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Quarta-feira, Abril 9

Aldeia global

Do meu local, saúdo todos os locais. Da minha janela, todos os transeuntes. Da minha aldeia, todas as aldeias. De mim, a Humanidade. O que está no alto vê, geograficamente. O que está dentro, profundamente. O que está por cima domina. O que está por dentro é hospede. O movimento histórico é uma queda acelerada uniformemente no plano inclinado do tempo. O tempo dinheiro, os espaços privativos, a Humanidade periférica: milhares de milhão na berma da vida e do ser. A Globalização divisão da Terra por um: Terra nenhuma para o local e toda para o global.

A todos, aos companheiros do estradão da História, à elite eleita pela vida e aos eleitos elegidos por Deus, aos mortos e caídos na berma, aos atropelados, às crianças que morrem secas de seios secos, aos órfãos do ser e do ter, a todos, para quem não há Shakespeare, Deus, Kant, Marx, saúdo. E a ti, Humanidade, minha contemporânea, extemporânea, e a vós, conterrâneos, estrangeiros na própria terra, e concidadãos, em terra de súbditos, saúdo, igualmente. Cidadania e cidadão? Como, se as cidades estão vazias, os subúrbios dormitórios e a ágora sem polémica? O homem universal? Mas alguém sabe de si?

Em verdade, em verdade vos digo: antes da chegada do citoyen du monde, todos serão escravos pós-modernos. Os empreiteiros do global sempre foram os impérios: local onde os locais desaguam: todos os caminhos vão dar a Roma, toda a pirataria a Londres, todos os mares a Lisboa, toda a barbárie a Berlim, todos os caminhos, mares, céus, barbárie, pirataria e petróleo a Washington. A distância entre mare nostrum e full spectrum dominance é a distância entre Roma e Washington. Depois, tudo se esquece e amanhã a História cantará a americanização como hoje, com excepção de Astérix e Obélix, canta a romanização. As histórias aos quadradinhos são bem mais verdadeiras do que a livre. A História tem e cumpre o seu destino: o império global e a dialéctica entre local e global o seu motor. Os homens: obreiros. O intervalo entre os impérios é feito de guerra para chegar a eles. A paz vem com os impérios: pax romana, pax americana. A História, como construção do império global, consummata est: em Washington, a mais ocidental das Babilónias. Em nome da democracia.

E tu, Sócrates, que não és de Atenas nem de Coríntio, de onde és? Atenas histórica deu-te a cicuta, Atenas eterna a eternidade.

Domingo, Abril 6

REVISÃO DA HISTÓRIA


A propósito da passagem de cinco anos sobre o início da Guerra do Iraque, a 20 de Março de 2003, e da Cimeira das Lajes, que a precedeu, a 16 de Março de 2003, anda para aí gente a saber do peso da consciência de Barroso, de Bush, de Aznar e Blair e dos apoiantes da Guerra. O poder não tem consciência, porque consciência é inacção. Barroso dirá: queria era ver-vos no meu lugar. Uma coisa é estar no palco da história (poder) outra estar na assistência (criticando ou aplaudindo). O ponto bem lhes diz: não foi isso que prometestes, mas fazem ouvidos de mercador. Não é Sócrates? Sem esquerda por onde ir, o homem meteu-se a direito pela primeira rua à direita que lhe apareceu pela frente.

Os apoiantes entusiastas da guerra (bem piores do que Barroso), que ontem gritaram não ao imperialismo e ao social-fascismo, andam por aí e para aí a dizer coisa sem coisa, e a escrever coisas e loisas, não se dando conta que, apesar da emigração oportuna e oportunista no espectro político, continuam igualzinhos ao passado. Quando se abre a especialidade de psiquiatria política? Enquanto e não, por que razão o (im)paciente Pacheco Pereira não recorre aos serviços do psiquiatra político Alfredo Barroso?

A História não é dos vencedores, e muito menos dos vencidos, é da História. É de quem vai à frente e de quem a ele se cola. O nosso caso. A Europa descobriu, tarde, que a América substituiu a colonização geográfica pela económica. A Geografia é a base, melhor, as Bases, distribuídas pelo Mundo, para assegurar o económico. A América conquista pelo económico: todo o mundo quer ser América. O exército é a retaguarda. E onde entra só faz fezes.

Apontamentos

1- O socialista Jorge Coelho, na linha de outros políticos do centrão, como Ferreira do Amaral, vai assumir um importante lugar de gestão no maior grupo de construção do País – Mota-Engil –, empresa que integra o sector que tutelou enquanto ministro das Obras Públicas. O ministério, longe de ser um sacerdócio político, é o estágio para a gestão empresarial. Li hoje num diário que 50% das empresas privadas têm ex-políticos como gestores. E por que será, se estão muitas vezes em sectores que não dominam? «Para darem continuidade ao trabalho que iniciaram no governo», responde-me Luís Afonso no Bartoon. Economicamente, trocar a vida partidária e a “quadratura do círculo” por um lugar de chefia na gestão da Mota-Engil é muito mais aliciante. O dinheiro nunca é demais. Quando ao défice democrático e socialista, outros que tratem dele.

2- O ministro da cultura, Pinto Ribeiro, na apresentação pública do projecto Ruas da Cultura, em Montemor o Velho, defendeu um estudo sobre o valor económico da língua portuguesa. E como quem descobre uma Índia: já pensaram no «valor económico único» de um autor como Fernando Pessoa? Pergunta que não deixa a resposta em boca alheia: «É possível que Pessoa, enquanto produto de exportação, valha mais do que a Portugal Telecom». Isto contado ninguém acreditava. Com o País pelas Ruas da Amargura, o ministro da Cultura vê em Pessoa o filão que pode levar-nos às Ruas da Fartura. Já agora, por que não pôr Pessoa na Bolsa e fazer uma troca entre o ministério da economia e o da cultura? Manuel Pinho passava para a cultura (não são os nossos escritores os verdadeiros empresários?) e Pinto Ribeiro para a economia (a nossa economia não é um mito?).

3- Paul Ekman, Professor de Psicologia do Departamento de Psiquiatria da Universidade da Califórnia, nos EUA, é um expert na detecção de mentiras, graças a uma ferramenta que elaborou – Micro Expression Training Tool (METT) – que como o nome diz detecta a mentira através da análise das micro expressões faciais. Como não podia deixar de ser, Ekman é consultor do FBI e da Scotland Yard. Em entrevista ao Público, de 4 de Abril de 2008, pela sua passagem por Portugal, onde participou no simpósio Aquém e Além do Cérebro, promovido pelo BIAL, no Porto, afirmou que «ninguém votaria num político que não fosse capaz de mentir». Ora aqui está uma janela, como agora sói dizer-se, para lermos atentamente as expressões faciais de Sócrates nas próximas eleições. Contrate-se o homem, já!, para não sermos levados por lorpas, pela segunda vez.

Quarta-feira, Abril 2

Somos todos americanos

Relativamente às posições românticas (para não dizer eleitoralistas) de Obama – que amanhã serão esquecidas, caso chegue à presidência dos EUA –, sobre a guerra do Iraque, e às críticas que ele fez ao candidato republicano McCain, este não só acusou Obama de não conhecer a história militar americana e de nada saber como os EUA exercem a sua esfera de influência, como lho lembrou (e nos lembrou).

E preto no branco: «Os Estados Unidos combateram uma guerra contra a Alemanha e o Japão e até aos dias de hoje mantêm uma presença militar nesses dois países. Combateram na Coreia, e mantêm tropas na Coreia. Na primeira Guerra do Golfo, expulsaram Saddam Hussein do Kuwait e agora têm ali uma base militar». (fonte: jornal Público, 2 de Abril de 2008, p. 20). Conclusão: se os EUA não saíram da Alemanha (e a guerra já findou em 1949), como não ficarem militarmente – bases militares – no Iraque por mais um século ou por toda a eternidade? O estranho é como estas afirmações não geram uma crise grave entre a Europa e o Japão, por um lado, e os EUA, por outro. Que pensarão Ângela Merkel e Yasuo Fukuda, e os povos alemão e japonês de tudo isto?

Face ao silêncio global, a conclusão global: somos todos americanos.

Terça-feira, Março 25

LIVROS E MÚSICA A QUILO

O artista que troca uma hora de trabalho
por uma hora de conversa com um amigo
sabe que está a sacrificar uma realidade
a algo que não existe.
(Marcel Proust)

O mal dos que se crêem na posse da verdade é que,
quando têm de o demonstrar, não acertam uma.
(Camilo José Cela)

Sobre tema semelhante, escrevemos, já, Sonho em Saldo. Mas o tema é, agora, dupla e qualitativamente novo: ao montão de livros, em saldo, de ontem, sucedeu a cultura, a quilo, e a um autor anónimo saldado sucederam autores de renome, sendo um deles prémio Nobel. É isso mesmo: cultura a quilo, pesada e tudo. Também eu não queria acreditar no que via. E, para tirar qualquer dúvida, lá estava o ícone da balança. Os livros a 3 € / Kg. A Música a 19.90 € / Kg. Onde? Numa grande superfície. Logo à entrada, num espaço, onde tudo se saldava, desde roupa, até livros, passando por detergentes, ferramentas, artigos sortidos e outras coisas, deparei com São Camilo, 1936 de Camilo José Cela (1916-2002), prémio Nobel em 1989, e o Tempo Redescoberto de Marcel Proust (romance publicado, em 1927, cinco anos após a sua morte). Aproveito para citar uma passagem que vem na capa: «O espanhol não crê em Deus, crê na fogo; em Deus só crê na medida em que lhe dá argumentos para acender a fogueira». E como não podia deixar de acontecer, lembrei-me dos nossos autos-de-fé, em nome de Deus. Claro que os salvei logo daquela humilhação, até porque o resgate era insignificante. Ao lado, o produto cultural fresco: autor da semana: Isabel Allende, rodeada de uma série de livros seus, e uma lista dos mais vendidos. Lidos? Amanhã, não vai demorar muito, passarão para a outra secção.

Dirijo-me a uma caixa. Pago. Ao conferir o recibo, leio: lazer, livros ao kilo, 0,155 X 3.00 = 0,47 € / 0,310 X 3.00 = 0,95 €. Música: CD COL. MUSICA KG: 0,085X 19,90 = 1.69€; 0,095 X 19.90 = 1.89; 0,0 95 X 19.90 = 1.89€. Autores e obras? Nada. Pura mercadoria, tal como um quilo de massa ou arroz ou uma embalagem de detergente. Sinal dos tempos: o livro, além de valer só pelo peso e nada pelo conteúdo, perdeu a sua natureza sagrada e espiritual. Curiosa e ironicamente, Em Busca do Tempo Perdido, em sete romances, de Marcel Proust (1871-1922), o tema central é a memória e o tempo.

E sem dar conta dei comigo a perguntar-me: quando o nobelizado Camilo José Cela e Marcel Proust tiveram este destino, quem se pode atrever a sonhar ser futuro? O choque foi tão grande que a mão, a mando de não sei de quem, se escusou, a escrever mais, naquele dia. No dia seguinte, voltou a mentira. A luta entre memória e tempo não é fácil para a memória. O tempo é mais eficaz do que a água e o vento. A erosão ao apagar rostos escreve e cria novos rostos, mas o tempo, ao apagar a memória, não nos reduz a pó, reduz-nos a nada.

Quinta-feira, Março 20

Assim vai o Mundo!


O governo grego do conservador Caramandis, na linha de Sócrates, quer fazer uma reforma da Segurança Social, alegando o mesmo motivo: falência da Segurança Social, atacando, para isso, direitos adquiridos. A resposta foi uma manifestação de 100 mil trabalhadores só nas ruas de Atenas. Que tem isto a ver connosco? Lá, o governo é conservador e entre os manifestantes estava Georges Papandréou, o líder do parido socialista grego! Aqui, o governo é “socialista” e entre os manifestantes estão milhares de votantes socialistas (todos comunistas, ou por estes manietados!). Assim vai o Mundo!

Quarta-feira, Março 19

CRÓNICA SOBRE AMARANTE


No regresso do Porto para Vila Real, parei em Amarante – terra em que não há ninguém que não saiba nadar e alcunha não tenha –, onde na companhia do meu concunhado coronel António Pereira da Silva, que, sempre amável e prestável, me leva e traz, almocei e passei parte da tarde. O almoço, no Quelha, foi, depois de umas entradas, polvo grelhado, brando que nem água, com batatas a murro, acompanhado de um excelente vinho verde tinto do “Marantinho”. Conta, se faz favor. Caro, mas excelente. Da próxima, diz-me ele, vai ser “verde”.

Para cortar, fomos à Confeitaria da Ponte comer uma léria e tomar café. Enquanto caminhávamos na companhia do rio – o Tâmega é uma divindade omnipresente – o meu concunhado, natural de Amarante, foi o meu cicerone. Olhando o anfiteatro, que assiste ao teatro das águas do lado norte, leu-me nele o teatro das gentes: ali, apontando o mercado, rouba-se, logo a seguir, indicando o tribunal, julga-se, e lá no cimo, vês a cadeia?, pena-se. Chegados à Pastelaria da Ponte, escolhemos uma mesa sobre o rio, ponteado de guigas, barcos de duas proas, não de vaidade, mas nada melhor a ré ser proa para um barco de regata cortar a meta em primeiro lugar. Falamos da tentação que Amarante é para os pintores e, como não podia deixar de ser, de Amadeo de Souza-Cardoso (exemplo de que a vida não vale só pelo número de anos) e de Teixeira de Pascoaes. O fio da conversa levou-nos a um familiar de Amadeo de Souza-Cardoso – o Cardosinho, de Manhufe, homem rico, que gastava os dias sentado, abstracto que nem bronze de estátua, no café Bar, e que um dia um pedinte perturbou: por amor de Deus, que tanto o prendou de bens materiais e outros, não podia dar-me uma moeda? A recusa, metafisicamente fundada e insensivelmente dada, não tardou: Deus deu-me, de facto, muito dinheiro, mas não me deu vontade nenhuma de o dar. Quanto à léria: pode ser patranha – alguém viu amêndoa amarga em doce? –, mas que é uma patranha gostosa, lá isso é.

Promessa gastronómica, tanto ou mais que a metafísica, é para cumprir. Um destes sábados fomos, na companhia das mulheres, ao “verde”. Para abrir o apetite, fizemos uma visita ao Parque Florestal, fixando-nos mais nas margens do Tâmega bordadas a amieiros. Demorámo-nos no açude, no retoiço e na fala das águas em cascata, e na pintura do casario e da ponte sobre a tela do espelho de água. A propósito dos moinhos, o meu concunhado, que não deixa de ornar, aqui e além, a conversa com humor, como vimos acima, chama-me à parte e diz-me: o cavalo da tia Maria moleira, com a primavera à porta, não parava de desenrolar a corda; dois adolescentes passaram e não se contiveram: tia Maria, já viu o cavalo? E sem ver: vi, vi! Quando vê homossexuais, fica logo naqueles preparos. A hora do almoço aproximava-se e lá fomos ao Quelha ao “verde”, espécie de açorda feita de miúdos de cabrito. Bom, mas pesado, como o preço. Com o ex-libris do doce conventual fechado (fechado, mesmo) – a Lai Lai –, o café não podia, apesar da repetição, deixar de ser na Confeitaria da Ponte A acompanhar o ritual do café, o meu concunhado ia tirando fotografias da mala do tempo e da memória. Do álbum, escolhi esta: aqui ao lado, conta numa voz de não acordar bebés, morava o senhor Miranda. As suas galinhas galgavam, amiúde, o muro e iam para o quintal da dona Maria Amélia, sua vizinha. Esta para as afugentar, atirava-lhe pedras. Um dia, o senhor Miranda, poeta repentista e bocageano, sempre de olho nela e nelas, arremessou-lhe a seguinte quadra sem esquadria: Dona Maria Amélia da m..., Beleza da p... que a p..., Se você mata o pito, Eu f... a si, ouviu? A digestão foi feita na margem direita. Primeiro, visitámos o museu Amadeo de Souza-Cardoso e, depois, passeámos sempre com a “Ilha dos Frades”, pintada e perfumada de amarelo mimosa, e com a casa da “Cerca” e a dos “Correios”, aonde se vêem ainda as ruínas do abrigo, onde a vergonha feminina de outros tempos se guardava de incontinentes, lascivos e concupiscentes olhares, como pano de fundo. Outros os tempos! Somos os tempos e esfumamo-nos no tempo.

Segunda-feira, Março 10

MATÉRIA EM DIA

1- SÓCRATES E OS MAMARRACHOS. Há já alguns dias, escrevi: a síntese do Bartoon do Público, de 2-2-2008, relativa à dúvida sobre a autoria dos projectos assinados por José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, é magistral e que passo a plagiar: entre ter assinado projectos, que não fez, e ter sido o autor daqueles mamarrachos, venha o diabo e escolha. A arte diz – melhor, mostra –, em duas linhas aquilo que a prosa de um jornal inteiro não consegue dizer. E di-lo tão profundamente que deixa sem defesa o visado. De facto, qual o pior dos males: o ter, o licenciado em engenharia pela defunta UnI, à data ainda bacharel pelo Instituto Superior de Engenharia de Coimbra, assinado os mamarrachos que não fez ou ser deles o seu pai verdadeiro ou adoptivo (disjuntiva ainda não desfeita)? No primeiro caso, mente-se, no segundo, “cimenta-se”. A arte da política é esconder, a arte da arte mostrar.
José Sócrates Carvalho Pinto de Sousa, ao defender-se, politicamente, enterrou-se, esteticamente. É feio? Que interessa? Não é eficaz? Dois milhões de portugueses na pobreza, 8% de desempregados, a saúde doente, o insucesso da política educativa e uma classe média a extinguir-se? Que interessa? O défice não está mais magro?
O País, em política de empreitada, está transformado num mamarracho e JSCPS, rodeado de capatazes, o seu autor.

2- A LINGUAGEM DO ROSTO DE SÓCRATES. No debate quinzenal, na Assembleia da República, enquanto Santana pedia a Sócrates que confirmasse, na casa da democracia (tão mal frequentada que corre o risco de virar casa de outros interesses), se era ou não autor dos projectos das casas construídas na Guarda, o rosto de Sócrates falou melhor e mais alto do que as suas palavras.
À medida que o questionamento de Santana ia sendo recebido por José Sócrates, o animal político feroz, fervendo de cólera e nervosismo, soltava-se, moldando-lhe o rosto: corpo tenso, tronco e cabeça semi-inclinados, lábios contraídos, olhar, amedrontador, de baixo para cima, em posição de defesa e pronto a investir; corpo rígido, músculos faciais saídos, em movimentos de sístole e diástole coléricos, lábios fechados com força e cenho franzido, pupilas dilatadas, de cólera; caretas e mais caretas, trejeitos e mais trejeitos, morder e contorcer dos lábios, de nervosismo.
Depois, a investida verbal, que ficou, em tudo, muito aquém da gestual. Corporalmente, desancou em Santana, verbalmente, repetiu-se. A pior coisa que se pode fazer a Sócrates é questioná-lo sobre aquilo que for. Inquestionável, transforma as questões em ataque pessoal! Ao grotesco Cavaco do bolo-rei sucedeu a hybris corporal e verbal de Sócrates.

SÓCRATES E A CICUTA. A morte política de Sócrates já começou. A fase sofista chegou ao fim. Ao contrário dos lacraus e das víboras, a quem a natureza lhes deu o veneno como arma de sobrevivência, nos humanos, o veneno vira-se, sempre, contra o seu portador. Sócrates não precisa de ser condenado: ele auto-condena-se. Não é preciso obrigá-lo a beber a cicuta. A cicuta de Sócrates é Sócrates.