesmo que se regozija do «fundo do coração» de o PS ser um partido “progressista” num fim de semana! Como ele se sentiu feliz por ser socialista (a sério ou a fingir?) naquela noite, depois de um jejum socialista de dois anos de governação! Ao tentar ocultar a prática política de centro-direita do seu governo mais a reconheceu. Quererá ele, à semelhança do seu ministro da saúde convidar-nos para entrar para a caravana que quer varrer urgência como varreu maternidades e a gratuitidade do sistema nacional de saúde? (ii) quando li no Público virtual (12-2-07), mas que não vi no impresso (!) o seguinte – «A Federação Nacional dos Professores (Fenprof) classificou hoje de ilegal a proposta da tutela referente ao primeiro concurso para professor titular, alegando que o critério da assiduidade discrimina os docentes que estiveram doentes ou de licença de maternidade (sublinhado, nosso). Segundo a proposta do Ministério da Educação (ME), o processo de selecção para a categoria de titular, a mais elevada da nova carreira, vai ter em conta todas as faltas, licenças e dispensas dos candidatos entre os anos lectivos 2000/01 e 2005/06, mesmo que tenham sido dadas por doença ou maternidade (sublinhado, nosso), por exemplo» – não queria acreditar!

O PS “progressista” de José Sócrates Pinto de Sousa que se bateu pela IVG no dia 11 de Fevereiro é o mesmo que, «no dia seguinte», penaliza a maternidade: a licença de maternidade é considerada falta e descrimina as mulheres que foram mães, para o acesso a professor titular. Aos tradicionais métodos de contracepção o PS “progressista” do engenheiro, pela Universidade Independente, José Sócrates junta a medida “progressista” de punir as mulheres que tenham filhos, sendo o tempo de licença de maternidade considerada como faltas dadas!
Post scriptum. Leio, em destaque na primeira página, num diário: «Despedimentos de grávidas não param de aumentar». Onde está o «sim» à vida e o partido “progressista” de Sócrates? Como o «dia seguinte» é terrível!

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2007

CAVAVO E SÓCRATES: OS GRANDES TIMONEIROS

Corre, por aí, em escritos e ditos, que Sócrates não é de direita nem de esquerda, é engenheiro sanitário. Antes o fosse. Socorrendo-nos da lógica, estaremos mais certos se concluirmos que Sócrates é formalmente engenheiro sanitário e materialmente político. A não ser que se trate de alguma metáfora: o país ser comparado a uma ETAR e, então, nada melhor do que um engenheiro sanitário para o tratar. Mas, fora tudo isso, a verdadeira profissão de Sócrates é ser político. Aqui é que teve o sucesso que nunca tivera nem teria como engenheiro sanitário. Sócrates, sem a orfandade da direita, que se sucedeu a Cavaco, sem a fuga de Durão, o “dandismo” político de Santana e a alegria de Portas, não só não tinha chegado com facilidade ao poder, e, a chegar, nunca com maioria absoluta, como não teria passado de um desconhecido engenheiro sanitário de qualquer câmara socialista ou laranja, tanto lhe daria e faria, como mais um funcionário público. E Cavaco, caso não fosse a necessidade de fazer a rodagem ao carro, nunca chegara a primeiro-ministro e muito menos a Presidente da República e, sem ele, o País não teria, claro, alcançado a velocidade de cruzeiro de desenvolvimento que a prise política de Cavaco imprimiu na sua consular década. Portugal é um país de lotaria e a política não foge à regra. Com uma diferença: a eles saiu-lhes a sorte grande da política, o de conseguirem ser alguém, pela política, a nós, em contrapartida, o azar.

Serve tudo isto como intróito àquilo que leio nos jornais: as últimas sondagens dão Cavaco encavalitado lá em cima, Sócrates a alcançar-lhe os pés na escada das sondagens, o governo mau e a oposição pior. Cavaco, como todos os presidentes, está no top: ele é esperança, ele é auto-estima nacional, ele é mais valia política, ele é a boleia para o desenvolvimento, ele é o tudo que é nada. Sócrates, engenheiro sanitário, deputado apagado, ministro do ambiente responsável pelo aquecimento local que a co-incineração originou, comentador ao lado, ao nível e a par de Santana, ei-lo, miraculosamente transfigurado em grande estadista, graças ao milagre das maiorias absolutas, que transformam o ninguém em alguém! Que seria de nós, sem estes dois homens? A não ser eles, ninguém se salva: ministros, governo e oposição. Eles, sim, têm ideias e projectos para Portugal, melhor, eles são as Ideias, eles são o Projecto, eles são Portugal! E se um imita Albuquerque o outro, não querendo ficar a trás, quer logo ser Marco Pólo. Onde estão os analistas e os comentadores para nos explicarem tamanha contradição: governo e oposição pelas ruas da amargura e eles em alta! Que sonda a das sondagens que coloca o governo às portas dos infernos e o seu responsável e maestro à entrada dos céus? Eureka: se com estes dois timoneiros, a coisa continua tão mal, não mereceriam eles outro País? Confesso-vos que já me doía a cabeça de não saber resolver esta contradição! E logo esta que, em lugar de dar à luz, dá escuridão.

O erro capital da nossa política reside na pessoalização da mesma. Este o grande défice da nossa cultura política. Só sairemos da crise, se sairmos, se o País se merecer a si mesmo, se expulsar os sebastiões e eleger quem eleja a nação como protagonista principal. A nossa política está contaminado de religioso: a salvação nossa e do país não passa pela mobilização nacional, mas por alguém que nos venha salvar! Esta a explicação para Salazares, Cavacos e Sócrates e o que mais virá. E se verá.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

INTELIGÊNCIA AZUL

Espantados com o título de hoje? Socorri-me desta metáfora por associação àquela que todos conhecem: «sangue azul». Até a burguesia ter posto fim ao sangue azul, a nobreza, porque incomunicável com outras classes, salvo os bastardos, tinha-se na fama e no proveito de que o seu sangue, embora vermelho corresse, diferente era: era azul. Contudo, o nobre, ao contrário do puro-sangue, que mantém a raça, a garra e a animalidade, degenerou cansado de tanto azul. A consanguinidade e as classes dirigentes são degenerativas. O mesmo cansativo. Sem o refrescamento com o sangue do povo, não teria havido Mestre e em lugar da «ínclita geração» bem poderíamos ter tido uma geração de definhados. E sem Infantes como partir de Sagres, chegar ao «Longe» e vencer a «Distância»? A causa do esgotamento da nobreza residiu no facto de não ser a hereditariedade biológica a suportar a hereditariedade social, mas ao contrário. Contudo, alguém pode retorquir: e a burguesia?! Tem razão, a burguesia começou como revolucionária e acabou como reaccionária. Começou como europeia e acabou como americana. Começou como utopia e acabou como império. Começou como razão e acabou como unto. E o povo? Bem, o povo é, mais uma vez, a reserva para outra coisa que não sabemos bem o que vai ser. E ainda bem. O povo é o inferno magmático social que, explodindo, renova a crosta da vida. Mas o problema é que também ele se está a esgotar.

É altura de cumprirmos o título. E estou mesmo já a ouvir perguntar: mas que diabo de inteligência azul é essa? Uma autêntica nobreza de pensamento. Esta espécie de inteligência, contrariando a lei inexorável da estatística – «a lei da regressão para a média» –, que impede que um génio não gere senão genialidade e o imbecil senão imbecilidade [caso assim não fosse, há muito que a espécie homo sapiens se teria partido em duas: a dos génios (homo sapientissimus), evolutiva, e a dos imbecis (homo imbecillis), degenerativa], esta espécie, dizíamos, gera inteligência azul, hereditariamente. A inteligência azul é um puro-sangue de massa crítica: o filho é sempre a continuação, senão o melhoramento, do pai e o neto, não contente, bate pai e avô. Isto, sim, que é concorrência! Esta espécie, rara, apareceu em algumas Universidades, graças à autonomia e independência pedagógicas, que, qual adubo do espírito, aliado à fortíssima selecção cultural a que a escolha e o convite obrigam, originou uma mutação neurofisiológica, responsável pela emergência desta nova aristocracia do pensamento. E não é que esta espécie vingou de tal maneira que se transformou numa elite cultural que, todos esperam, irá alimentar a nossa intelligentsia nacional, quando, há muito, teria «levado caminho», se sujeita à selecção natural?

Esta nova nobreza intelectual teve tanto sucesso que já encontramos três gerações de inteligência azul a concorrer entre si: pais, filhos e netos!, e não é raro vermos, também, marido a concorrer com mulher! Frutos? A inteligência azul, seja por autodefesa, seja por instinto, seja por outra razão ainda desconhecida, não só não frutifica para fora como não dá possibilidades aos que não são da família. Mas, ao que se ouve, a estufa começa a estar estafada e estufada.

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2007

FRONTALIDADE E COBARDIA

A escrita é ex-posição. Esta a razão por que ela nunca poderá ser acusada de cobardia e o artífice de covarde. A crónica, seguindo e segundo a sua natureza, é uma escrita frontal e de frontalidade, porque se dirige ao poder, melhor aos seus agentes, seja qual for a sua natureza, questionando-o e questionando-os. A crónica, se elevada e não descendo ao ataque pessoal, como deve ser, é uma forma de intervenção cívica e de cidadania e um exercício de liberdade e de livre expressão do pensamento. Liberdade de expressão e pensamento que muitos se demitem de a exercer e que a maioria dos políticos e aparelhistas não gostam, porque a sua argumentação é, por regra, a força do poder. Na nossa democracia, formal e fortemente partidarizada, a liberdade de expressão e pensamento, em lugar de ser vista como um elemento de vitalidade democrática, é olhada de lado e como um auto-suicídio. Não admira, assim, que a liberdade de expressão e pensamento tenha custos elevados e, como na ditadura, continua, sob uma forma indirecta, mas eficaz, a ser proibida. Quem se atrever a exercê-la é condenado a ficar só na rua e na vida, principalmente em meios provincianos, onde a pressão é maior e o caciquismo, inclusive o cultural, sobrevive e campeia. O que não entendo é como há gente que abdica, para proveito próprio, de exercer, como cidadão, a liberdade de expressão e de pensamento, ao mesmo tempo que quer morar na criação. Como cidadãos, castrados, como criadores, augustos. Vivem no silêncio estratégico, com uma parte do rabo dentro e com outra de fora, para não se comprometerem.

Como ontem, os políticos, seus aparelhos e gente que os serve não gostam de um «espaço público» de discussão democrática, confundindo cidadania activa com ataque pessoal. E não nos podendo liquidar pela argumentação nem por argumentos sejam eles o argumentum ad hominem, em que todos podemos incorrer, o argumentum ad crumenam, sua prata da casa, ou o argumentum baculinum, que a direita trauliteira tem sempre à mão, respondem-nos com o argumento fraco dos duros: o amuo, o deixarem-nos de falar, a crítica nas costas, mas não vendo, entre eles, as suas. O que seria desta gente fora do poder? E não contentes, ainda, descem desonesta, covarde e facilmente ao rótulo ético, arrumando as pessoas em boas e más: as boas aquelas que fazem parte do seu clã e os bajulam e servem; as más aquelas que, pertencendo ao eixo do mal, não estão para isso. E à ousadia de pensar, que não ousam, chamam-lhe nomes: a mania de dizer mal. Estar entre iguais é bem mais difícil do que ter, em baixo, uma assistência sempre a bater palmas, de que tanto gostam. Como, em plena luz do dia, anda para aí gente com o lampião dos outros nas mãos para ver se a vêem melhor!

Mais do que ser hera ou estar rodeado por heras, para ganhar protagonismo ou de mim se servindo, mais do que uma multidão no dia do meu funeral, por obrigação e por gente que me rogou pragas para morrer, e que nunca de mim mais se lembrará senão para se regozijar – já lá estás, há mais tempo tivesses ido! –, quero, acima de tudo, estar bem comigo, hoje como ontem, e com o futuro, se o merecer.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

“QUADRO DE HONRA” PARA PROFESSORES

A ministra regente da educação, a sr.ª Maria de Lurdes Rodrigues, com respeito pela regente que tive no tempo da ditadura, depois do primeiro acto – o ter voltado a opinião pública contra os professores, responsabilizando-os de tudo o que de mal está na escola pública e amesquinhando-os publicamente, branqueando, assim, toda a política educativa do “centrão”, feita e desfeita por trinta anos de reformas e contra-reformas, ao prazer deste e daquele ministro da educação (dois exemplos actuais: a desvalorização da filosofia e a polémica sobre a TLEBS, que, como no passado, faz dos alunos cobaias, e sem uma palavra da ministra) e de uma péssima formação de professores de que os diferentes ministros da educação e respectivas Universidade são os principais responsáveis – depois do primeiro acto, dizíamos, encena o segundo: para o melhor da Turma de 140 mil, um prémio monetário – 25 mil euros, cinco mil contos em moeda antiga! Depois de “acanalhar” os professores, o rebuçado para o melhor da Turma! Maria de Lurdes reúne, além de outras, duas virtudes: à maneira “inferior” como muito do ensino superior olha os ensinos básico e secundário junta a «razão do poder», suportada em tudo o que é Grande Imprensa falada e escrita. A notícia do Público, sobre o “quadro de honra”, era suportada por uma “caixa” jornalística e pelos “exemplos” do ensino público americano (degradado!) e do inglês, que para lá caminha. Como era interessante saber o curriculum escolar da ministra e de Sócrates, entre outros, e ouvir os seus professores para sabermos que traumas e recalcamentos estão na origem deste comportamento. Ora, aqui está um bom tema de investigação psicanalítica!

E se não nos espanta a comédia – escolher o melhor professor entre 140 mil e de áreas e sectores tão diversos! –, espanta-nos, sim, ver Daniel Sampaio prestar-se, como presidente do júri nacional, acompanhado de Roberto Carneiro, de António Nóvoa e de Isabel Alarcão (tudo gente superior e/ou do superior!), a fazer parte do teatro, quando o que o júri devia investigar era não só a razão por que a excelência está arredada das escolas, mas também as políticas educativas do “centrão” e os ministros delas e por elas primeiros responsáveis. Mas nada que já nos espante: se o psiquiatra Lobo Antunes se passou, com toda a naturalidade, de Sampaio para Cavaco, como Daniel não aceitar o convite de Maria de Lurdes, sem precisar de se passar? Como é, no mínimo, sadismo político colocar Roberto Carneiro num júri nacional que pretende trazer a excelência às escolas, quando ele é um dos maiores responsáveis pela sua quebra e partida: a abertura do ensino superior privado sem regras, nem rigor (onde muitos políticos do centrão tiraram ou acabaram os seus cursos, escudados na política), orientando-se, na maioria dos casos, pelo economicismo. E quanto a António Nóvoa – reitor da Universidade de Lisboa – o seguinte: aquele que, entre outros (reitores das Universidades), não teve resposta à altura, no programa de «prós e contras», na RTP 1, para combater a crítica feita pelo “assessor” do ministro Mariano Gago, o professor Luís Moniz Pereira, investigador da área da inteligência artificial – os reitores têm andado a «coçar as costas» (mutatis mutantis), em lugar de reformarem as Universidade –, é o mesmo que é escolhido para dar cobertura às costa da ministra: as costas grandes continuam a ser as do ensino “inferior”!

Como a afirmação da ministra – «devolver ao País a excelência da actividade profissional dos professores» – e o meio apontado para o conseguir fazem, apesar dos acompanhantes no cortejo, de um assunto sério, digno e elevado, uma anedota! E por que não Mariano Gago propor um “quadro de honra” para cada Universidade para sabermos, também, da excelência de Maria de Lurdes? E de outros. Muitos...

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2007

As palavras e nós

«Catano, nunca mais sou atendida!», ouço uma senhora a resmungar, numa mesa do café, mesmo ao lado da minha. Até que enfim ouvi uma palavra que não ouvia nem dizia há muito: catano! Ouvir e pronunciar uma palavra, há muito esquecida, é como ver alguém que não víamos há anos. Demoramos sempre algum tempo a reconhecê-la. As palavras, como nós, também envelhecem e deixam de ser precisas. Contudo, elas ainda ficam no dicionário. E nós ficamos aonde? Que será feito da nossa memória, quando os nossos netos se esquecerem de nós? Quem nos vai reconhecer num álbum, que alguém encontre no sótão do tempo? Como a “memória eterna”, que lemos numa campa, tem a brevidade das flores que nela colocam! Memória e flores, a mesma brevidade. Catano, que não valemos nada!

sábado, 10 de fevereiro de 2007

ALGUÉM, ZÉS-NINGUÉM E IMPORTANTES

A nossa importância mais não é do que o meio, interesseiro, que os outros utilizam para ganhar a sua própria importância. Depois, esquecem-na: quem sobe na vida não gosta de olhar para trás. O passado é para esquecer e rejeitar. E a sua importância depressa substitui aquela que o ajudou a ser importante. Só nos dá importância quem precisa de nós. Fraca a importância que assenta em precisados. Ser importante é, de certa forma, ser útil e, para “utilizar” a importância dos outros, há mil manhas, destacando-se a adulação e a falsa amizade. Como está senhor doutor?, ouvi eu, vezes sem conta, a pessoas que, ao entrarem no restaurante, deste modo, cumprimentavam uma personagem que nele se encontrava. É certo que os meios pequenos potenciam as figuras importantes, mas a maioria gosta do estatuto de importante, mesmo sabendo que está a ser utilizada e que amanhã, quando não precisarem deles, é como se já não existissem. Há mesmo aqueles que só vão a restaurantes onde são tratados por doutores, engenheiros ou arquitectos, mesmo não o sendo. Quem não é não se resigna e tudo faz para parecer que é. Parafraseando Camões: mais vale sê-lo do que parecê-lo, mas pareça-o quem não pode sê-lo. Se todos fossem cidadãos e a cidadania uma prática, a importância e os importantes extinguir-se-iam. Há importantes, porque há zés-ninguém. Além e acima do importante e do zé-ninguém, está o alguém, sem a soberba do importante e a manha do zé-ninguém. Mas, num meio de importantes e zés-ninguém, é difícil ser-se alguém.

Em lugar de pensarmos em ser importantes, devíamos, antes, preocuparmo-nos em sermos alguém, porque ser alguém é bem mais importante do que a importância. O fim do importante e do zé-ninguém é o fim da utilização do outro, da adulação, da inveja, dos mal agradecidos, dos bem agradecidos, dos favores. Numa sociedade culta e evoluída, à importância não lhe é dada qualquer importância e, aos direitos e à cidadania, a máxima importância. Pobre da sociedade, como a nossa, que é, regra geral, constituída, por importantes, alguns, e, maioritariamente, por zés-ninguém. Como tudo seria diferente, se a maioria fosse alguém. O importante é-o por fora e, mais cedo ou mais tarde, deixará de ser importante, mas o ser alguém é algo de intrínseco.

O importante não vale pelo que é, mas pelo que pode, o zé-ninguém pouco ou nada vale, porque não é, não tem nem pode, o alguém vale, essencialmente, pelo que é. O importante é invejado e utilizado, o zé-ninguém esquecido e posto de lado, o alguém receado e respeitado.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

SANTA LUZIA, SÃO BRÁS E SÃO LÁZARO

Na santidade, também, há hierarquia. Não há sete céus? E se cada um fosse passar a eternidade no andar correspondente ao seu grau de santidade, quantos daqueles que, no aquém, vivem nos andares de luxo e em ricas vivendas não iriam habitar o rés-do-chão celestial? Além dos dias santos de guarda, reservados para Deus e santos principais, todo o dia tem o seu santo, mas não de guarda, porque, se assim não fosse, a religião teria sido, há muito, a primeira a superar o trabalho. Ficou-se pela superação do trabalho e dos trabalhos, no além. Dantes, quando não havia medicina, pobres e ricos recorriam aos santos para os livrarem dos males e maleitas que tanto os afligiam. Quer queiramos quer não, a medicina tem sido a maior causa de esquecimento a que os diversos santos foram votados, apesar de terem sido, durante milénios, os intermediários entre Deus e nós. Até a religião não escapa ao poder científico-tecnológico. Hoje, só em casos extremos, os homens se voltam para Deus. Antigamente, os pobres, mais achacados a maleitas de todo o género e, ainda, sem medicina, socorriam-se da divina, através do santo respectivo. Por altura da Peste Negra, São Roque, a peste da peste – Ero pestis tua, o pestis, como escreve Vieira – devia ter batido Deus e Maria, em protagonismo, tal a invocação de que foi alvo, por parte dos pestilentos, que os havia às centenas de milhar por essa Europa fora. Quem reconhece hoje, São Roque, com o cão a lamber-lhe a ferida, provando que a saliva tem poderes curativos? E como não há ninguém que lamba as feridas, mesmo o próprio ao próprio, quem havia de o fazer senão o cão, esse amigo mais amigo do que o próprio homem? E, face ao mal das goelas, lá estava São Brás, perante Deus, como advogado dos sofredores da garganta, que longe se estava de pensar que um dia haveria otorrinolaringologistas.

Das doenças da vista, tratava Santa Luzia e das bexigas São Lázaro. A “gancha” é a receita que São Brás dá para nos livrarmos do mal das goelas, o doce de calondro dos famosos “pitos” a medicação de Santa Luzia, para a vista, e os “cavacórios” de São Lázaro, para combater as bexigas. Como esta farmácia era bem melhor do que a actual! Muito desta farmacopeia continua viva, graças à Casa Lapão. Os doces típicos de Vila Real estão, assim, ligados a santos de devoção popular: a Santa Luzia, que se venera em 13 de Janeiro, os “pitos”, a São Brás, com seu dia a 3 de Fevereiro, a “gancha”, a São Lázaro, com festa móvel, porque sempre em função da Páscoa – Lázaro, Ramos e na Páscoa estamos –, o “cavacório”. Os “pitos” e as “ganchas” dizem bem do erotismo de que eram rodeadas as festividades em honra de Santa Luzia e de São Brás e da linha ténue que separa o sagrado do profano. Durante a Idade Média, e mesmo depois, as festividades profanas não tinham uma existência própria, decorrendo sempre das sagradas. Hoje, vive-se mais no século do que no sagrado, por isso, o secular ganhou um estatuto próprio, não precisando da boleia do religioso. Ele é, hoje, o verdadeiro culto. Entre Santa Luzia e São Brás, o tempo de espera para as raparigas serem agraciadas com as “ganchas”, em agradecimento aos “pitos” que elas lhe tinham dado nas festas de Santa Luzia, ou noutras.

O local de celebração e festa de São Brás é a «Villa Velha» e as “Marianas” as mais crentes e dinamizadoras. Não diz o Livro que «os desígnios do Senhor são insondáveis»? E lá está uma sentada, perto do portão do sul do Liceu, com a mesinha à frente, coberta por um pano branco, tendo em cima as ganchas, para venda, enquanto os altifalantes enchem os espaços de uma música para ninguém, alternando com o refrão musical monótono, subindo e descendo na escala, dos sinos da Igreja de São Dinis, que, assim, se vingam do silêncio de um ano. Com a devoção defunta, a tradição é, agora, a devoção, mas mesmo esta já não é o que era, pois não se ouve ninguém a cantar:

Vou ao São Brás
De cu ó pra trás
Buscar uma gancha
Para o meu rapaz.

Vou ao São Brás
De barriga prá frente
Buscar uma gancha
Para a minha gente.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2007

A un hombre de gran nariz

Érase un hombre a una nariz pegado,
érase una nariz superlativa,
érase una alquitara medio viva,
érase un peje espada mal barbado;

era un reloj de sol mal encarado, 5
érase un elefante boca arriba,
érase una nariz sayón y escriba,
un Ovidio Nasón mal narigado.

Érase el espolón de una galera,
érase una pirámide de Egipto, 10
las doce tribus de narices era;

érase un naricísimo infinito,
frisón archinariz, caratulera,
sabañón garrafal, morado y frito.


A um homem de grande nariz

Era um homem a um nariz pegado,
Era um nariz superlativo,
Era um alambique meio vivo,
Era um peixe espada mal barbeado;

Era um relógio de sol mal encarado,
Era boca acima um elefante,
Era um nariz brigão e escrevente,
Um Ovídio Nasón mal narigado.

Era o esporão de uma galera,
Era uma pirâmide do Egipto,
As doze tribos de narizes era;

Era um naricíssimo infinito,
Enorme arquinariz, carranca fera,
Inchaço garrafal, purpúreo e frito.

(Tradução de José Carlos Costa Pinto)

domingo, 4 de fevereiro de 2007

DO ABORTO

1- História. (i) A luta pela interrupção voluntária da gravidez tem já 25 anos e passa, no essencial, pelos seguintes momentos: (i) em 1982, o PCP leva o assunto à A.R., mas é rejeitado; (ii) em 14 de Fevereiro de 1984, é aprovada a Lei n.º 6/84 de 11 de Maio, era Presidente da República Ramalho Eanes e primeiro ministro Mário Soares, que diz o seguinte: «Não é punível o aborto efectuado por médico, ou sob a sua direcção, em estabelecimento de saúde oficial ou oficialmente reconhecido e com o consentimento da mulher grávida quando, segundo o estado dos conhecimentos e da experiência da medicina: a) Constitua o único meio de remover perigo de morte ou de grave e irreversível lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida; b) Se mostre indicado para evitar perigo de morte ou de grave e duradoura lesão para o corpo ou para a saúde física ou psíquica da mulher grávida, e seja realizado nas primeiras 12 semanas de gravidez; c) Haja seguros motivos para prever que o nascituro venha a sofrer, de forma incurável, de grave doença ou malformação, e seja realizado nas primeiras 16 semanas de gravidez; d) Haja sérios indícios de que a gravidez resultou de violação da mulher, e seja realizado nas primeiras 12 semanas de gravidez»; (iii) em 1988, o PS apresenta um documento que visava a despenalização do aborto, por vontade da mulher, até às dez semanas, documento que é, cobardemente, retirado para o substituir pelo referendo; (iv) em consequência dessa decisão, a 28 de Junho de 1988, realizou-se o referendo sobre a despenalização ou não do aborto, tendo ganho o “não”, com 50,91% dos votos, mas com uma abstenção da ordem 68.1%; (v) porque o aborto continua na clandestinidade e a ser feito sem condições, a não ser para quem tenha dinheiro para ir a Espanha, eis-nos com novo referendo à porta, a realizar no próximo dia 11 de Fevereiro, para respondermos à seguinte pergunta: «Concorda com a Despenalização da Interrupção Voluntária da Gravidez, se realizada por livre opção da mulher, nas primeiras dez semanas em estabelecimento de saúde legalmente autorizado»?

2- Sim ou não ou abstenção? A maioria das perguntas não se responde com sim ou não. Esta confirma a regra. Se o sim, quer queiramos quer não, abre as portas à banalização do aborto, o não, por seu lado, deixa em aberto o problema do aborto clandestino e em nada contribui para resolver situações de gravidez “indesejada” que não cabem na lei. O sim é de direita até às dez semanas e de esquerda para o resto da vida; o não é de esquerda até às dez semanas de vida e de direita para o resto da vida; o sim corta as pernas à vida, quando ela quer emergir; o não corta as pernas à vida, quando ela tem pernas para andar; o sim quer o aborto responsável; o não quer o aborto responsabilizado; o não é, muitas vezes, hipocrisia; o sim é, muitas vezes, resolver um problema incómodo; o sim é “liberal” até às dez semanas e anti-liberal para o resto da vida; o não opõe-se à liberalização até às dez semanas e defende o neo-liberalismo no resto da vida; o não quer uma moral do tamanho de Deus; o sim a lei e mais nada; o sim é “poético”; o não patético. O aborto é uma questão para ricos e remediados, que passa ao lado da felicidade inconsciente dos pobres, que, maioritariamente, dizem não ou não lá vão, porque o aborto não lhes diz respeito. Que seria da demografia, sem a «fauna maravilhosa do fundo do mar da vida»? Quantos consumistas não pensarão duas vezes: aguento a gravidez ou compro um carro às prestações? Numa sociedade do “bem estar e do comodismo”, os filhos dão muito trabalho e serão, cada vez mais, um incómodo. O homem subverteu a reprodução: o sexo é, por regra, prazer, e reprodução, por excepção. E quem veja o presente e pense no futuro fica, no mínimo, estéril.

3- O aborto da política. O referendo ou de preferência uma lei feita pela Assembleia da República (por que razão não pedir a quem penalizou que despenalize?), não podem aparecer como factos isolados e sem a companhia de uma legislação adjacente sobre: educação sexual nas escolas (e por que não pública, utilizando os canais estatais?); planeamento familiar; política de natalidade, com a dignificação e valorização desta, e apoio às famílias numerosas; criação de um posto médico, onde a mulher, que pensasse em abortar, fosse atendida por uma equipa interdisciplinar (médicos e psicólogos), ajudando-a a tomar a “melhor” opção. E, claro, com um debate elevado, acima de metafísicas terrenas e extra-terrenas e sem as metáforas de “telemóveis”, “ovos” e “pintos”. A ausência de legislação e acção que fizessem do aborto a última opção, a cobardia e temeridade políticas do PS, de que é prova a utilização do referendo somente para aquilo que não convém, não só reforçam o não como, principalmente, levam à abstenção. A política do aborto diz bem do aborto da nossa política. E se há partido político responsável pela actual situação, ele é, pela cobardia política e pelo condimento que sempre deu à questão – o ser salsa –, o PS.


terça-feira, 30 de janeiro de 2007

A Ciência dos Deuses

Acima dos Deuses está a sua Necessidade. A verdadeira crença mora em crermos que, acima deles e de nós, existe o Destino e a heresia em adorarmos os Deuses, desconhecendo a sua Necessidade. A ciência da Necessidade é a verdadeira teologia, por isso, ela é, em último grau, uma teologia científica. Filhos da Necessidade, não há Deuses maiores ou menores do que outros, porque todos irmãos. Diferentes rostos dela, sim. Os homens vivem uma geração, os Deuses épocas, mas só a eternidade pode ser a morada do Destino. Em verdade, em verdade vos digo que Cristo não terá a longevidade de Osíris. Cristo, com dois mil anos, está em crise, Osíris teve a eternidade do Egipto.

(in Vila Real: Motivos)

domingo, 28 de janeiro de 2007

DOIS SONETOS DE FRANCISCO DE QUEVEDO (1580-1645)

Un casado se ríe del adúltero que le paga el gozar con susto lo que a él le sobra


Díceme, don Jerónimo, que dices
que me pones los cuernos con Ginesa;
yo digo que me pones casa y mesa;
y en la mesa, capones y perdices.

Yo hallo que me pones los tapices
cuando el calor por el octubre cesa;
por ti mi bolsa, no mi testa, pesa,
aunque con molde de oro me la rices.

Este argumento es fuerte y es agudo:
tú imaginas ponerme cuernos; de obra
yo, porque lo imaginas, te desnudo.

Más cuerno es el que paga que el que cobra;
ergo, aquel que me paga, es el cornudo,
lo que de mi mujer a mí me sobra.



Um casado ri-se do adúltero que lhe paga o gozar com susto o que a ele lhe sobra

Diz-se, Dom Jerónimo, que dizes
Que me pões os cornos com Ginesa;
Eu digo que me pões a casa e a mesa;
E, na mesa, capões gordos e perdizes.

E vejo que me pões também tapetes
Quando o calor pelo Outubro cessa;
Por ti minha bolsa, não a testa, pesa,
Ainda que, com molde de ouro, tu ma frises.

Este argumento é forte e é agudo:
Tu pôr-me cornos imaginas; dest’ obra
Eu, porque o imaginas, te desnudo.

Mais corno é quem paga que quem cobra;
Ergo, aquele que me paga, é o cornudo,
O que, de minha mulher, a mim me sobra.



Hastío de un casado al tercer día


Anteayer nos casamos; hoy querría,
doña Pérez, saber ciertas verdades:
decidme, ¿cuánto número de edades
enfunda el matrimonio en sólo un día?

Un anteayer, soltero ser solía, 5
y hoy, casado, un sin fin de Navidades
han puesto dos marchitas voluntades
y más de mil antaños en la mía.

Esto de ser marido un año arreo,
aun a los azacanes empalaga: 10
todo lo cotidiano es mucho y feo.

Mujer que dura un mes, se vuelve plaga;
aun con los diablos fue dichoso Orfeo,
pues perdió la mujer que tuvo en paga.



Fastio de um casado ao terceiro dia

Faz dois dias que casámos; hoje queria,
Dona Pérez, saber certas verdades:
Dizei-me: qual o número de idades
Que afunda o matrimónio num só dia?

Anteontem ainda, solteiro ser soía,
Hoje, casado, duas pequenas vontades
Prometem um sem fim de anuidades
E mais de mil outroras de porfia.

Isto de ser marido um ano, meio,
Até aos mais valentes a alma esmaga:
Todo o quotidiano é muito e feio.

Mulher que dura um mês volve-se praga;
Por isso c'os diabos foi ditoso Orfeu,
Pois perdeu a mulher que teve em paga.


(Tradução de José Carlos Costa Pinto)

quarta-feira, 24 de janeiro de 2007

A VERDADE E O MONSTRO

Às vezes enganamo-nos, mas, desta vez, não é engano: queremos mesmo dizer o que escrevemos e não o que estão a pensar: A Bela e o Monstro. A propósito d’ A Bela e o Monstro: a antítese da história revela-nos a relatividade do gosto – a beleza, quando em excesso, vê a beleza no seu contrário: o feio em excesso. Uma mulher muito bonita apaixona-se, geralmente, por um homem feio. Esta a minha sorte.

A Natureza tem o motor e a harmonia na lei dos contrários. Segundo o polemos heraclitiano, que tudo governa, e a lógica, que ao pensar preside, o contrário de verdade é mentira e o de verdadeiro falso. Por que razão, então, o monstro em lugar de mentira? Porque, quando há lavagem do falso, o resultado é, sempre, uma monstruosidade. Esta operação lembra-nos Frankenstein, seu método e laboratório. Procurava Frankenstein melhorar o ser humano, mediante cirurgias em que substituía certos órgãos por outros que retirava de cadáveres. O resultado era sempre, apesar da utopia, um monstro. A utopia de aperfeiçoar o biológico ou o mundo teve sempre resultados contrários aos desejados, porque sempre pariu monstros biológicos ou políticos, apesar das “boas intenções”. A pior ditadura não é a da vida, mas a das ideias, que só o confronto impede. Apesar de tudo, como constatamos, a democracia também gera os seus “monstrosinhos”. Caso não houvesse ideias não havia nem ditaduras nem liberdade. Havia vida. Se, no plano individual, ninguém consegue impor a sua ideia ao outro (e ainda bem), no plano político, o meio é a ditadura, em nome de Ideias, ou em nome das ideias da economia e da economia das ideias, quando não em nome da democracia! A interferência no biológico, que se advinha, pela aplicação do saber da génese, programação, estrutura e funcionamento da vida, tornará o homem um ser ainda mais artificial. A vida artificial está mais próxima do que se imagina. A longevidade de hoje não é já artificial? Outro extremo é a religião que, ao contrário daqueles que visam corrigir o mundo, o quer substituir por outro. Uns cirurgiões do ser, outros infiéis ao ser e fiéis a Deus. Qual a maior doença?

Entremos, agora, no laboratório da lógica frankensteiniana. Hoje, a realidade é a imagem. Só existe o que aparece. Eliuh Karz afirma que a televisão mata o intermédio: os partidos, o Parlamento, nós. Eu acrescento: mata o silogismo. E se, no plano da escrita, verdadeiro e falso têm que ser suportados por uma argumentação, no plano da imagem, ela suporta-se a si mesma, limitando-se o apresentador, o próprio nome diz tudo, a fazer a sua apresentação. A imagem que nos é dada do Mundo, e que está subentendido ser a verdadeira, passa por um processo frankensteiniano: pedaço daqui, pedaço dali, tira daqui, põe ali, retoque de um lado, retoque de outro, meia verdade daqui, mentira inteira dali. A imagem «editada» da realidade que percorre os telejornais de todo o Mundo, e a “explica”, é, na maioria das vezes, um monstro. A História é, hoje, uma monstruosidade global e nada melhor do que um monstruosidade para a dizer. Todos os dias, é-nos dada, gratuitamente, através de telejornais, comentários, documentários, a verdade toda. Gratuitamente? «Não há almoços grátis». Quem suporta hoje a política não é a verdade nem a mentira, mas o monstro, que tem como Frankenstein o pensamento único e laboratório os editoriais dos media, onde, à custa de vermos mortos e despedaçados, nos transformam no maior dos monstros: não vermos, insensíveis, a monstruosidade em que o mundo está transformado. Até que a realidade, um dia, nos bata à porta!

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

JOSÉ SÓCRATES: LE PS C’EST MOI

Sócrates é vaidoso e teimoso, dizem. Não é preciso dizê-lo: vê-se. E se a teimosia dá prioridade à vontade sobre a razão, a vaidade é, por norma, feminina. E se, no feminino, ela é espelho, no masculino, o vaidoso é espelho. Quem vê Sócrates, ouve-o baixinho: eu sou o maior e melhor, o top da política, o top dos tops. Sócrates é-se importante. Quando cumprimenta, não estende o braço, estica-o. O cumprimento de Sócrates não é próximo, mas alto e altivo, distante e importante. Anda como quem tem calos. Destes, da vaidade, por não caber nos sapatos, ou por todos os dias serem novos? E se a vaidade, no feminino, maquilha o rosto, nos políticos, manifesta-se através de uma política maquilhada pelo marketing e pelos media.

Sócrates faz tudo para esquecer as circunstâncias que lhe deram a maioria absoluta para mais facilmente se crer absoluto. Sócrates é o “nosso” Luís XIV socialista: L´État c’est moi, le PS c’est moi! Sócrates, porque inseguro, precisa do absolutismo: acabou com a concorrência do PSD metamorfoseando-se nele, acabou com a Comissão Permanente do PS e tornou-se senhor absoluto dentro do PS, decretou a lei da rolha no governo e aos deputados e cronistas incómodos oferece-lhes lugares cómodos. E estes não se fazem rogados. O povo gosta (por enquanto) dele: se gostou de Salazar, de Cavaco por que não há-de gostar de Sócrates? Não são as dificuldades e a falta de pão que abrem as portas aos poderes absolutos? O povo sente-se seguro com estes homens. Sócrates é mando e não comando, arrogância e não firmeza, agressão e não convicção. Sócrates é mandante, não comandante. Sem maiorias absolutas, Sócrates dificilmente conseguirá, tal como Cavaco, governar. O PS não faz diferença do PSD, seja no conteúdo seja na forma. No conteúdo, o PS de Sócrates é o PSD que a direita nunca tinha tido. Na forma, o PS é o líder: sem ideias, sem ideais, sem correntes de pensamento, sem soaristas, sem guterristas, sem ferristas, sem oposição, com excepção dos alegristas, sem fio de pensamento, sem uma gota de utopia. Um bafio. Uma secura à e para a esquerda. Uma fartura, à e para a direita. Sócrates aprendeu com a direita e esqueceu (se alguma vez soube alguma coisa dela) a esquerda. Nem o PS é já um partido nem Sócrates um político: o governo do PS, perdão de Sócrates, é a gerência do País e Sócrates o gerente da firma em que ele está transformado. Mais do que um gerente ou um executivo, Sócrates lembra um “standista” a quem temos que lhe agradecer a venda do carro, o nosso despedimento ou a transferência da empresa para outro lado. E, caso fosse economicamente vantajoso, Sócrates não pensava duas vezes: transferia o País para norte ou para sul, para leste ou para oeste. Sócrates não ora, ralha e, claro, não discursa, pois para isso é preciso fazê-los. Sócrates lê-os. Autor? Para seu resguardo, segredo.

Sócrates, como os canais generalistas, é generalista e as suas generalidades, ditas com ar de mando, são as responsáveis pelo seu share político. A força de Sócrates assenta na fraqueza e fragilidade económicas que vivemos e de que o “centrão” é o único e verdadeiro responsável. «Pobre do governo! Isto está tão mal!» Sócrates vai sair pela porta que abriu: pela direita. Mas, desta vez, não vai haver tempo para folgarmos as costas: à prática política de direita de Sócrates vai suceder a prática política de direita da direita. A Cavaco sucedeu Guterres, mas a Sócrates vai suceder Sócrates ou um Sócrates para pior. À direita vai suceder mais direita. Sócrates mandou a política, pela rua da direita, ladeira abaixo e vai ser difícil parar a sua inércia. E, quando for preciso sustê-la, Sócrates não vai estar lá.

quinta-feira, 11 de janeiro de 2007

AS “PASSAS” POLÍTICAS

Cavaco que, pelo Natal, ficou, por estranho que pareça, mais encavacado do que todo o aparelho do PS com os elogios socratistas à coabitação e decalque políticos, entre Belém e S. Bento, vem agora, pelo Ano Novo, “distanciar-se” do voluntarismo e optimismo políticos de José Sócrates e exigir resultados para o ano que começou, nas áreas da economia, justiça e educação. Melhor, a pedir que o governo se comporte como um verdadeiro patrão e que exija resultados. O “distanciamento” é mais formal do que real. Até porque o governo de Sócrates é um verdadeiro governo de Bloco Central, sem o PSD. Esta a questão e contradição fundamentais da política actual que explicam, por um lado, a sintonia, no plano político-institucional, entre Cavaco e Sócrates, e, por outro, o mal estar, no plano partidário, no PSD, porque o torna desnecessário, lhe ata os braços e o impossibilita de ser oposição, restando-lhe, somente, a função de puxar Sócrates mais para a direita, ao mesmo tempo que Sócrates, respondendo à esquerda, vai dizendo que não, que não senhor, que o PS é de esquerda, de uma esquerda moderna e que as novas fronteiras são as não fronteiras. O recado da direita, seja o de Belém seja o da Rua São Caetano, é o mesmo: se, por um lado, satisfeitos por Sócrates ter visto a necessidade de uma política de direita, para sair da crise, por outro, insatisfeitos por ainda não ser suficientemente de direita.

Assim, as “passas” de Cavaco e as de Sócrates, são, embora os “passes”, as mesmas: exigir e responsabilizar, unilateralmente, os trabalhadores em geral, funcionários e professores. Apesar do cristianíssimo Cavaco se mostrar preocupado com a pobreza e com a necessidade de se manter a coesão social, a sua avaliação política é feita pela bitola fria do pragmatismo de direita (tal como a de Sócrates). De uma coisa Sócrates pode estar certo: se a economia não der sinais positivos e sustentáveis de mudança, durante 2007, terá a direita – Cavaco/PSD/CDS – a culpá-lo por ter ficado a meio do caminho reformista de direita, e a esquerda a responsabilizar a sua deriva pela e à direita como causa principal do fracasso. Resultados? Quanto à economia, quem pode garantir que o milagre aconteça? A economia mais do que determinada pela política determina esta. Quanto à justiça, como pedir contas a um pacto feito pelo “centrão”, tendo este se esquecido (?), Cavaco inclusive, da corrupção? Sobre educação: a escolha de Maria de Lurdes não foi um escolha pela educação e para educação, mas uma escolha da e pela «Organização» e nada melhor do que contratar uma capataz. Quando se elege a «Organização» e se esquecem a educação e os intervenientes, e não se avalia o «Desenvolvimento Curricular», como pretender dar o salto? E como acreditar num ministério que governa para a opinião pública (perdi os professores mas ganhei a população!) e substitui o diálogo pelo insulto? A ministra não só perdeu os bons professores como não ganhou os maus. Só quem não sabe onde está (em que mundo(s) estudou Sócrates?) pode afirmar: o novo Estatuto da Carreira Docente é essencial para a busca de «uma educação de excelência» em Portugal.

O sucesso de Sócrates, até ao momento, não está em ele ter “acabado” com o Outro (PSD), mas em ter transformado o PS no Outro (PSD). Com Sócrates, entramos no Mesmo. A política é uma mistura de freudismo e surrealismo com os papeis todos trocados: Cavaco é o professor-presidente que exige resultados, apesar de detestar a política e os partidos; Sócrates mandou às malvas a utopia e ocupou o espaço do PSD; este, sem espaço, vive, acompanhado do BE e do PCP, na utopia!

sábado, 6 de janeiro de 2007

DO INFERNO

«O inferno é onde quase todos vivem sem que o saibam
e donde bem poucos saem para sabê-lo... »
[Eudoro de Sousa, Mitologia História e Mito]

Esta frase lembra-nos uma outra, presente no Livro do Desassossego: «A decadência é a perda total da inconsciência; porque a inconsciência é o fundamento da vida. O coração, se pudesse, pararia». E mais estes versos de Ricardo Reis: só os que vão no rio das coisas são Felizes, porque neles pensa e sente / A vida, que não eles. A inconsciência é o analgésico que permite sobreviver no seio das labaredas das penas vitais. Ela está perto da naturalidade do instinto, contudo, este é, naturalmente, saúde, e a inconsciência, humanamente, analgésico. Só, saindo, entramos: só sabemos o inferno, que o vício é, depois de sairmos dele. Só quem saiu da vida, sabe da vida. Só quem saiu do inferno sabe do inferno e, também, sabe que a porta de acesso mais fácil aos infernos é a dos céus. Afinal, quem está desterrado e condenado: o que o está realmente, mas não o sabendo, ou o que o está no sabê-lo? Não há drama, não há tragédia, não há inferno, fora da consciência.

O inferno é o «mundo humano», melhor: a consciência dele. Este, sim, o verdadeiro inferno, que se potencia se se está contra ele. Que crime cometemos para os deuses nos condenarem à vida? Quem duvida que a vida é uma condenação? A religião não tenta salvá-la? A política não diz que a quer corrigir? A arte não faz do sonho a sua metafísica redentora? O instinto está acima da condenação. Na Natureza, não só o sofrimento está reduzido ao mínimo como não há consciência dele. A Civilização tem sido um inferno não só para o homem como para a Natureza e a vida, em geral. Se alguma espécie, superior à nossa, nos suceder, ver-nos-á como de facto somos: uma praga. E como as outras espécies invocarão os seus deuses para se verem livres de nós! Porque a melhor maneira de entrar é sair, todo o que sai, para entrar, condena-se à exclusão. Só sabemos o que é o amor, saindo dele, mas, se o sabemos, não o temos. Qual o melhor: tê-lo sem o saber, ou sabê-lo e não tê-lo? A consciência expulsa-nos das coisas, porque nos obriga a estar de fora para as ver. Assim, o consciente é temerário e o inconsciente aventureiro. A consciência não é boa companheira para a vida: a vida é para estar dentro dela e a melhor forma de a cumprir é não a questionar. Ela está fora de qualquer questão: «a inconsciência é o fundamento da vida». A consciência é, vitalmente, decadência e o consciente um doente.

O mito está certo: a queda foi a expulsão da inocência. Ser livre é livrarmo-nos de tudo o que nos prende, contudo, ao abdicarmos de possuir e de ser possuídos, abdicamos de viver. Só precisa de liberdade quem se sabe condenado. Os outros cumprem a vida. Por isso, só os que abdicam e «saem do inferno para sabê-lo», e tê-lo, têm necessidade e liberdade para criar céus. Todos precisam de um céu: o paraíso, para os crentes, a democracia, para os inconscientes, a Arte, para os conscientes.

terça-feira, 2 de janeiro de 2007

BOM ANO NOVO

O fim de ano é tempo de balanço. Para quem a vida é ter, o fim de ano é tempo de balanço e de encerramento de contas. E se, comercialmente, o haver tem de bater o dever, ontologicamente, o ser tem de bater o não ser. A História é comércio e nós mercadoria: ter ou não ter, eis a questão. E se, num plano civilizacional, a maioria é minoria no ter, que dizer, no plano essencial: no ser? Para quantos as palavras do príncipe Hamlet – To be or not to be, that is the question – é mesmo a questão fundamental? E ainda bem que a não é, porque, se fosse, a vida era revolta e a História uma Casa de Saúde. Se a ontologia tivesse a exigência comercial, quantos restariam sem falir? Apesar da democracia, a História, seja pelo ter seja pelo ser, é de minorias. E se a questão do ter é do foro da política, cada vez mais desacreditada e em que poucos se empenham a não ser os que ganham com isso e com ela, a questão do ser, além de pertencer ao foro íntimo de cada um, não traz vantagens. Quem, ontologicamente, está consciente ou sonha ou vive sob a tentação do suicídio: “Ser ou não ser, eis a questão: / Será mais digno para o espírito suportar / Os golpes e as feridas de um infame destino / Ou revoltar-se contra a vaga de males / E pôr fim a tudo pela recusa de viver? / Morrer, dormir. Acabou-se, e pelo sono esquecer / Os tormentos e todas as agressões / Que afligem a nossa condição. Eis aí o fim /Mais desejável. Morrer, dormir. / Dormir! Então talvez sonhar: eis a questão. [Shakespeare, Hamlet, III, 1]. A arte, ao abdicar e não servir o ter, não deixa de ser o “suicídio” necessário para poder sonhar. E criar.

O balanço, positivo, do ser que faço deste ano, devo-o, principalmente, às seguintes leituras: El Arco y la Lira, de Octavio Paz, as obras Dans l’Œil du Miroir, L’individu, la mort, l’amour, e Mythe et pensée chez les grecs, de Jean-Pierre Vernant, From the many to the One, de A.W.H. Adkins, e o já clássico A Descoberta do Espírito, de Bruno Snell. Em El Arco y la Lira, espécie de Poética, encontrei – só agora! Como há livros que encontramos tarde! – a confirmação do pouco que tinha já pensado sobre o assunto e a resposta ao muito que ignorava. O ensaio El Arco y la Lira de Octávio Paz, que tem nos ensaios pessoanos Heróstrato e Impermanência os seus congéneres literários, confirma aquilo que vem já da Romantik: que não há poetar (poiesis) sem poética (teoria). Graças aos livros de Jean-Pierre Vernant, de A.W.H. Adkins e de Bruno Snell, fiz o meu cursinho de psicologia histórica que, além de me darem a conhecer os estratos das camadas da “psicologia” grega, me vai permitir saber ler Homero – pondo de lado os meus olhos civilizacionais – e compreender melhor por que razão O Guardador de Rebanhos é mais uma teoria sobre a sensação primitiva do que a sua expressão poética.

Para todos, que a vida de todos precisa – tenham ou não tenham, sejam ou não sejam, sonhem ou não sonhem, com a questão ou sem ela, connosco concordem ou discordem –, Bom Ano Novo.