terça-feira, 25 de março de 2008

LIVROS E MÚSICA A QUILO

O artista que troca uma hora de trabalho
por uma hora de conversa com um amigo
sabe que está a sacrificar uma realidade
a algo que não existe.
(Marcel Proust)

O mal dos que se crêem na posse da verdade é que,
quando têm de o demonstrar, não acertam uma.
(Camilo José Cela)

Sobre tema semelhante, escrevemos, já, Sonho em Saldo. Mas o tema é, agora, dupla e qualitativamente novo: ao montão de livros, em saldo, de ontem, sucedeu a cultura, a quilo, e a um autor anónimo saldado sucederam autores de renome, sendo um deles prémio Nobel. É isso mesmo: cultura a quilo, pesada e tudo. Também eu não queria acreditar no que via. E, para tirar qualquer dúvida, lá estava o ícone da balança. Os livros a 3 € / Kg. A Música a 19.90 € / Kg. Onde? Numa grande superfície. Logo à entrada, num espaço, onde tudo se saldava, desde roupa, até livros, passando por detergentes, ferramentas, artigos sortidos e outras coisas, deparei com São Camilo, 1936 de Camilo José Cela (1916-2002), prémio Nobel em 1989, e o Tempo Redescoberto de Marcel Proust (romance publicado, em 1927, cinco anos após a sua morte). Aproveito para citar uma passagem que vem na capa: «O espanhol não crê em Deus, crê na fogo; em Deus só crê na medida em que lhe dá argumentos para acender a fogueira». E como não podia deixar de acontecer, lembrei-me dos nossos autos-de-fé, em nome de Deus. Claro que os salvei logo daquela humilhação, até porque o resgate era insignificante. Ao lado, o produto cultural fresco: autor da semana: Isabel Allende, rodeada de uma série de livros seus, e uma lista dos mais vendidos. Lidos? Amanhã, não vai demorar muito, passarão para a outra secção.

Dirijo-me a uma caixa. Pago. Ao conferir o recibo, leio: lazer, livros ao kilo, 0,155 X 3.00 = 0,47 € / 0,310 X 3.00 = 0,95 €. Música: CD COL. MUSICA KG: 0,085X 19,90 = 1.69€; 0,095 X 19.90 = 1.89; 0,0 95 X 19.90 = 1.89€. Autores e obras? Nada. Pura mercadoria, tal como um quilo de massa ou arroz ou uma embalagem de detergente. Sinal dos tempos: o livro, além de valer só pelo peso e nada pelo conteúdo, perdeu a sua natureza sagrada e espiritual. Curiosa e ironicamente, Em Busca do Tempo Perdido, em sete romances, de Marcel Proust (1871-1922), o tema central é a memória e o tempo.

E sem dar conta dei comigo a perguntar-me: quando o nobelizado Camilo José Cela e Marcel Proust tiveram este destino, quem se pode atrever a sonhar ser futuro? O choque foi tão grande que a mão, a mando de não sei de quem, se escusou, a escrever mais, naquele dia. No dia seguinte, voltou a mentira. A luta entre memória e tempo não é fácil para a memória. O tempo é mais eficaz do que a água e o vento. A erosão ao apagar rostos escreve e cria novos rostos, mas o tempo, ao apagar a memória, não nos reduz a pó, reduz-nos a nada.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Assim vai o Mundo!


O governo grego do conservador Caramandis, na linha de Sócrates, quer fazer uma reforma da Segurança Social, alegando o mesmo motivo: falência da Segurança Social, atacando, para isso, direitos adquiridos. A resposta foi uma manifestação de 100 mil trabalhadores só nas ruas de Atenas. Que tem isto a ver connosco? Lá, o governo é conservador e entre os manifestantes estava Georges Papandréou, o líder do parido socialista grego! Aqui, o governo é “socialista” e entre os manifestantes estão milhares de votantes socialistas (todos comunistas, ou por estes manietados!). Assim vai o Mundo!

quarta-feira, 19 de março de 2008

CRÓNICA SOBRE AMARANTE


No regresso do Porto para Vila Real, parei em Amarante – terra em que não há ninguém que não saiba nadar e alcunha não tenha –, onde na companhia do meu concunhado coronel António Pereira da Silva, que, sempre amável e prestável, me leva e traz, almocei e passei parte da tarde. O almoço, no Quelha, foi, depois de umas entradas, polvo grelhado, brando que nem água, com batatas a murro, acompanhado de um excelente vinho verde tinto do “Marantinho”. Conta, se faz favor. Caro, mas excelente. Da próxima, diz-me ele, vai ser “verde”.

Para cortar, fomos à Confeitaria da Ponte comer uma léria e tomar café. Enquanto caminhávamos na companhia do rio – o Tâmega é uma divindade omnipresente – o meu concunhado, natural de Amarante, foi o meu cicerone. Olhando o anfiteatro, que assiste ao teatro das águas do lado norte, leu-me nele o teatro das gentes: ali, apontando o mercado, rouba-se, logo a seguir, indicando o tribunal, julga-se, e lá no cimo, vês a cadeia?, pena-se. Chegados à Pastelaria da Ponte, escolhemos uma mesa sobre o rio, ponteado de guigas, barcos de duas proas, não de vaidade, mas nada melhor a ré ser proa para um barco de regata cortar a meta em primeiro lugar. Falamos da tentação que Amarante é para os pintores e, como não podia deixar de ser, de Amadeo de Souza-Cardoso (exemplo de que a vida não vale só pelo número de anos) e de Teixeira de Pascoaes. O fio da conversa levou-nos a um familiar de Amadeo de Souza-Cardoso – o Cardosinho, de Manhufe, homem rico, que gastava os dias sentado, abstracto que nem bronze de estátua, no café Bar, e que um dia um pedinte perturbou: por amor de Deus, que tanto o prendou de bens materiais e outros, não podia dar-me uma moeda? A recusa, metafisicamente fundada e insensivelmente dada, não tardou: Deus deu-me, de facto, muito dinheiro, mas não me deu vontade nenhuma de o dar. Quanto à léria: pode ser patranha – alguém viu amêndoa amarga em doce? –, mas que é uma patranha gostosa, lá isso é.

Promessa gastronómica, tanto ou mais que a metafísica, é para cumprir. Um destes sábados fomos, na companhia das mulheres, ao “verde”. Para abrir o apetite, fizemos uma visita ao Parque Florestal, fixando-nos mais nas margens do Tâmega bordadas a amieiros. Demorámo-nos no açude, no retoiço e na fala das águas em cascata, e na pintura do casario e da ponte sobre a tela do espelho de água. A propósito dos moinhos, o meu concunhado, que não deixa de ornar, aqui e além, a conversa com humor, como vimos acima, chama-me à parte e diz-me: o cavalo da tia Maria moleira, com a primavera à porta, não parava de desenrolar a corda; dois adolescentes passaram e não se contiveram: tia Maria, já viu o cavalo? E sem ver: vi, vi! Quando vê homossexuais, fica logo naqueles preparos. A hora do almoço aproximava-se e lá fomos ao Quelha ao “verde”, espécie de açorda feita de miúdos de cabrito. Bom, mas pesado, como o preço. Com o ex-libris do doce conventual fechado (fechado, mesmo) – a Lai Lai –, o café não podia, apesar da repetição, deixar de ser na Confeitaria da Ponte A acompanhar o ritual do café, o meu concunhado ia tirando fotografias da mala do tempo e da memória. Do álbum, escolhi esta: aqui ao lado, conta numa voz de não acordar bebés, morava o senhor Miranda. As suas galinhas galgavam, amiúde, o muro e iam para o quintal da dona Maria Amélia, sua vizinha. Esta para as afugentar, atirava-lhe pedras. Um dia, o senhor Miranda, poeta repentista e bocageano, sempre de olho nela e nelas, arremessou-lhe a seguinte quadra sem esquadria: Dona Maria Amélia da m..., Beleza da p... que a p..., Se você mata o pito, Eu f... a si, ouviu? A digestão foi feita na margem direita. Primeiro, visitámos o museu Amadeo de Souza-Cardoso e, depois, passeámos sempre com a “Ilha dos Frades”, pintada e perfumada de amarelo mimosa, e com a casa da “Cerca” e a dos “Correios”, aonde se vêem ainda as ruínas do abrigo, onde a vergonha feminina de outros tempos se guardava de incontinentes, lascivos e concupiscentes olhares, como pano de fundo. Outros os tempos! Somos os tempos e esfumamo-nos no tempo.